Reflexão com Padre Marcelo S. de Lara

Política é Serviço, e não, disputa de poder

(Foto: Divulgação)

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Dirigindo o olhar para a situação política atual em nosso país, podemos perceber o quanto se está distante, o quanto se precisa melhorar a prática do Servir. Muito longe de se ver uma democracia, um governo para o povo, nota-se que, em primeiro plano está aquilo que não deveria ser, uma preocupação pessoal de se fazer carreira na política e, uma preocupação por parte dos partidos, de conquista de poder no governo. Isso se vê seja na luta para substituir um governo por outro, e até mesmo no confronto de projetos em debates políticos.

Não é de se admirar a grande decepção, a grande aversão à política por parte dos brasileiros, pois a imagem negativa que se tem da política em nosso país já vem de longe. Como não haveria de ser, se o povo é enganado por promessas apenas para ganhar voto; se o dinheiro que sai do povo não volta em benefício para ele, mas vai para o bolso dos seus escolhidos, financiando projetos particulares, gerando assim a corrupção; se nem no discurso das promessas se consegue ver a sinceridade na preocupação primeira do candidato ou do governante, que são as necessidades do povo?

A frustração, a indignação, a revolta e até mesmo o ódio é natural. Ninguém gosta de ser enganado vendo alguém subir na vida com seus recursos e não ver o retorno de seu investimento, que são os impostos.

Fundamentando um pouco

A política infelizmente acabou se tornando um mercado, com concorrência de projetos para se garantir o poder ou, no poder. Cientista política e filósofa belga, Chantal Mouffe, citada por Armindo José Longhi no livro, Filosofia, Política e Transformação, de 2012, diz que o modelo liberal da política acaba favorecendo para sobressair nas pessoas, muito mais o lado pessoal que o lado coletivo, pois se volta mais para: “[…] indivíduos descritos como seres racionais, guiados pela maximização de seus próprios interesses, atuando no mundo político de uma maneira basicamente instrumental.” (MOUFFE, 2007, citado por LONGHI, 2012, p. 123.)

Nessa linha de pensamento, segundo Longhi (2012), na página 122, Jürgen Habermas, filósofo alemão, concorda com Mouffe ao avaliar que a política atual está marcada por indivíduos desinteressados pela política. Ao falar da ideia do discurso em uma linha de mercado, Habermas quer dizer que se dá bem no espaço político aquele que melhor convence, se utilizando da política mais como um instrumento do que um campo de diálogo para se chegar a um senso comum de interesses. “Habermas por sua vez, acredita que a força do consenso é obtida pela capacidade comunicativa do sujeito competente linguisticamente”. E ainda, “[…] Habermas deposita grande expectativa no processo dialógico como meio para obter consensos políticos. O sucesso na obtenção do consenso atrairia o indivíduo para os problemas coletivos.” (LONGHI, 2012, p. 123).

Contudo, a falta desse consenso, da preocupação com o coletivo é explicada por Mouffe (2007), ao dizer que a política deliberativa não leva em conta o psicológico, o lado humano de cada indivíduo que já traz em si relações de disputa de poder e antagonismos, o que gera o afastamento da pessoa, de decidir questões para o coletivo, o bem comum.

Uma questão pessoal

Importante salientar esse aspecto citado acima, pois como dito no artigo da edição passada deste Jornal, “o problema” não está nas estruturas e nos sistemas em si, mas sim nas pessoas. Se cada indivíduo não alimentar em si, e isso refletindo dentro das formas de governo, nos sistemas, a preocupação de se olhar para o bem de todos, sempre se vai viver essa concorrência de espaços de poder. A corrupção começa no indivíduo, na sua formação de valores desde a família, a escola, a religião, as organizações que o influenciam no seu caráter ético e moral.

Quem governa, não governa para si, mas foi colocado, escolhido, chamado para governar para todos indistintamente. Que história é essa de bagunçar o coreto? Com que liberdade e direito tem alguém de roubar ou enganar o outro? A mudança, a transformação política é tarefa de casa, começa no berço. Infelizmente parece que a corrupção está se tornando um dos genes do DNA das pessoas.

Ora, quando se critica a preservação de valores da família, da religião, não se pensa nisso. E por isso, se vê na história que, tende-se sempre a combater as consequências e não as causas.

O Modelo Perfeito

A Igreja Católica quando vem trabalhar em 2015, a Campanha da Fraternidade, com o Tema: Igreja e Sociedade, lembra também no lema a frase de Jesus, que mostrou o verdadeiro papel da autoridade: “Eu Vim para Servir”, citado no Evangelho de Marcos, capítulo 10, versículo 45. Para quem é cristão, seguir o exemplo de Jesus, Filho do Deus que tem a maior autoridade em mostrar o que é serviço, fica o convite, a proposta, o compromisso de experimentar a alegria de se preocupar com o outro, de estar a serviço do outro, assim como fez Jesus.
E, para quem não vê em Jesus o Filho de Deus, mas apenas um homem da história, um humanista, mesmo assim tem Nele o espelho da autoridade que serve.

O perigo

Se estranho é a retirada de crucifixos dos departamentos públicos argumentando ofensa aos não cristãos, pior ainda é se começarmos a perder as referências, os modelos, os exemplos de quem só pensou no bem do outro e nem por isso foi incompleto na sua felicidade. Pelo contrário, Jesus foi um homem totalmente completo, feliz e realizado por pensar e se doar apenas pelo outro, e não, por buscar somente o seu interesse.

Que nossa política, nossos representantes e toda autoridade, comecem a repensar o seu papel.

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