Na interminável discussão sobre posse e porte de armas, que tem ocupado espaço considerável nas conversas políticas tão acaloradas em nosso país atualmente, já ouvi mais de uma vez – “não se vencem armas com flores”. Fazendo um contraponto à famosa letra da música de Geraldo Vandré. “E acreditam nas flores vencendo o canhão”. Sim, flores nos passam uma mensagem de delicadeza, de carinho, de beleza. Um ramalhete só vai parar um canhão se comover o soldado responsável pelo tiro. Mas esta é uma visão simplista.

“Os opioides, se não viciassem tão rápido, seriam a melhor coisa do mundo”. Ouvi essas palavras de um neurocirurgião, acostumado a cuidar do “desmame” daqueles pacientes que precisaram receber morfina para aguentar a dor, seja causada pela doença ou pela agressão da própria cirurgia. É claro que o médico não costuma tratar dessa forma o tema, mas ele sabia da minha formação em química, do trabalho em laboratório e da curiosidade demonstrada sobre as substâncias usadas no centro cirúrgico. É daquelas pessoas que tem a habilidade de adequar naturalmente o vocabulário ao interlocutor e fazer a conversa parecer sempre simples.

O médico se referia à morfina, substância isolada pela primeira vez em 1803, a partir do ópio, pelo farmacêutico Friedrich Wilhelm Adam Serturner. O nome dado à substância foi uma homenagem a Morfeu (Deus grego do sono). Quem já recebeu uma dose certamente vai concordar com a homenagem.

De inquestionável eficácia como analgésico e anestésico, a morfina foi e ainda é muito utilizada em tratamentos pós-operatórios. Em ambientes de guerra, hospitais de campanha mantêm algum estoque para tratar soldados com graves lesões ou até amputações. Mas no passado, amputações eram realizadas com o paciente amarrado, para não se debater durante o corte. Outros anestésicos já existiam, mas tinham menor eficácia.

Estima-se que somente na guerra civil americana, mais de 400 mil soldados tenham voltado pra casa com síndrome da dependência de morfina. Na ausência da droga, sofriam com a abstinência que causava dores, diarreia, vômitos e vários outros efeitos.

Em 1874 o químico britânico, Charles Alder Wright sintetizou a partir da morfina uma outra substância, que em 1898 os laboratórios Bayer apresentariam ao mundo como substituto da morfina. Tratava-se da (5α,6α)-7,8-didehidro-4,5-epoxi-17-metilmorfinano-3,6-diol diacetato. Nome complicado? Mas não reclamem dos químicos. Só no sobrenome do meu amigo Arnaldo, que é Przybyzewiski Plodowski já tem mais consoante que nesta identificação da substância.

Você também pode chamar essa molécula de “Diamorfina”, ou “Diacetilmorfina”, ou talvez “Acetomorfina” ou ainda “Morfina Acetilada”. Mas tenho certeza que o nome mais popular dela você conhece ou já ouviu falar em filmes policiais, documentários ou reportagens: “HEROÍNA”.

A heroína é sintetizada a partir da Morfina, que por sua vez é obtida do Ópio. A extração de ópio tem alguma similaridade com a do látex natural (borracha) da seringueira. Ao se fazer cortes nas cápsulas da flor chamada Papoula do Oriente, se obtém um líquido branco leitoso e com ele se produz o ópio, substância conhecida e usada há milênios no oriente.

A heroína foi difundida como substituta da morfina e se acreditou por muito tempo que realmente era uma opção mais segura. Foi utilizada por 20 anos como sedativo da tosse receitada para crianças. Mas depois se descobriu que é metabolizada a morfina pelo organismo e vicia muito mais rápido. Num resumo leigo, podemos dizer que a heroína causa alteração tão importante no cérebro, que para o viciado, nada mais importa. Família, emprego, bens, saúde. Nada disso interessa. O importante é conseguir a droga e o estímulo cerebral que ela causa.

Na maioria dos países, a produção, venda e consumo de heroína é proibida, mas alguns permitem o uso em hospitais. O governo dos Estados Unidos declarou em 2017, que o país enfrentava uma “epidemia” de mortes causadas pelo consumo de heroína e estima-se que 1,3 % da população daquele país já tenha usado heroína. Algumas versões dizem que soldados americanos retornaram da guerra do Vietnam viciados em heroína e estabeleceram contato com traficantes, fomentando o tráfico dessa droga no país. 20% dos soldados que voltavam da guerra estavam viciados. A maioria abandonava o vício, mas em torno de 5% continuavam consumindo a droga e dependendo de traficantes.

No Brasil o tráfico de heroína não se estruturou por razões geográficas e econômicas. É muito complicada a logística para chegarem aqui os derivados do ópio, por causa das rotas de distribuição e complicadas e grande distância da ásia. Mesmo se chegassem, o preço seria muito alto e não concorreria com a cocaína, produzida nas vizinhanças. Como comparação, estima-se que o preço de 1g de heroína esteja em torno de 150 dólares, enquanto que uma pedra de crack custaria 2 dólares. Porém nos EUA e na Europa o problema é gravíssimo e representa dor de cabeça constante para seus governos.

Atualmente, entre 80 e 90% heroína consumida no mundo é produzida no Afeganistão, o que ajuda a entender a importância do país asiático para as pretensões dos norte-americanos de resolver o problema de consumo da droga em seu território.

Curiosidade: Em 1873, apenas um ano depois de ter pintado “Impressão: Nascer do Sol”, obra que deu ao mundo das artes o termo impressionismo, Claude Monet pintou a tela “Campo de Papoulas em Argenteuil”, inspirado em plantações dessas flores que observou nos arredores da cidade francesa na região em que se refugiou por causa da guerra franco -prussiana.
São as flores da Papoula, vencendo o canhão!

Luís Ferraz
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