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Pelo segundo ano consecutivo, Prefeitura de São Mateus do Sul não realiza Carnaval

Assim como milhares de cidades brasileiras, São Mateus do Sul não promoveu o Carnaval, e o principal motivo é a crise financeira. Tradicionalmente o evento público é organizado pela Secretaria Municipal de Esporte e Turismo, e segundo o secretário Artur Roscoche dos Santos este é o segundo ano consecutivo que o evento não acontece na cidade. “Em 2013 e em 2014 mudamos a proposta do Carnaval de rua, levando a folia para o Parque Municipal de Exposições, para oferecer mais segurança aos foliões. Em 2015, destinamos os recursos à área da saúde. Neste ano, deixaremos de gastar cerca de R$ 60 mil no Carnaval para investir em qualidade de vida”, detalha.

Marcelo Amaral, um dos organizadores do bloco Manchas, que fez história na cidade, nos anos de 1992 até 2001, acredita que a crise não é um motivo para dar fim ao evento. “Sem exageros de gastos, o Carnaval poderia ter sido realizado com êxito. Pois, a crise não é exclusividade do nosso município, e o evento foi realizado em várias cidades brasileiras. Acho que faltou planejamento. A Prefeitura poderia ter buscado parcerias. Os próprios blocos poderiam ter sido chamados para ajudar e, com certeza, daria certo”, comenta.

O principal ponto de concentração de blocos de Carnaval da cidade foi Chimarródromo — um espaço público de lazer, inaugurado há pouco tempo.

Em 2016, na falta do carnaval de rua, o principal ponto de concentração dos blocos da cidade, foi o Chimarródromo — um espaço público de lazer, inaugurado há pouco tempo. Foto: Reprodução/Facebook

De acordo com Marcelo, o Carnaval de São Mateus do Sul era considerado um dos melhores do Paraná. Porém, está acabando. “Vejo que a tradição do carnaval na nossa cidade está acabando. Naquela época, logo após o fim das festas de ano novo a conversa era sobre o carnaval. Como faríamos? O que cada bloco apresentaria de novidade? Quais seriam as fantasias? A cidade vivia este clima. Os clubes entravam em contato com os blocos. A prefeitura se interessava. A festa era para a cidade. Hoje, não temos mais apoio e nem interesse dos clubes e muito menos da atual administração pública”, desabafa.

Emmanuel Maciel também concorda, que há muitos anos, o carnaval em São Mateus do Sul era considerando um dos melhores da região. “Não havia violência, e se havia o uso de drogas era de forma muito discreta, diferente do que ocorre hoje em dia. Lembro, e muito bem, que pessoas de União da Vitória, amigos de Curitiba (familiares também), amigos até mesmo de São Paulo vinham ‘pular’ carnaval em nossa cidade. O carnaval aqui, faz muita falta, mas infelizmente chega-se à conclusão de que não há como resgatar aquela magia carnavalesca de outrora”, comenta.

Em 1996 a 1999 Emmanuel foi um dos organizadores, juntamente com amigos, do bloco chamado Manchas. “Infelizmente o bloco se acabou devido ao fato do carnaval no município ter começado a tomar um rumo diferente, parece que o povo começou a desanimar e muitos dos organizadores começaram a residir em outras cidades para fins de estudo”, conta.

Emmanuel conta que a concentração do bloco Manchas acontecia na Lanchonete Super Dog (cachorrão) onde se reuniam aproximadamente 150 pessoas, de várias idades. “Todas as noites, ‘pulávamos’ o carnaval de rua e depois íamos ao Clube Ideal São-mateuense (CIS), onde a festa era garantida, até amanhecer. A geração de hoje não faz ideia o quão era animado o carnaval aqui, muito embora a forma em que se celebra o carnaval, hoje, distancia-se daquela”.

