Jornal de São Mateus do Sul (PR) e região

Orgulho de seu trabalho e muita força para enfrentar os desafios: conheça a realidade das mulheres no campo

Marli é uma das mulheres que sentem orgulho de fazer parte da produção agrícola do município. (Fotos: Larissa Drabeski/Gazeta Informativa)

Marli é uma das mulheres que sentem orgulho de fazer parte da produção agrícola do município. (Fotos: Larissa Drabeski/Gazeta Informativa)

Dia após dia, faça chuva ou faça sol, elas dedicam-se às tarefas de cultivo da terra e dos cuidados do lar no ambiente rural. Na mente, sempre as preocupações com a família, com negócios e com a saúde. Esta é a rotina de muitas agricultoras da nossa região.

Em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) divulgou uma pesquisa que demonstra a importante presença feminina no campo: as mulheres contribuem com 42,4% da renda familiar.

No interior de São Mateus do Sul é possível conhecer de perto histórias de mulheres que dividem a responsabilidade de sustentar o lar. É o caso de Marli Buaski Wietzorkoski que desde pequena teve contato com o trabalho braçal da agricultura. “Eu e mais dois irmãos íamos para a lavoura. Me criei na agricultura, nem sei trabalhar em outra coisa”.

Hoje, aos 39 anos, ela trabalha no cultivo de verduras orgânicas com sua família na comunidade do Burrinho (próximo à localidade da Estiva). As famílias dessa região uniram-se para conquistar a certificação colaborativa para a produção de orgânicos. Eles integram também um projeto de venda que busca promover o consumo consciente, os produtos são entregues em sacolas todas as semanas para clientes previamente cadastrados. “Eu sinto orgulho de ser agricultora e felicidade de ver aonde a gente está chegando. Para mim é uma maravilha”, comenta Marli.

Iniciativas como essas são soluções interessantes para famílias no campo, que buscam melhores condições de vida sem precisar buscar o ambiente urbano. “A vida no campo é uma batalha dura”, avalia Dozia Wierczorkowski, 62 anos. “A mulher se esforça e faz dentro daquilo que ela conhece, até onde suas forças vão”.

Dozia pede mais valorização e apoio para a mulher do campo.

Dozia pede mais valorização e apoio para a mulher do campo.

Saúde

Para ela, no entanto, a classe de mulheres trabalhadoras ainda sofre com a falta de estrutura e de políticas públicas voltadas para o setor. “A mulher não tem muito apoio, os governos não nos apoiam”, avalia Dozia.

A atenção à área da saúde é um dos principais temas levantados. “Aqui na Estiva nós temos médicos e acesso ao preventivo. Mas, não temos dentista, por exemplo. Para fazer mamografia, dependemos do encaminhamento do clínico geral. Quando precisa ir para a cidade consultar, não temos condução fácil”.

Previdência

A proposta de reforma da previdência pelo governo federal também tem tomado a atenção das agricultoras. “Nós estamos torcendo que o governo não mude a previdência, pelo menos para os agricultores. É um trabalho desgastante”, avalia Dozia.

Este assunto é pauta de uma manifestação nacional dos movimentos do campo, contra a reforma da previdência. Dentre as mudanças para a aposentadoria estão o aumento da idade mínima de 65 anos de idade para homens e mulheres, tempo de serviço de 49 anos para ter direito à aposentadoria integral e a obrigatoriedade, aos agricultores e agricultoras familiares, camponeses e trabalhadores rurais, de ingresso no sistema do INSS para que tenham acesso à aposentadoria aos 65 anos, com a comprovação de pagamento por 25 anos.

Somente com a contribuição do INSS em dia é que as agricultoras poderão usufruir da licença maternidade. Em se tratando das trabalhadoras rurais, as pensões por viuvez serão reduzidas a 50% do salário mínimo e não poderão mais ser acumuladas à aposentadoria.

Iniciativas locais

Rosimara dos Santos Wierczorkoski, 41 anos, trabalha com a plantação de verduras orgânicas, a exemplo das vizinhas. Para ela, cuidar de suas mudas e ver as plantas se desenvolvendo nas estufas faz parte de sua realização pessoal. “Eu adoro. Sempre sonhava em plantar verduras”.

Mãe de três filhos, sendo uma menina, ela vê na filha o desejo de buscar oportunidades na cidade. “A gente fala para ela que a vida na cidade é complicada”, explica.

A falta de oportunidades no campo é um dos maiores desafios nos dias de hoje. No entanto, se falta atenção por parte do governo, as mulheres buscam na própria comunidade os meios de driblar as dificuldades.

“Eu me sinto realizada”, comenta Rosimara sobre seu trabalho na produção de verduras. (Fotos: Larissa Drabeski/Gazeta Informativa)

“Eu me sinto realizada”, comenta Rosimara sobre seu trabalho na produção de verduras. (Fotos: Larissa Drabeski/Gazeta Informativa)

Na comunidade do Burrinho, as mulheres se organizam para possibilitar capacitações na própria comunidade. Esta é uma forma de incentivar a manutenção das famílias no campo. Os moradores da localidade participam da iniciativa da Petrobras que fornece apoio psicossocial e agrícola e contribuiu para a organização em comunidade. Semanalmente, eles promovem encontros voltados para as mulheres, buscando oferecer alternativas de trabalho, principalmente para as adolescentes.

O objetivo é ter mais subsistência na região. “Podemos ter todos os serviços na própria comunidade, não precisar ir à cidade cortar o cabelo, por exemplo”, argumenta Dozia.

Conhecedora dos desafios e das conquistas já alcançadas pelas mulheres, ela deixa seu recado.

“Desejo que as mulheres se realizem e sejam reconhecidas, principalmente pelas famílias. Que elas nunca desistam, porque tem tanto trabalho nesta terra!”, comenta Dozia.

Sobre o Dia Internacional da Mulher

Em 1975, no Internacional da Mulher, as Nações Unidas celebraram pela primeira vez o Dia Internacional das Mulheres em 8 de março.

A data é de celebração dos direitos conquistados, mas também de muita luta. A promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, colocou o país na vanguarda mundial. A lei é amplamente conhecida: apenas 2% da população nunca ouviu falar dela. Com 3 milhões de telefonemas recebidos, o “Ligue 180” teve um aumento de 1.600% em chamadas registradas e aumento de 700% nas denúncias de violência entre 2006 e 2012.

O Brasil continua a ocupar o lugar 121º lugar no ranking de participação das mulheres na política, com as mulheres ocupando pouco mais de 10% dos assentos no Congresso Nacional.

As mulheres também ocupam apenas 10% das prefeituras e representam 12% dos conselhos municipais, apesar do cumprimento da lei de cotas (30%) obtido primeira vez nas eleições municipais de 2012.

Larissa Drabeski

Larissa Drabeski

Jornalista com MBA em Administração e Marketing, é cofundadora da empresa Levante - Fotografia e Comunicação, que oferece serviços diversos de marketing e comunicação empresarial. Contato: larissadrabeski@gmail.com
Larissa Drabeski
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