Um encontro de almas pelo caminho que se reencontram no destino final em Aparecida.
(Fotos: Arquivo Pessoal)

Uma viagem que começou há três anos. Primeiro, como um sonho, depois como uma grande vontade até chegar a realização. Assim foi completar o Caminho da Fé para as professoras Flávia Pacheco Ledur e Mariângela de Mattos e Silva no dia 15 de julho, depois de percorrer 318 quilômetros a pé.

Flávia, que já visitou o Santuário de Aparecida diversas vezes, conheceu o Caminho da Fé há três anos pela internet e volta e meia passeava por lá, sonhando em percorrer aqueles caminhos. Ano passado o caminho estava fechado por um tempo, devido a pandemia, e a realização ficou para este ano. Inicialmente, a sua companheira de caminhada seria sua cunhada, Marina Ledur, quando começaram o projeto, mas por motivos particulares, Marina não pode ir dessa vez. Flávia não desistiu e um bom presságio foi que a amiga, Mariangela, não apenas a incentivou como quis ir junto. Iniciaram os preparativos, como reservas de pousadas, estudo de roteiro, custos e os treinos. Com a vida agitada da professora, os treinos eram na esteira em casa e, nos fins de semana, percorrendo caminhadas de 30 a 40 quilômetros pelo interior de São Mateus do Sul.

Muitos perguntaram a Flávia e Mariângela se estavam pagando promessa, como fazem muitos peregrinos que percorrem esse caminho. Na verdade, era um momento de fé e de autoconhecimento que este caminho poderia proporcionar. Longe da vida atribulada, da correria, poderiam desligar-se um pouco do mundo externo e focar naquela voz interior que insiste em conversar com a gente, mas quase nunca a ouvimos. Só falava com a família pela manhã e à noite, pois tinham uma meta a cumprir. Muitos amigos acompanhando pelas redes sociais, com os diversos vídeos feitos por Flávia. Essa foi a maneira que encontrou para se motivar, para vencer as dores nas pernas, as dores que das diversas bolhas nos pés, e assim muitas vezes brincando nos vídeos esquecia as dificuldades e, sem saber, motivava outras pessoas a fazerem o mesmo caminho.

Eram muitas subidas e descidas, com verdadeiras rampas de quase 45º, as quais dificultavam a caminhada, sendo completamente diferente do que treinaram. Eram caminhos que os ciclistas empurravam as bicicletas e que apenas carros 4×4 e potentes conseguiam, pois mais de 90% eram estradas rurais, onde imperava o pó.

No caminho há muitas formas de incentivo feitas com carinho pelas pessoas da região.

Mariângela, Rodrigo, Flávia e Sr. João ao final da peregrinação.

Uma ideia dos altos e baixos do belo caminho percorrido por Mariângela e Flávia.

Mas a fé presente no propósito de Flávia, em conseguir trabalhar internamente seu “eu” e se redescobrir, assim como Mariângela que descobria uma outra pessoa dentro de si. Ambas descobrindo ou redescobrindo o valor da amizade, das pessoas que as cercam, a importância de cada um em suas vidas. Nesse caminho abençoado, que se caminha com fé, vão aparecendo pessoas que parecem ser amigos de anos, mostrando a solidariedade, o companheirismo, incentivando, se permitindo serem incentivados, cuidando e sendo cuidados. Um caminho realmente mágico, difícil, mas que tira de nós o que há de melhor, fazendo esquecer as dificuldades e ensinando que se é capaz. Foi nele que apareceram o Sr. João, o Rodrigo e tantas pessoas maravilhosas que compartilharam não apenas a caminhada, mas suas histórias, cada uma com sua beleza e importância, cada uma demonstrando uma superação.

O Sr. João Batista Ferreira, com seus 75 anos, percorria pela 6ª vez o caminho, sempre com um sorriso no rosto e uma palavra de incentivo, além de uma história maravilhosa e uma disposição invejável. Volta e meia socorria com um remédio para dor ou diminuía seu passo para acompanhar ou descansar junto, para não deixar ninguém esmorecer. Um verdadeiro anjo que percorre esse caminho e parece ser uma amizade da vida toda.

