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Para viver a vida da melhor maneira possível, não precisa-se necessariamente enxergá-la, diz Joelson Luis

“Gosto de dizer que não sou guerreiro. Um guerreiro mata para viver, eu sou um soldado em treinamento testando meus limites para sobrevier”, diz. (Fotos: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

Quando falamos em enxergar a vida com outros olhos, o contexto metafórico abrange muito além da visão, mas a valorização das pequenas coisas que sentimos. A vida baseada no sentimento é a principal forma de acreditar, vencer e buscar na formação de caráter, uma base para a vida. No perfil dessa semana, você vai compreender que a superação anda lado a lado com a vida, e que o “desistir” se torna empecilho e a desmotivação quando não se tem força de vontade.

Joelson Luis Nek Pacheco, de 52 anos tem uma voz muito reconhecida nas tardes da Rádio Difusora do Xisto. Nasceu na comunidade do Emboque, e lá passou a sua infância compartilhando do amor familiar. Veio para o município de São Mateus do Sul aos 10 anos, e com 13, um acidente automobilístico tirou a vida de seu pai, e essa fatalidade mudou a vida de Joelson e da família.

“Depois disso a vida foi difícil e tive que me virar para ajudar a minha mãe, trabalhei vendendo picolé, juntando batatinha e feijão”, diz. Sentindo a falta do pai, ganhou um violão e começou a se dedicar para aprender a tocar, “até hoje o violão e a música me fazem esquecer dos meus problemas”. Fã de música popular brasileira, se reunia com alguns amigos para tocar algumas melodias da MPB, e isso fez com que se tornasse professor de violão. Com a facilidade de identificação em tocar músicas, entrou em um grupo de jovens da igreja, e em um programa de rádio dedicado à oração da Ave Maria, descobriu um pouco mais sobre o quão vasto é o campo de trabalho em uma rádio.

Apesar da timidez e das dificuldades de relação com as outras pessoas, começou a usar do violão e da música para desenvolver a voz e deixar de lado a insegurança. Entrou na rádio em 1988 como sonoplasta, e logo em seguida como apresentador em programas.

Hoje Joelson canta, toca e compõe músicas próprias, dentre algumas, esses trechos merecem destaque: “Ás vezes é preciso ficar só, para descansar, desapegar, desabafar e ficar mudo. Se tudo muda em um segundo, vá devagar, pegar a estrada sem saber onde vai dar, as vezes é preciso fingir que tudo isso é possível (…)”. Música feita para seus pais, já falecidos “(…) hei pai, sentimos tanto tua falta, renasce outra vez e volta, a gente cuida de você. Hei mãe, passou o tempo e eu cresci, aprendi que a vida é mesmo assim e um dia eu também vou partir (…)”. Música feita para seu primeiro filho, Jackson “quando você chegar na primavera, e a luz divina te dar a vida, será bem-vindo, seja como for, menino ou menina, terá nosso amor. Quando você chorar na madrugada, não tenha medo, não há nada, vou estar aqui, para lhe proteger, te fazer sorrir, cantar para você dormir… dormir… dormir”.

Casado há 21 anos com Geovana, o compositor tem dois filhos, Jackson e Jaqueline, que são seus amigos, companheiros e vencedores nas batalhas enfrentadas. E entre essas batalhas, no final de 2016, uma delas mudou completamente a vida da família. Há 20 anos atrás, o descolamento da retina no olho direito fez com que ele perdesse a visão. Enxergando apenas com o olho esquerdo, as dificuldades começaram a surgir, e o grau da miopia começou a aumentar cada vez mais, o problema com cataratas foi o ápice para o impedimento na visão. Após uma cirurgia para a retirada da enfermidade, por erros médicos, um pedaço da cristalina caiu dentro do seu olho, ocasionando uma inflamação, e dessa forma ele foi perdendo a visão que lhe restava aos poucos. “Eu tinha muito medo do escuro desde criança, e de repente você fica sem enxergar. É uma sensação de estar no nada, sem horizonte nenhum, é apavorante. É como se você tivesse fechado em algum lugar sem absolutamente nada”, relata.

Joelson tem seu violão como companheiro a maior parte do dia e toda tarde ele escuta o rádio para acompanhar sua esposa e filha no trabalho pelas ondas sonoras da Rádio Difusora do Xisto.

Apesar da situação parecer (e ser) desesperadora, Joelson nunca desanimou e demonstrou isso para a família. Jamais deixou de fazer o que gosta. Ainda toca violão, faz todas as atividades sozinho e não é dependente para quase nada. Leva a vida de um jeito feliz, apesar de sentir falta de olhar para o sol, mas é motivado pelo amor e pelo carinho da família, que jamais o deixaram.

Joelson ainda busca mais apoio e deseja compartilhar de experiências de vida com outros deficientes visuais. Ele quer demonstrar que a vida pode ser levada normalmente, sem impedimentos e pensamentos negativos. Para vencer tudo isso basta ter força de vontade e felicidade correndo pelas veias. Se você conhece alguém com deficiência visual, conte a história do Joelson, certeza que ele gostará de conhecer um pouco mais sobre a realidade de outras pessoas.

Por motivos de saúde, hoje Joelson está afastado do trabalho na rádio, mas sem deixar a desejar em qualidade, a sua esposa Geovana, e a filha Jaqueline comandam o programa durante a tarde, e levam o radialista como exemplo. “Ele é uma pessoa bem humorada, um grande pai, esposo, amigo, companheiro, um homem de família, e um ouvinte crítico… Quando erramos ele fica nos cobrando. Apesar da dificuldade, ele está sempre pronto a nos animar e motivar, ele aqui em casa é nosso protetor, aquele que sempre está com uma palavra certa em qualquer hora, sem falar que é um perfeccionista em tudo e um ótimo cozinheiro. Nós o amamos, ele é nossa inspiração!”, enaltece a esposa. “Eu vivo o melhor dia hoje, porque se você não faz isso, você perdeu um dia, então aproveite a sua vida da melhor maneira possível!”, encerra.

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