Montagem sobre foto de: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/

Na lenda grega, Ícaro foi o primeiro homem a voar, fazendo uso de asas de plumas fixadas com cera. Ele teria desobedecido seu pai e voado muito alto e ao se aproximar do Sol, a cera derreteu e ele caiu. Certamente a história de Ícaro é mais complexa e meu resumo simples demais, mas o importante é termos em mente que voar é um sonho para muitos, até mesmo nos dias atuais.

A nossa querida “rainha bela do Iguaçu” também já teve seus “Ícaros” e a façanha de voar nunca deixou de povoar as mentes são-mateuenses. Hoje temos até um Coronel-aviador comandando uma Base Aérea de Natal, Rio Grande do Norte. Me refiro ao Luiz Cesar Zampier Ulbrich, filho do nosso ex-prefeito Tiquinho e dona Vera.

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Um pouco mais atrás em nossa história, tivemos o trágico acidente aéreo que vitimou Altino Pereira de Lima e João Bettega, que numa manobra arriscada durante um vôo, com o objetivo de assustar os cavalos dos polacos que estavam nos arredores da igreja, perderam o controle da aeronave e caíram, morrendo em consequência dos ferimentos. Mas essa história já foi contada com maestria aqui mesmo no GI, pelo amigo Gerson Souza. Busquem os arquivos e confiram porque vale a pena.

Lembro de quando criança, ouvir dizer que Roberto Carlos certa vez pousou seu avião no campo de pouso da Fazenda Maria Izabel. Será? E foi pra onde o rei? Deixo a confirmação dessa parte por conta de quem tiver alguma informação da época. Vamos agora ao Ícaro da Vila Amaral

No final dos anos 1970, a televisão transmitia uma novela ou outro programa ambientado nas praias do Rio de Janeiro. Dentre as cenas, um voo de asa delta despertou o interesse de dois meninos em São Mateus do Sul, mais precisamente na esquina das ruas Antônio Carneiro Portes Neto com a rua José Caetano Ferreira. Aquele voo parecia ser muito prazeroso e aquela aeronave parecia ser de fácil construção, pensaram. Como a cena era repetida ao longo da semana, puderam fazer observações detalhadas e concluíram que queriam fabricar uma asa delta, afinal era um simples triângulo com uma travessa onde o piloto se segurava. Não tinha como não funcionar.

Era um tempo de simplicidade. Não havia muitas distrações eletrônicas. As brincadeiras eram decididas todas as manhãs e nunca eram as mesmas. Os piás ficavam nas ruas, nos quintais, terrenos baldios ou campinhos de futebol e era comum que construíssem seus brinquedos. A influência da TV era ainda pequena, resumindo-se às aventuras do Sítio do Pica-pau amarelo ou dos desenhos animados, mas nesse caso fora uma vinheta de abertura ou chamada da programação que inspirou a criação do “brinquedo”.

A simplicidade da aeronave em questão era tanta, que nem fizeram desenhos. Tinham tudo planejado na cabeça e partiram logo para a execução. O pai havia desmanchado um galinheiro velho e sobraram algumas ripas da cerca que confinava as penosas. Ripas de imbuia de 7 x 3 x 200 cm. Com certeza seriam material adequado para a estrutura do objeto voador, mas na TV parecia que usavam um tecido para resistir ao ar e fazer a coisa planar. Teriam que providenciar material similar.

Na rua Evaldo Gaensly, naqueles anos, existiam algumas lojas e uma delas descartou alguns sacos grandes de plástico. Perfeito! Era disso que precisavam. A asa estava garantida! Bastou pregar as ripas de modo a formar um triângulo e colocar uma travessa para servir de apoio das mãos na decolagem. Os sacos plásticos foram abertos e uns 300 gramas de pregos fixaram tudo perfeitamente. A asa Delta estava pronta! Uau! Até que ficou bonita, mas era melhor dobrar aquelas pontas de prego que atravessaram as ripas. Mas de onde seria a decolagem se a Vila Amaral não tivesse nenhum morro como no Rio de janeiro?

Os cálculos realizados mostraram que obviamente seria mais adequado que o piloto fosse o mais novo. Quanto menor fosse o peso do piloto, maiores as chances de sucesso. Mas faltava ainda a pista e o desnível necessário para a decolagem. Na TV estava claro que bastava uma corrida para o abismo e a corrente de ar fazia o resto, então já sabiam de onde seria a decolagem!

Eram umas 6 da tarde e os “Ícaros” aproveitaram que a mãe foi numa novena, para levar a recém construída asa delta para cima do telhado. Estava dando tudo certo, mas tinham que se apressar porque o espaço aéreo não estava controlado e poderiam surgir imprevistos. O piloto, se equilibrando na cumeeira do telhado de quatro águas, agarrou firmemente na travessa, correu (e nesse ato quebrou algumas telhas) e se atirou para o voo. O céu era o limite!

O plástico de fato deu uma segurada e não se pode dizer que o pouso aconteceu com aceleração de 9,8 m/s2, mas andou perto. A aterrissagem só não foi mais traumática porque a decolagem foi para o lado do quintal e havia no solo um canteiro de couves recém plantado pelo irmão mais velho. O piloto caiu ali e se enterrou no solo fofo, preservando as pernas. No entanto, não pode se livrar da pancada da ripa de imbuia na cabeça, mas o corte não foi profundo. Ainda bem que haviam dobrado as pontas de prego.

Neste dia, depois da novena, a “diretora do aeroporto”, também chamada de mãe, deu uma punição mais severa aos aprendizes de Santos Dumont e isso fez com que desistissem da carreira.

Esse Ícaro era um louco!

Luís Ferraz
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