Agachados, da esquerda para a direita, os irmãos Luiz e Antônio Müller. A trajetória musical dos dois contou com vários parceiros durante os muitos anos de caminhada. (Fotos: Acervo Pessoal)

O desenvolvimento da tecnologia facilitou e dinamizou várias atividades desempenhadas pelo homem. Nos dias atuais, a internet se mostra como um grande acervo de informações, das mais variadas fontes e naturezas. A prática musical foi uma das ações que se tornou mais acessível aos indivíduos com o passar dos anos. Em uma época onde aprender a tocar um instrumento era tarefa difícil e rara, o relato dos irmãos Antônio e Luiz Müller serve de inspiração para diferentes gerações de músicos e apreciadores da cultura de maneira geral.

Os primeiros anos

O início da caminhada dos irmãos enquanto músicos se deu ainda na adolescência, enquanto eles viviam na comunidade do Porto Ribeiro, interior do município de São Mateus do Sul. Nos anos 60, o rádio era o principal meio de comunicação, interligando as cidades e a zona rural dos vários municípios contidos no Brasil. Esse mecanismo foi o responsável pelos primeiros contatos dos irmãos com a música, que naquela época possuía outros expoentes. “Nós costumávamos ouvir rádio e conhecer as músicas que estavam embalando o país naquela época. Era uma forma bem mais tradicional do sertanejo, aquele chamado de sertanejo raiz. Uma das minhas primeiras influências foi a dupla Milionário e José Rico”, recorda Antônio.

O papel das rádios na formação musical também permanece vivo na memória de Luiz. “Hoje em dia o acesso à música se tornou muito mais simples e rápido, no final de 1960 era o rádio que nos servia de principal fonte de inspiração. Eu conseguia ouvir a Rádio Farroupilha do Rio Grande do Sul e o trabalho de músicos como o Teixeirinha e Os Bertucci me motivaram muito a querer tocar um instrumento”, relembra ele.

O desafio de se tornar músico nos anos 1960

Desenvolver a arte da música era uma tarefa bem mais complicada do que nos dias atuais. Nos últimos anos da década de 60, os irmãos Müller passaram a residir na zona urbana do município. Todos aqueles que desejavam se tornar músicos tinham no rádio a principal ferramenta para aprender. “Eu passei a tocar acordeão e teclado, enquanto meu irmão aprendeu o violão e a guitarra. A única maneira de aprender a tocar um instrumento era ouvir exaustivamente as músicas que tocavam nas rádios, era tudo tirado de ouvido. Mesmo as revistas que continham cifras e tablaturas musicais não eram acessíveis na época, então era tudo na base da vontade”, afirma Luiz. O desenvolvimento dos gravadores à pilha facilitou um pouco o processo, o que representou uma das modernizações vivenciadas pelos irmãos durante o percurso da vida enquanto músicos.

Grupo musical Os Müller tocando um baile no mês de agosto de 1983.

Por volta de 1975, os dois oficializaram a formação do conjunto “Os Müller”, que contou com a colaboração de vários músicos ao longo dos seus anos de atuação. “Nós começamos a tocar bailes para animar as diferentes comunidades localizadas no interior de São Mateus do Sul e região. No início praticamos a música sertaneja de raiz, acompanhamos o desenvolvimento da música gaúcha e hoje em dia também incluímos coisas mais recentes em nosso repertório”, salienta Antônio.

O aspecto familiar dos bailes

As estradas rurais e a falta de luz eram situações que tornavam a ação de levar música ao interior do município muito mais complexa. “Era complicado até comprar um microfone, era preciso fazer uns três bailes para concretizar as coisas. Hoje em dia é tudo mais ágil, as pessoas podem adquirir e aprender a tocar um instrumento de maneira bem mais simples”, aponta Antônio.

Sobre o aspecto dos bailes de 45 anos atrás, Luiz carrega algumas boas lembranças. “Os bailes no interior tinham até jantar, era um clima bem familiar. Como muitas comunidades não possuíam luz elétrica instalada, nós carregávamos nosso equipamento de som, luz e uma bateria para alimentar tudo, a fim de tocar música e animar os eventos que aconteciam em várias comunidades da região”, lembra ele.

O legado musical e as principais recompensas

A trajetória de quase meio século de carreira na música rendeu muitas parcerias e satisfação pessoal aos dois irmãos. Além do conjunto musical Os Müller, que contou com a passagem de diversos músicos da cena local, a lembrança e o carinho das pessoas são muito marcantes. “Nós gostaríamos de agradecer a todos os parceiros musicais que nos acompanharam durante todos esses anos na música. Um conjunto não se faz sozinho, a atuação de diferentes músicos de apoio sempre foi muito importante para que nós continuássemos fazendo música e animando os eventos”, destaca Luiz.

Da esquerda para a direita: Luiz, o tecladista de apoio Pedro e Antônio Müller em uma
das apresentações mais recentes do conjunto Os Müller.

As histórias mais gratificantes se referem à memória das pessoas e a felicidade embalada pelas canções tocadas pelo conjunto. “Uma das coisas que mais me deixa feliz é andar pelas diferentes localidades da região, seja em São Mateus do Sul ou até em comunidades um pouco mais distantes, como Paulo Frontin. Encontramos pessoas para as quais tocamos há muitos anos atrás. O fato de estarmos animando diferentes tipos de eventos, como casamentos e festas, nos guarda de uma maneira bem especial na vida de quem viveu e presenciou essas coisas. Isso não tem preço”, enfatiza Antônio.

Os Müller continuam ativos na cena musical são-mateuense. Segundo relato dos dois irmãos, o principal foco nos últimos anos são os bailes da Terceira Idade, que divertem e entretêm muitas pessoas em nossa cidade. Em uma época onde a fluidez das coisas nos faz perder alguns detalhes, a história dos dois inspira bastante. “Nos dias atuais tudo é movido através da tecnologia. Mas nada substitui o talento e a dedicação para se aprender algo, é isso que torna a trajetória na música mais duradoura e sincera. Ao longo dos anos nós buscamos nos atualizar no que era pertinente, mas o velho espírito musical de uma época que passou, continua nos inspirando e motivando a tocar e celebrar o encontro e a união das pessoas”, encerra Luiz.

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