Família Campos – Bodas de Ouro de Diva e Adílio. (Foto: Acervo Pessoal)

Há três anos e meio, minha mãe me convidou para caminhar com ela por entre os túmulos de um cemitério. Ela já caminhava com dificuldade, um sinal do que viria pela frente. A passos lentos percorremos as ruelas de uma área bem cuidada, limpa, até que paramos em frente de terreno demarcado no solo. Com ar tranquilo, me disse: “É aqui que vamos morar, eu e seu pai”.

Na terça-feira (22/10), ela mudou-se para o local escolhido, planejado por ela. Sim, seus restos ficariam por ali, mas com certeza sua nova morada seria um outro local especial, recompensa por tudo que fez em vida.

Durante os anos em que passou por este plano, enquanto ainda estava lúcida, minha mãe sempre esteve um passo à frente de todos nós. Quando alguma dificuldade surgia, ela sempre tinha uma solução para o problema. Desde cedo, aprendemos com ela que não se conquista nada sem trabalho, sem esforço e dedicação.

A aparente fragilidade da mulher de 1,55m não combinava com a força, com a vontade de viver que ela tinha. Ela insistiu, apesar da dor e do sofrimento em continuar mais tempo por aqui. Tenho certeza de que essa insistência se deu por acreditar que ela ainda precisava proteger, amparar seus cinco filhos homens e nosso pai.

Sim, ela foi grande, foi forte. Exerceu muito bem o seu papel de mãe. Precisou escolher outros referenciais para construir o seu modo de pensar e de agir. Perdeu a mãe aos sete, o pai aos treze. Foram muitos os obstáculos e ela continuou firme. Soube transmitir toda essa forma de resiliência aos filhos e aqueles mais próximos dela.

Sentado, em frente à esta tela de computador, relembro os dias em que, ao lado dela, aos cinco anos de idade, aprendi a ler. Eu me sentia curioso com os letreiros nas placas e na televisão. Ela comprou uma Cartilha Caminho Suave e me ensinou, pacientemente. Como na escola estadual não aceitavam crianças com menos de sete anos no primeiro ano escolar, ela fez ainda mais sacrifícios e me matriculou, aos seis, numa escola particular, tentando minimizar a minha ânsia por aprender. Se aprendi, se hoje posso compartilhar um pouco disso, devo muito a ela.

Minha mãe nunca deixou ninguém para trás. Todos admiravam a mulher que, com orgulho, passeava com os cinco filhos, de mão dadas, pelas ruas do bairro: “Onde vai um, vão todos”.

Ela foi daquelas pessoas que sempre tinha a casa aberta para a visita dos amigos e familiares. Ninguém saia de nossa casa, que estava sempre cheia, sem tomar um café e comer algo que ela gostava de improvisar: as “invenções malucas”, como dizia um de meus primos. Um simples ovo virava um doce para passar no pão. Um pouco da massa de pão em fermentação virava bolinho. Sei que nunca mais irei provar um bolinho de batatas como o que ela fazia. Nem vou saborear sopas como as que ela preparava só para me agradar. Meus irmãos têm vários exemplos como esses também.

Minha mãe adorava cantarolar, mesmo nos momentos mais difíceis e duros, como lavando roupas num tanque de madeira num dia gelado de inverno ou capinando um pequeno quintal para termos como completar a nossa alimentação.

Foi assim, administrando o escasso dinheiro que ela, com ajuda de meu pai, conseguiu educar, alimentar, vestir todos os filhos. Nos ensinou a encarar a vida com humildade, honestidade e simplicidade, bases da dignidade.

São tantos os doces momentos que posso lembrar. Compartilho alguns deles com vocês. Quando éramos pequenos, ela nos colocava em seu colo e, carinhosamente, cortava uma maçã ao meio. Depois ia raspando com uma colherzinha e dando na boca de cada um de seus pequenos. Ainda posso sentir a suavidade de suas mãos quando afagava meus cabelos e cantava uma canção de ninar.

Tentei, mas não encontrei palavras suficientes para agradecer tudo o que ela foi, o que representou na minha vida.

Diva Vieira de Campos
Nascimento: 10 de junho de 1943
Morte: 22 de outubro de 2019

Adnelson Borges de Campos
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