(Imagem Ilustrativa)

Quando se lê o título acima, logo pensamos no Brasil, um grande produtor agrícola e dono de imensas boiadas que abastecem o mundo. O país está entre os sete que respondem por mais da metade da produção global de alimentos. Apesar da aparente abundância, boa parte da população volta a passar fome. E olhem que a nossa produtividade mais que quadruplicou nos últimos quarenta anos, grande parte alavancada pela pesquisa agropecuária brasileira.

Com a alta do dólar, exportar continua sendo a melhor alternativa para os grandes produtores, que ganham um bom dinheiro e aumentam a concentração de renda no país.

Parece estranho, mas há quem produza e tem dificuldade de colocar a sua produção no mercado. É o caso de quem produz para atendimento do mercado interno, quem alimenta os brasileiros.

No último domingo, assisti duas reportagens no Globo Rural. Numa delas se falava do fechamento de um frigorífico em Goiás, onde na localidade se produzia para atendimento do mercado interno. Como o mercado interno não está consumindo, cessam-se as atividades.

No outro, produtores de mandioca do noroeste do Paraná admitem ter que reduzir ainda mais a produção, já reduzida em 40% no último ano, pois os preços caíram muito desde 2017 e os custos de produção só aumentam. Então, vão plantar soja ao invés da raiz.

Numa análise simplista, o mercado interno não consome basicamente por dois motivos: o preço está alto e os mais pobres perderam renda. Aí cabe uma pergunta básica: por que os preços não caem? Porque interessa aos maiores produtores que os preços continuem altos e porque não há uma boa gestão do Governo quanto a estoques reguladores nem definição de políticas que favoreçam aos mais necessitados neste país. O mercado tende a se autorregular, mas não o fará se as políticas públicas não forem claras neste sentido ou se não existirem.

Não sou economista, nem especialista em agronegócios, mas não consigo aceitar que onde há grande abundância, boa parte da população volte a passar fome, que voltemos aos mesmos níveis de 1983, onde havia a crise do petróleo, a inflação estava descontrolada, sofríamos os impactos do grande endividamento externo e produzíamos muito menos.

Com a alta constante dos preços do que é básico para a população, que precisa e tenta comer, sobra pouco para que empregue seu dinheiro comprando roupas, eletrodomésticos, outros bens e contratando serviços, itens que movimentam outros setores da economia. Resultado: muitos perdem. O Brasil perde.

As incoerências não param por aí. A indústria automobilística fecha fábricas, dá férias coletivas para seus empregados por não vender carros. Dizem que a culpa é da pandemia de da falta de componentes. Entretanto, os preços dos carros novos e usados não para de crescer. Só se vendem carros de luxo, pois a classe que os adquire continua com seu poder aquisitivo.

A fome, a miséria, trazem com elas problemas de segurança, conflitos sociais, prejuízos ambientais, doenças. Tudo causando ainda mais instabilidade.

O que se pregava na Universidade de Chicago entre as décadas de 1950 e 1970 do século passado não serve para os momentos atuais, mas quem “comanda” nossa economia não parecer querer enxergar. Para quem só tem o martelo como ferramenta, todo problema é um prego. Como afirmei em uma coluna anterior, nem o Capitalismo, nem o Socialismo nos moldes atuais servem ao mundo. É preciso encontrar outros caminhos que favoreçam a população, principalmente os menos favorecidos, que não são minoria.

Adnelson Borges de Campos
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