(Imagem Ilustrativa)

“O pensamento vazio dos brancos não consegue conviver com a ideia de viver à toa no mundo, acham que o trabalho é a razão da existência. Eles escravizaram tanto os outros que agora precisam escravizar a si mesmos. Não podem parar e experimentar a vida como um dom e o mundo como um lugar maravilhoso. O mundo possível que a gente pode compartilhar não tem que ser um inferno, pode ser bom. Eles ficam horrorizados com isso, e dizem que somos preguiçosos, que não quisemos nos civilizar. Como se ‘civilizar-se’ fosse um destino. Isso é uma religião deles: a religião da civilização. Mudam de repertório, mas repetem a dança, e a coreografia é a mesma: um pisar duro sobre a terra. A nossa é pisar leve, bem leve”. Sobre o pensamento indígena de viver. Recebi esse texto e me coloquei a refletir.

Falando nisso, me recordo de uma piada ou de uma filosofia de vida para outros, que diz mais ou menos assim: Numa praia muito bonita um pescador voltava da pescaria e vendia seus peixes na praia. Voltou cedo, vendeu seus peixes e um dos compradores logo após a compra viu o pescador deitado numa rede e foi ter com ele: -O senhor já parou de pescar? Poderia utilizar esse tempo para pescar mais peixes. No que o pescador perguntou -Por que? Para ganhar mais dinheiro? -Para quê? -O senhor poderia comprar outro barco e pescar mais ainda. -Para quê? -Para ganhar ainda mais dinheiro e comprar outro barco. -Para quê? -Para ficar rico. -Para quê? -Para um dia poder ficar tranquilo, se aposentar e poder ficar descansando numa rede. -E não é isso que estou fazendo agora?

A lógica do pescador era muito mais ampla do que a do empresário que queria que ele fosse rico antes de descansar, sendo que o pescador se achava rico por poder descansar. Assim é a vida na nossa sociedade que vai medindo a todos com a sua própria régua, sem se perguntar onde os outros querem chegar, se é que querem chegar a algum lugar. O costume de criar regras para os outros seguirem e até são chamados de burros, loucos, ignorantes se não seguem esses costumes da sociedade.

Recordo-me sempre de um professor que falava dos nossos indígenas, quando tentaram escraviza-los no passado e não funcionou e trouxeram os negros para escravizarem. Os índios viviam em comunidades, onde todos eram donos ou ninguém era dono, era coletivo. Diziam que eram preguiçosos, mas trabalhar para quê? Se tudo que precisavam a natureza dava, água, animais e frutas. Como dizia o professor, “A natureza era dadivosa”, não precisavam acumular, pois tinha para todos.

Se for seguir a lógica dos que pensam assim, ninguém provavelmente iria plantar, fariam outras coisas para serem ricas e assim comprar as coisas, mas que coisas, se ninguém planta? Ah, então iriam coletar as coisas, mas pra que, se o ideal é ser rico e poder comprar o que quiser? Ainda bem que nem todos pensam da mesma maneira e assim as coisas acontecem para todo mundo. Uns são felizes plantando, outros ensinando, outros servindo, outros comprando, outros vendendo, assim como temos aqueles que são felizes criando e assim caminha a humanidade. Agora a questão da felicidade está em achar aquilo que gosta e se sente útil em fazer, não importa a profissão. Ser médico, “uaaauuu” vai ser rico, mas tem muitos que preferem ser feliz e trabalhar no SUS, sem o menor constrangimento, ganhando bem e não sendo rico. Tem quem não abra mão de trabalhar com vendas, aqueles que conseguem vender picolé pra esquimó, e são felizes assim. A felicidade está dentro de cada um e negócio é descobrir isso, e não ficar procurando satisfazer a vontade dos outros.

Se um indígena é feliz da maneira dele, quem pode ter certeza que a maneira civilizada seria melhor? Assim como eles não entendem os civilizados que trabalham tanto pra ganhar dinheiro e depois gastam tudo pra recuperar a saúde. Onde está a lógica? Com eles ou com os civilizados?

Hugo Lopes Júnior
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