Histórias de Terra e Céu

Os “50 polacos armados”: São Mateus do Sul ataca Palmeira e invade Curitiba

Alguns leitores me perguntaram que história era essa de “50 polacos armados” que citei brevemente na introdução da coluna de semana passada. Ela se encontra em meu livro “A Estrela de Jacó”, mas realmente ainda não tive a oportunidade de detalhar neste espaço. É de um tempo em que mesmo as coisas de religião eram resolvidas na base das armas. Embarque comigo nesta história!

Na última década do século XIX, a Igreja Católica e a Maçonaria travaram um embate violento no Paraná. Enquanto os maçons tinham vários jornais em Curitiba onde despejavam suas artilharias contra o Clero, os padres respondiam dos púlpitos das igrejas, condenando os maçons ao fogo do inferno. Mentiras e fantasias eram usadas por ambos os lados na tentativa de difamar os rivais. Alguns padres tiveram papel destacado neste embate: Francisco Pinto (Lapa), Antoni Rimar (Ponta Grossa) e Jakób Wróbel (São Mateus do Sul).

Rapidamente os jornais maçônicos passaram a atacar o padre de São Mateus do Sul, a quem chamavam de “o fanático da Água Branca”. Diziam até que o capelão Wróbel e seu fiel escudeiro, Francisco Nadolny, espalhavam pela cidade que “não era pecado matar maçons”. Naquele tempo a Água Branca era uma capela subordinada à Paróquia de Palmeira, cujo pároco, Vicente Gaudinieiri, não aderiu à luta contra a maçonaria. E foi durante um período em que estava assessorando o padre de Palmeira que Wróbel entendeu a razão: Gaudinieri era maçom, tendo inclusive participado da fundação da Loja Maçônica de Palmeira.

O capelão da Água Branca levou o assunto ao Bispo que acabou destituindo o padre maçom Vicente Gaudinieiri. O fato gerou revolta na elite de Palmeira e também nos jornais maçônicos, que fizeram de Gaudinieiri quase um mártir. Para piorar a situação, Gaudinieiri se negou a aceitar a ordem do Bispo e seguiu rezando missas. Também se recusou a devolver as chaves das capelas polacas que ele atendia. A igreja de Vila Palmira ficou totalmente trancada em plena semana santa, e os colonos se negaram a arrombar a “casa de Deus”.

Vendo a aflição dos imigrantes da Vila Palmira, Jakób Wróbel se juntou ao padre de Ponta Grossa, Antoni Rimar, e, comandando 50 colonos são-mateuenses armados, atacaram a Igreja Matriz de Palmeira (foto) em 20 de abril de 1899, recuperando as chaves da capela de Vila Palmira. O jornal Jerusalém falou assim sobre o episódio de Palmeira: “Chegaram àquela cidade dois padres, o capelão de Água Branca e o coadjutor de Ponta Grossa, seguidos de 50 polacos armados em atitude hostil. Depois de reclamarem e obterem a chave da igreja, celebraram nesta durante três dias seguidos e de modo provocador”.

Antes que os maçons conseguissem reagir ao golpe, os polacos de São Mateus do Sul fariam outro movimento inesperado. Atendendo ao pedido do Papa, que ordenou romarias e tríduos em preparação à virada do milênio, os são-mateuenses surpreenderam: invadiram Curitiba com 300 colonos e suas carroças ornamentadas, tomaram a Catedral em plena festa de Pentecostes e rezaram por três dias em polonês, fazendo missas com longos discursos contra os maçons, a quem padre Wróbel se referia como “os filhos do Inferno”.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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