É um caminho em que as pessoas se redescobrem, mas também descobrem que existe um mundo diferente desse em que vivemos, um caminho em que para o lado que se virar tem uma pessoa boa, solidária, amorosa e que deseja o seu bem sem nem mesmo saber o seu nome. Um caminho onde não tem disputas, mas incentivo, onde cada um carrega sua história, seja ela de lutas, de dor ou de alegrias, compartilhando sem cerimônias e fazendo parte da vida de outros, servindo de exemplo e incentivo. A história do outro às vezes pode até parecer mais leve pra você, mas o teu pesado fardo seria nada para outrem, e assim cada um aprende o peso do seu fardo, sem julgar o do outro, somente incentivando e agradecendo por compartilharem partes tão importantes de suas vidas.

Um caminho de casas, pousadas e de gente simples, as quais acolhem de maneira simples, mas com um carinho que hotel 5 estrelas nenhum no mundo tem. Um povo que recebe na sua casa, compartilha um dos lugares mais sagrados do mundo, que é o seu lar, com estranhos. Um povo que deixa nas cercas bananas, maçãs e água para os peregrinos, sempre devolvendo um aceno com um carinho puro de quem compreende a história e a motivação de quem percorre aquelas estradas empoeiradas, em busca de algo que está dentro de cada um.

Belas paisagens com maravilhosas companhias no caminho.

Águas da Prata-MG, o início da jornada. A frente Flávia e Mariângela.

Amigas Irmãs com o caminho percorrido e uma nova vida pela frente, agradecem de frente no santuário.

Como disseram Flávia e Mariângela, o desapego é grande, começando pela mochila com o mínimo do mínimo, mas que ainda assim é um fardo de 8 quilos a se levar, com uma muda de roupa e o mínimo. Nem comida carregavam, apenas água, pois apenas reforçaram o café da manhã e outra refeição a noite, quando chegavam ao destino daquele dia. Comida pesa, seja nas costas ou na barriga. Cada dia era mais um dia de superação, pois em média de 30 km ao dia, um ou outro chegando aos 35 ou 40 km, eram 10 a 14 horas de caminhada e, assim, os limites eram vencidos, as dores esquecidas e o desapego era total.

Não é uma espécie de competição e nem se criticavam as dificuldades do caminho, é como a vida: com altos e baixos, subidas e descidas. Aprendendo que um pode ser ligado no 220, enquanto o outro é mais calmo que água de poço, ali é um propósito, é o momento de ver que é possível todos viverem bem com suas diferenças, sendo solidários e incentivando uns aos outros, como deveria ser no dia a dia. “O caminho faz a gente ressignificar a nossa vida”, diz Flávia. A vida passa a ter outro significado e também fica marcada aquela certeza de que todos deveriam fazer essa peregrinação, pois o que se encontra pelo caminho é algo valioso demais, mas que não possui preço.

No caminho, com as postagens nas redes sociais, acabou-se criando uma pequena rede de solidariedade e incentivo, ambas receberam diversos contatos de pessoas conhecidas e desconhecidas, as quais pediam para que, ao chegarem em Aparecida, pudessem orar por alguém. Foram muitos pedidos, por graça alcançada, por pessoas doentes e tantos outros diferentes. O propósito inicial de ambas era se conhecerem melhor, mas não deixariam de atender aos pedidos, ainda mais entendendo o que a fé é capaz, e, assim, escreveram todos os pedidos e, chegando na Basílica de Nossa Senhora, fizeram todos, em nome de cada um.

Ao avistar, no último dia, à Basílica, uma vida passa pela cabeça e coração, lembrando como iniciaram a peregrinação em Águas da Prata, dia 5 de julho, os 318 quilômetros percorridos e as vidas que foram tocadas. Vem à mente a família, os amigos, a vida que têm levado, a que querem levar, as importâncias mudam de lugar e a vida passa a ter novos horizontes.

Mas, como ambas disseram, no caminho nem tudo são flores, apesar de ter lugares com belas placas de incentivo, tem-se as dores musculares, as bolhas nos pés, a insolação, o acúmulo de poeira do caminho. Tudo isso faz parte da superação, mas o aperto no coração que representa chegar ao fim do caminho, e ter que se despedir das amizades de uma vida inteira conquistada nos últimos dias e passar a ser as “filhas” mais novas do Sr. João, tendo que dizer adeus. Não existe maneira melhor de dizer que nesses dias se aprende que é mais importante a caminhada do que o próprio destino.

Serviço:

Muitas pessoas demonstraram interesse em fazer essa caminhada. Flávia e Mariângela darão todas as dicas, bastando procurarem elas pelas redes sociais.

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