O são-mateuense Erisson Leal admite que o Carnaval faz muita falta na cidade. “Mas, também, faz falta de lugares bacana pra sair no final de semana, como uma balada ou casas de shows e eventos. O povo que trabalha e ganha seu dinheiro aqui, infelizmente gasta em outras cidades, simplesmente pela falta de opção. Sou músico e já toquei algumas vezes no carnaval de nossa cidade. Participei de blocos e sempre foi muito organizado e divertido. Quem perde com isso não é só o povo que espera pra ter um lugar pra se divertir, mas, sim, a nossa cidade, que perde de lucrar e atrair pessoas de cidades vizinhas”, declara.

Embora boa parte da juventude contemporânea da cidade conteste, o professor, pesquisador e historiador Mário Deina afirma que São Mateus do Sul teve no passado um carnaval bastante movimentado e animado.

Mário lembra do carnaval a partir de 1978, quando tinha 15 anos. Segundo ele, nessa época os grandes bailes de carnaval aconteciam no famoso CIS, e eventualmente no Clube Unbenau que se situava onde se encontra hoje a Praça Alvir Sérgio Licheski; por essa época começaram a surgir os primeiros salões particulares de eventos, como o Bailão do Geraldo Prizyvitowski no Paiol Grande e logo em seguida o Bailão do João Edvino, na saída para São João do Triunfo, já nos limites da cidade com a Colônia Taquaral, que começaram gradativamente a promover bailes carnavalescos mais populares.
Conforme Mário, os bailes eram embalados pelas famosas marchinhas que ainda hoje são executadas em alguns poucos bailes de clubes ou festa carnavalescas familiares; as bandas musicais, quando chegava o carnaval, abandonavam seu estilo musical próprio e ensaiavam e se preparavam para executar apenas músicas típicas do carnaval, tanto as tradicionais como as do momento.

“Geralmente os clubes, especialmente o CIS contratavam bandas de fora para animar o carnaval, normalmente de Curitiba. Acredito que as diretorias dos clubes eram criticadas quando davam preferência no carnaval para os músicos da cidade. Havia uma falsa ideia de que estes eram inferiores aos músicos da capital, ou que todos os músicos de fora eram bons, o que nem sempre foi verdade”, detalha Mário.

Quando Mário começou a frequentar os bailes de carnaval era tradição a organização de blocos carnavalescos, inclusive os clubes promoviam concursos para incentivar as pessoas a se organizarem em blocos e animarem mais a festa carnavalesca. “Por essa época os blocos ainda seguiam um estilo bem tradicional, com poucos integrantes e fantasias criativas, geralmente de cunho cultural. Eram organizados por famílias, grupos de casais ou grupos de jovens da sociedade. Já nos primeiros anos da década de 1980, uma nova geração de jovens chega à sociedade com novas ideias a respeito e novas influências culturais da mídia que começava a chegar com mais intensidade à vida dos jovens e começaram então a surgir os grandes blocos, compostos por número geralmente expressivo de pessoas e que aboliram o uso da fantasia carnavalesca e implantaram uma espécie de uniforme do bloco. Foram vários ao longo dos anos, como Manchas, Funyl, DigoUé, Mutação Alcoólica, entre outros”, fala.

O carnaval de rua surgiu em São Mateus do Sul na década de 1980 sendo organizado pela Rádio Difusora do Xisto, recém inaugurada. “A primeira vez foi realizado em frente à Prefeitura. Posteriormente o encargo de promover o carnaval de rua passou à Prefeitura. O carnaval de rua teve a virtude de popularizar definitivamente o carnaval, dando oportunidade a todas pessoas, ricos ou pobres, brancos ou negros, trabalhadores ou empresários de participarem juntos das alegrias do carnaval, mas por outro lado trouxe duas consequências a meu ver danosas para a essência carnavalesca local que é a alegria e a fantasia: primeira: os blocos foram sendo extintos aos poucos junto com o hábito do uso de fantasias carnavalescas; segunda: por ser uma festa realizada em ambiente aberto, no caso a rua, ao longo do tempo os problemas foram proliferando, como uso excessivo de álcool, consumo de drogas, brigas, etc”, conta.

