(Imagem Ilustrativa)

Fracassamos quando, a xícara bonita é para os visitantes, mas para quem é de casa, a xícara quebrada. Fracassamos quando, tentamos agradar tanto aos outros, mas fazer um favor para alguém de casa é um fardo.

Falando nisso, me recordo de uma “irmã”, que o destino me deu. Uma das grandes amigas que tive quando morei em Maringá, o nome era Alessandra e o apelido era Habiba, pois ela era muçulmana e costumava chamar os outros de Habib (que significa amigo querido). Trabalhamos juntos por alguns anos e algumas vezes tive algumas lições simples e poderosas com ela. Certa vez estávamos fazendo compras para a empresa que trabalhávamos, ela não gostava de fazer compras e eu sempre gostei, então acompanhava e além de escolher pilotava o carrinho. Certa vez aproveitei e fiz uma pequena compra que eu precisava, e fiquei indeciso ao levar ou não uma marca de sabonete. Ela ficou observando minha indecisão e perguntou por que optei pelo mais barato e não levei aquele que eu queria inicialmente. Falei que o preço era realmente muito grande um do outro, e novamente ela questionou, se eu não merecia aquele agrado próprio, pelo menos no sabonete. Ela entendia que eram épocas de vacas magérrimas, que para ficarem magras precisavam melhorar bastante.

Na verdade, expliquei para ela que eu não ligava muito para as marcas de sabonetes, e alguns outros produtos, que estava acostumado a me “virar” com marcas mais baratas, que fossem boas, mesmo não sendo as melhores (a vida nos ensina isso), mas no caso daquele sabonete, Phebo “Odor de Rosas” me lembrava (e lembra até hoje meu pai), pois ele era acostumado a usar essa marca e esse “sabor” como sempre costumo brincar em relação ao cheiro das coisas. Que era uma maneira de me recordar dele, já que não o via com frequência, morando distante. Ela olhou séria para mim, e medisse mais séria ainda, “precisamos conversar Habib”, imaginei que viria uma bronca. Ela colocou no carrinho alguns sabonetes e disse que era presente, nem ousei discutir. Voltamos para a empresa e nada aconteceu, nem quis puxar conversa sobre aquele assunto.

No dia seguinte, depois de tantas tarefas cumpridas no dia, num momento mais tranquilo, ela me disse, que estávamos fazendo alguma coisa muito errada, não apenas eu, mas ela também. Pois se levantamos cedo, corremos o dia todo com tarefas e querendo fazer tudo certinho, da melhora maneira possível, nos esforçando, gastando nosso intelecto, nosso conhecimento tão arduamente conquistado, e não conseguimos comprar alguns sabonetes mais caros, porque vai faltar dinheiro, algo estava errado. Lembro que ela falou que estávamos privilegiando as coisas erradas, algo até então muito comum na minha vida e na dela também. É um costume muito errado que a grande maioria de nós temos, que é o de privilegiar os outros e não nós mesmo ou quem está sempre perto da gente, achando que se pode esperar, que daqui há pouco as coisas mudam ou melhoram. Às vezes melhoram, mas continuamos a privilegiar os outros, o que é um absurdo nos colocarmos sempre em segundo ou até terceiro plano, lembro que ela falou que isso só tem sentido quando os filhos são colocados em primeiro plano, caso contrário é um erro nosso.

Tratar bem aos outros é uma questão de educação, mas tratar bem os outros e deixar aqueles que convivem com a gente ou a deixando a gente mesmo de lado, é um erro tremendo. Usar aquela roupa nova só numa ocasião especial, aqueles pratos bonitos só numa festa, usar o perfume só quando vai sair, mandar fazer uma roupa especial para um casamento apenas e não poder usar em outras ocasiões, fazer um churrasco só pra visitas, ter uma bela sala de estar em casa só para receber alguém muito raramente… Está na hora de aprendermos a comemorar as pequenas vitórias, pequenas conquistas, não esperar só por ocasiões especiais, pois somos vencedores quase que diariamente, mas esquecemos de comemorar. Quando foi a última vez que se olhou no espelho e comemorou algo simples como uma tarefa bem feita, um abraço carinhoso do filho ou esposa, um elogio que fizeram para o seu filho, uma nota boa que tiraram na escola, uma atitude legal da sua esposa. A sociedade nos limita nas pequenas conquistas, somos preparados e cobrados para grandes conquistas, e ficamos na expectativa de quando elas vão chegar e assim perdemos as emoções das pequenas vitórias esperando as grandes, que na maioria das vezes nunca chegam.

Sigo comprando o sabonete e lembrando não apenas do meu pai, mas um dos aprendizados que tive dessa Habiba, de grandes olhos verdes, que deve sentir lá do Céu que não esqueci da lição.

Hugo Lopes Júnior
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