O Faxinal da Água Amarela é pertencente ao município de Antonio Olinto, alcançando uma grande extensão até o final
da década de 1990. (Fotos: Éber Deina/Gazeta Informativa)

Os municípios de São Mateus do Sul e de Antonio Olinto, apresentam diversos elementos alusivos ao contexto histórico que originou ou fomentou o desenvolvimento nessas cidades. Alguns cenários são comuns às duas localidades, cujas extensas zonas rurais são repletas de mulheres e homens que ainda guardam boas memórias sobre as histórias da região. O sistema de faxinais é um desses cenários, que nos últimos anos tem sofrido com as transfigurações produzidas pela globalização e pelo sistema de produção capitalista.

Mas o que são os faxinais?

Os faxinais consistem em comunidades que se diferenciam de outros espaços rurais, também por seus próprios sistemas de cercamento, mata-burros e uso das terras. São tradicionalmente distintos entre “terras de criar” e “terras de plantar”. São ainda, elementos de autoidentificação, as relações de compadrio e mutirão, a medicina e a religiosidade popular.

A distribuição dos faxinais polvilha-se pelas Matas Mistas do Paraná, notadamente na região centro-sul do estado. Eles se desenvolveram a partir da necessidade de melhor aproveitamento dos espaços, das forças de trabalho e da integração cultural entre caboclos e imigrantes. Dentro deste contexto, a erva-mate, o extrativismo da madeira, a policultura alimentar e a criação de animais dão sustento às bases familiares.

Os faxinais na legislação brasileira

O Decreto Federal nº 6.040/2007 instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Eles são grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, possuindo formas próprias de organização social, religiosa, ancestral e econômica. Além disso, é notada a utilização de conhecimentos, práticas e inovações geradas e transmitidas através da tradição. Como exemplo, podem ser citados os indígenas, os quilombolas, os caiçaras e os faxinalenses.

No Paraná, os faxinalenses têm sua identidade amparada legalmente pela Lei Estadual 15.673/2007, dispondo o reconhecimento do Estado sobre os faxinais e sua territorialidade. Apesar disso, nos últimos anos, as comunidades faxinalenses têm precisado batalhar cotidianamente, na garantia da manifestação da identidade e dos seus costumes tradicionais. São espaços ameaçados e em constante desarticulação ou dissolução, devido sobretudo às pressões externas, confinamento das criações, vendas de propriedades internas, desavenças com latifundiários vizinhos e avanços da agricultura moderna, entre outros fatores.

O Faxinal do Emboque

Paulo Wenglarek é presidente da Associação Comunitária dos Moradores do Faxinal do Emboque. Ele comentou sobre os diferentes momentos vividos no sistema produtivo comunitário. “Ainda no ano de 1986, firmamos o 1º acordo comunitário para a reorganização do Faxinal do Emboque. Passamos por muita luta e dificuldades ao longo desse processo constante de reconhecimento. Hoje em dia nosso Faxinal é composto por 60 famílias”, explicou ele.

O Faxinal do O Faxinal do Emboque é composto por cerca de 68 famílias, que ainda preservam importantes traços do sistema produtivo comunitário. Emboque está localizado na zona rural do município de São Mateus do Sul.

O Faxinal do Emboque está localizado na zona rural do município de São Mateus do Sul.

O presidente da Associação ainda refletiu sobre as principais dificuldades e características do sistema faxinalense. “Antigamente o faxinal apresentava vários aspectos tradicionais, como um criador de porcos comunitário que se estendia amplamente pela região. A troca de alimentos era uma coisa bastante forte também. As pressões externas na região influenciam muito na desarticulação do nosso sistema comunitário, o que faz com que esta seja uma luta eterna pelo nosso reconhecimento enquanto povos tradicionais”, afirmou ele.

A visão dos moradores mais velhos

Miro Wenglarek reside há cerca de 43 anos no Faxinal do Emboque. Ele comentou sobre as constantes pressões que influem sobre o sistema faxinalense. “ Hoje em dia está até difícil criar os porcos e os animais soltos como era antigamente. Os grandes proprietários de terra soltam cachorros pelas propriedades, que acabam matando os nossos animais. O sistema de faxinais já viveu dias melhores, o que resta atualmente é a resistência de alguns moradores que ainda praticam esse modo de vida tradicional”, refletiu Miro.

Seu José Henrique de Lima tem 89 anos de idade, tendo vivido e batalhado muito dentro do Faxinal da Água Amarela, em busca do reconhecimento do modo de vida tradicional.

O Faxinal da Água Amarela

José Henrique de Lima tem 89 anos de idade. A sabedoria trazida por muitos anos de experiência, inunda a fala de um senhor que já realizou vários esforços, para que o sistema de faxinais se consolidasse na região. “Antigamente não existia a comunidade da Água Amarela do Meio. Nosso faxinal se estendia desde a Água Amarela de Cima, até a Água Amarela de Baixo. Era tudo um grande criador comum, onde tudo o que era produzido pelas famílias, era aproveitado e trocado”, relembrou ele.

Seu José também carrega vivo na memória, os muitos desafios impostos ao longo da vida no Faxinal da Água Amarela. “Já batalhei e lutei muito pelo reconhecimento das raízes faxinalenses em minha terra. Uma coisa que atrapalha bastante, é a venda de terras dentro do sistema faxinalense, sem que aja a devida fiscalização. Essas terras são compradas por proprietários externos e cercadas. Eles dizem que isso é estranho ao modo de vida urbano. Pois aqui é nossa terra e de nossos ancestrais, é essa tradição que deve ser respeitada em primeiro lugar”, refletiu ele.

Uma luta constante pelo reconhecimento

Assim como as demais populações tradicionais brasileiras, a cultura faxinalense é frequentemente ameaçada por uma série de fatores externos. Cabe a nós o reconhecimento e a preservação dessas formas tão importantes de cultura. Os faxinais são importantes também do ponto de vista ecológico, sendo responsáveis pela preservação do que resta da Mata de Araucárias em nossa região. A luta constante dos faxinalenses faz parte também da nossa história local!

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