Atualmente, os são-mateuenses com mais de 50 anos, falam com saudade dos carnavais de seu tempo, das marchinhas, dos blocos, do clima de alegria e confraternização que o carnaval proporcionava. Já os adultos (faixa de 30 a 40 anos), sentem saudade dos grandes blocos uniformizados da segunda metade da década de 1980 e início da década de 1990 quando a animação estava diretamente ligada ao grande número de pessoas no bloco (muitos inclusive nem se conheciam entre si. “Os jovens reclamam que não há carnaval de verdade em São Mateus do Sul, pois não vem trio elétrico para cá ou alguns ainda se referem ao fato de que aqui não há escola de samba — embora uma tentativa tenha sido feita por volta do início da década de 1980 pelo senhor Sílvio Scremin, um entusiasta do carnaval”, opina Mário.

Para Mário, São Mateus do Sul não tem escola de samba ou trio elétrico porque essas são manifestações culturais que não fazem parte da matriz cultural do povo são-mateuense, que vem de uma origem majoritariamente europeia e essas manifestações estão mais ligadas a uma matriz cultural de origem africana. “Por isso a escola de samba do Silvio Scremin não prosperou apesar de todo seu esforço e boa vontade — isso não é uma crítica à iniciativa dele, louvável a meu ver. Também não prosperou num passado mais recente já no início deste século uma tentativa de uma casal de baianos que viviam em nossa cidade de promover um carnaval fora de época trazendo um trio elétrico da Bahia. Não deu certo; ninguém se empolgou com a ideia que no final das contas se revelava inviável até do ponto de vista técnico”, completa.

Mário observa, que hoje, na cidade um grande — ou pequeno pela pobreza de conteúdo — debate nas redes sociais sobre carnaval. Ter ou não ter? O que fazer ou deixar de fazer? “Vejo com tristeza e preocupação pessoas se posicionando contra o carnaval sob alegação de que isso não é tradição da nossa cidade pois não temos samba nem trio elétrico; alguns vão além e falam que o sul do Brasil não deve ter carnaval. É uma discussão muito pobre a meu ver, que deixa de lado os aspectos culturais da festa de carnaval. A essência do carnaval não está na escola de samba — o samba foi incorporado muito depois ao carnaval —, nem tampouco no trio elétrico da Bahia ou no frevo de Pernambuco. A essência do carnaval está na alegria e na fantasia e estas se manifestam de diferentes formas de acordo com os costumes e tradições de cada região. O carnaval não é invenção dos brasileiros; é uma festa universal que remonta tempos muito antigos. Na antiguidade egípcios, romanos, gregos e hebreus já realizavam festas semelhantes. Na idade média essas festas foram atualizadas pelos costumes cristãos. No Brasil foram inspiradas no “entrudo”, festa de origem portuguesa. Apenas para ilustrar, no último dia 21 de janeiro tive a oportunidade de assistir ao desfile de carnaval de 2016 em Montevidéu, Uruguai, o que derruba a tese dos que dizem que o sul não tem ou não deve ter carnaval (por lá o carnaval é antes que o nosso). Algo completamente diferente de tudo aquilo que os brasileiros conhecem e consideram como carnaval, nem por isso menos alegre e animado”, finaliza.

Para um dos organizadores do bloco Funyl, Diogo Mayer, o carnaval atualmente não passa de um final de semana qualquer. “O carnaval está deixando a desejar, acredito que seja pela falta de apoio de poder público, comércio local e clubes tradicionais, aliado à crise financeira e mais punições do Ministério Público e Lei do Silêncio. O pessoal dos blocos prefere não se arriscar com projetos ambiciosos. O organizador responde civilmente e penalmente por tudo. Por falta de opção em São Mateus do Sul, desde 2012 o Funyl faz parceria com o bloco de Porto União Os Bartira e com o Clube Concórdia, e que lá também pelos mesmos motivos o carnaval já está se acabando. A descrença no município ocasiona a preferência dos habitantes em ficar no conforto de casa, ou aproveitar para viajar. Antes o carnaval era motivo de convivência e encontro de pessoas, mas as redes sociais hoje podem fazer isso diariamente. Então porque sair em carnaval com tantos entraves? O Funyl fez mais uma vez seu dever como são-mateuense e participou neste ano”, fala.

Confira a galeria de fotos, pra relembrar os carnavais que já passaram:

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