(Imagem Ilustrativa)

A França é clássica, linda e indescritivelmente charmosa. Tour Eiffel, Senna, Louvre, queijos, vinhos, croissants, baguetes e uma gastronomia que se tornou referência mundial em tradição, comprometimento e qualidade. Por lá, a cozinha é levada muuuito a sério.

Ao passear pelas ruelas de Paris, a gente convive com o requinte de quem se debruça sobre pratos fantásticos, e a base de manteiga, açúcar e muito bom gosto, a pâtisserie francesa conquistou pela boca o coração de todo o mundo.

Sempre adorei a confeitaria clássica, viajar em sabores e reconhecer texturas e harmonias culinárias. Para ser um Chef Pâtissier, é preciso muito mais que talento, tem que ter técnica e respeitar cada medida como sagrada, tem que se comprometer com a receita para chegar sempre ao melhor resultado. Mas como toda regra tem sua exceção, até mesmo o berço da gastronomia já cometeu seus deslizes, e de um descuido impensável, surgiu uma das iguarias mais tradicionais francesas.

Na coluna dessa semana, eu vou te contar a história da Tarte Tatin, uma clássica receita francesa de encher os olhos e dar água na boca.

Quando Jean Tatin faleceu no final do século XIX, suas filhas Stéphanie e Caroline herdaram e assumiram o negócio da família, o hotel e restaurante Tatin, No Vale do Loire, em Lamotte- Beuvron. Caroline era conhecida por ser uma excelente administradora e Stéphanie, uma cozinheira de mão cheia. A dupla funcionava muito bem e, mesmo após a falta do pai, o hotel seguia muito bem cuidado.

Uma das especialidades de Stéphanie era a torta de maçãs, servida morna, caramelizada e muito macia. Os clientes vinham de longe, de outros lugares, para provar a famosa iguaria.

Mesmo sendo ótima na cozinha, Stéphanie – assim como euzinho – também era conhecida pelo seu jeito meio distraído e tagarela. Pois muito que bem, num dia de muito movimento, ela ficou conversando demais com os clientes até perceber que não tinha preparado a sobremesa. Ela correu para preparar a torta de sempre, pôs tudo no forno mas só depois reparou que tinha esquecido de colocar a massa no fundo da forma. A massa, minha gente!

Não me admira porque eu me vejo fazendo isso tranquilamente! Mas a Stéphanie, quando se deu conta, vendo que as maçãs estavam caramelizadas, teve a ideia de pôr a massa por cima e de virar a torta quando ela saísse do forno.

Ela gostou do que fez e serviu a torta para seus clientes, que simplesmente adoraram a nova receita! Um sucesso imediato!

Mas vocês não estão entendo, gente, a danada da torta fez tanto sucesso que até um dos mais badalados críticos culinários da época, o nobre Maurice-Edmond Sailland, conhecido como Curnonsky, foi até o Hotel Tatin para experimentar e ficou encantado pela originalidade e pela agradável mistura de texturas e sabores. E aí como uma fofoca boa, ele espalhou pra todo mundo em Paris, contando que a torta era uma delícia, e a chamou de “tarte des demoiselles Tatin” – torta das senhoritas Tatin. E assim a Tarte Tatin se tornou uma celebridade nacional, sendo servida no restaurante Maxim’s, um símbolo da alta gastronomia francesa.

Aliás, a bichinha é levada tão a sério que criaram uma confraria para defender o respeito à tradicionalidade da torta, acredita? É a “Confrérie des Lichonneux de Tarte Tatin de Lamotte- Beuvron.

E desse erro impensável, nasceu um clássico. Ou seja, na cozinha, errar, às vezes, faz bem!

E se você quer entender todo esse sucesso da queridinha dos franceses, pega a receita e segura essa barra que é gostar de comer. Lá vai:

Tarte Tatin – Serve: 6

Massa

200 g de farinha
125 g de açúcar
1 pitada de sal
80 g de manteiga
1 gema de ovo
2 colheres (sopa) de água

Recheio

60 g de manteiga
80 g de açúcar
1 colher (sopa) de açúcar
1 kg de maçã sem casca, sem semente e cortada em 4 partes

Faça assim:

Massa

  • Peneire a farinha com o açúcar e o sal numa tigela. Faça um buraquinho no meio, coloque a manteiga e amasse com as pontas dos dedos até formar uma farofa grossa. Tipo de massa podre, sabe?
  • Adicione a gema, a água e misture até formar uma massa. Coloque mais água se precisar. Nunca coloque todo o líquido de uma vez, sinta a textura primeiro. Assim que você conseguir formar uma bola, pare de amassar, enrole em filme plástico e deixe na geladeira de 1 a 2 horas.

Recheio

  • Derreta a manteiga em uma forma redonda em fogo médio e assim que derreter, junte 80 g de açúcar e misture bem.
  • Disponha as maçãs na forma com lado arredondado para baixo, deixando o mais apertado possível. Polvilhe com 1 colher (sopa) de açúcar e deixe caramelizar em fogo médio por 12 minutos.
  • Tire a forma do fogo. Se as maçãs tiverem encolhido ou sobrar um espaços grande entre elas, centralize na forma e tente minimizar o espaço entre eles. Reserve.

Montagem

  • Pré-aqueça o forno em temperatura alta (200ºC).
  • Abra a massa numa bancada enfarinhada com um rolo até formar um círculo com diâmetro um pouco maior que o da forma, um dedo mais ou menos.
  • Coloque a massa sobre as maçãs, e dobre as bordas para dentro da forma. Leve ao forno e asse por 30 minutos.
  • Retire do forno, deixe esfriar por 10 minutos e então inverta a torta sobre um prato e sirva ainda morna.

Fica a dica:

Se você não tiver uma forma que possa ir direto ao fogo, caramelize a maçã numa panela e depois transfira para uma forma ou refratário redondo. E se sobrar caramelo derrame por cima das frutas. Você não vai se arrepender.
Ah, sirva com uma bola de sorvete de baunilha e bon appétit!

Lincoln Molinari
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