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Nos dias que antecedem o Natal, é natural, ou talvez nem seja mais, que as pessoas sejam invadidas por uma alegria, um contentamento não explicado que afrouxa sorrisos e prepara o espírito para aquele encontro com a família, com os amigos ou com a esperança de dias melhores. Geralmente essa sensação é chamada de Espírito Natalino. Mas vivemos tempos muito difíceis e paira no ar o amargor de dois anos de perdas gigantescas para a pandemia, inimigo comum, mas que afeta com mais força os pobres, aqueles em cuja porta a fome bate forte.

Em nosso país, que muitos gostam de nomear “celeiro do mundo”, metade da população se preocupa com a possibilidade de falta de alimentos e quase 20 milhões de brasileiros passam fome em todos os lugares do país, inclusive nas regiões produtoras de alimentos em larga escala. Em 2013, no Rio Grande do Sul, grande produtor de grãos e carnes, 84,1 % dos lares viviam em situação de segurança alimentar, ou seja, tinham acesso regular e permanente a alimentos em qualidade e quantidade suficientes para no mínimo 3 refeições por dia. Hoje esse índice está em torno de 70%, indicando que mais de um milhão de gaúchos passaram a ter fome rondando seu lar. Acredito que esse seja um retrato da região sul do Brasil.

Dentre as causas, obviamente que a pandemia teve um peso inegável, mas outros importantes não possuem nenhuma relação com a doença que matou mais de meio milhão de brasileiros. Entre esses fatores, o erro estratégico grosseiro da administração pública em desmontar o CONAB. O ser humano descobriu há milênios que é necessário armazenar alimentos em tempos de fartura para garantir estômagos cheios em tempos de escassez.

Nosso país fez um belo trabalho nesse sentido, mas mudou de rumo. Somente em 2019, 27 armazéns do CONAB foram fechados no país e programas com aqueles que compravam alimentos do pequeno produtor agrícola para repassar às escolas e entidades assistenciais. Isso rompeu uma cadeia e expôs as duas pontas fracas. De um lado o pequeno produtor ficou sem a garantia da compra do seu produto e de outro o cidadão em situação de insegurança alimentar perdeu uma fonte de alimentos em plena pandemia. Mas não há novidade. Historicamente os mais pobres são os primeiros a serem “convocados ao sacrifício” em tempos de crise. Rumamos para os níveis de insegurança alimentar dos anos 1980 e por isso reproduzo abaixo trecho da carta do Papa João Paulo II aos brasileiros, por ocasião da campanha da fraternidade de 1985: Pão para quem tem fome.

“Vede, irmãos! Nunca a humanidade dispôs de tantos bens e possibilidades, como hoje. E no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra, irmãos na humanidade, é atormentada pela fome e miséria. Fome no mundo e fome no Brasil! Sem deixar de reconhecer a complexidade do problema, pode perguntar-se: Terá esta tragédia de tantos irmãos nossos, explicação somente nas calamidades naturais ou também obras ou omissões comodistas, egoístas dos homens contribuem para agravá-las?”

Mais de 3 décadas se passaram desde a publicação da carta do hoje, São João Paulo II, as tecnologias melhoraram, os carros voadores chegaram, a comunicação em tempo real com qualquer lugar do planeta está acessível a quase todos e a humanidade tem James Webb, o telescópio espacial que será capaz de permitir o estudo das primeiras galáxias em formação. Mas na Terra, ainda há fome!

A reflexão proposta em 1985 pelo líder religioso católico continua atual e necessária. A fome que vai torturar milhões de brasileiros na noite do dia 24 de dezembro enquanto outros desfrutarão banquetes é uma tragédia natural? Quanto estamos cientes de nossa participação nesse processo? Entendemos a dimensão da tragédia humana da fome? Tem alguém com fome na minha vizinhança? Posso contribuir um pouquinho para minimizar esse sofrimento? Valorizo o alimento que tenho em minha mesa? Ensino os filhos a partilhá-lo? Evito o desperdício de alimentos que poderiam alimentar outras pessoas? Entendo o que é segurança alimentar? Tenho ela plenamente ou dependo de ações políticas para sua garantia?

Refletir sobre essas questões é essencial para que nossos corações e mentes estejam realmente abertos ao verdadeiro Natal.

Luís Ferraz
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