Mesclagem de imagens da igreja antiga de São Mateus do Sul com ilustração Cobra Fumando (de Renato C. Domingos) e meninos no céu estrelado (https://br.freepik.com/fotos-premium).

Era meado do mês de julho de 1944 e nosso país havia iniciado sua participação na Segunda Guerra mundial, com envio do primeiro contingente da Força Expedicionária Brasileira ao front. Já passados 2 anos desde a declaração de guerra, muitas pessoas duvidavam que o Brasil de fato enviasse tropas. Mas “a cobra fumou”! Nossos pracinhas estavam na Itália ajudando no combate aos nazistas.

Sessenta e dois são-mateuenses lutaram no velho mundo, participando de batalhas importantes para o desfecho da guerra. Naquele ano, a população da cidade era em torno de 17 mil habitantes e sem as comodidades dos meios de comunicação atuais, ouvir notícias da guerra no rádio era uma atividade importante, que causava apreensão em todos e muita angústia nos familiares daqueles que arriscavam suas vidas no continente Europeu.

Escureceu cedo e a noite chegou muito fria, sem vento. A fumaça das chaminés se deslocava quase em linha reta ascendente e no ar pairava o cheiro característico da queima da casca de araucária, com sua resina cor de sangue muito aromática. Depois de uma reunião da comunidade na igreja, quando o padre Antônio fez uma oração pelos soldados em batalha, a comunidade toda se recolheu para suas casas para se esconder do frio.

As poucas ruas da jovem cidade eram silêncio pleno, até que às 23:55 o sino da igreja começou a bater. Apesar do frio medonho, em poucos minutos a frente da igreja já tinha dezenas dos moradores mais próximos, alguns de pijama, outros enrolados em cobertores. Era senso comum de que o bater do sino era para aviso importante à comunidade. Todos estavam ansiosos pelas palavras do padre Antônio. Mas cadê o padre? Não havia sequer uma vela acesa dentro da igreja, mas o sino continuava a bater. Um dos homens tentou entrar na igreja, mas a porta estava trancada. De repente apareceu o padre, não de dentro da igreja, mas vindo de sua casa, segurando uma lanterna. – Alguém sabe o que está acontecendo? – Disse o pároco, com expressão de espanto no rosto. – Ué Padre, achamos que foi o senhor quem tocou o sino! Que coisa mais estranha! – disse uma senhora trêmula, de frio ou talvez de medo.

O sino se aquietou e as pessoas, incluindo o padre, ficaram ali olhando para a igreja. – Eu tranquei as portas da igreja logo que vocês saíram. Será que ficou alguém preso lá dentro? Mas se ficou porque só agora fez barulho? – Padre, o senhor tem que abrir a igreja a ir lá ver quem tocou o sino. – disse uma das senhoras presentes. – De acordo, mas não entro sozinho. Quem vem comigo? – O que é isso? Padre com medo de entrar na igreja? Sossega, entramos com o senhor.

O ranger das dobradiças da porta da velha igreja fizeram alguns dos corajosos titubearem, mas por fim, liderados pelo padre entraram na igreja. O ruído dos passos ecoava e se não fosse a fé no Cristo representado na pintura do altar, alguns teria corrido. Chegaram ao local onde o sacristão puxava a corda do badalo. Não havia ninguém. De repente um movimento dá corda e duas batidas no sino. O padre fez o sinal da cruz e algumas das corajosas senhoras que chegaram até ali começaram a rezar o terço. Um dos homens se dirigiu para o acesso ao campanário dizendo: – Já chega, vamos ver quem está fazendo esse desaforo. – Subiu até o sino e voltou assustado. – Não tem ninguém lá!

A curiosidade se transformou em medo. A essa altura, nem o padre sabia o que dizer, mas não poderia deixar a comunidade angustiada. – Meus irmãos, vamos para as casas e vamos orar. Amanhã esclarecemos isso soba luz do dia e com a ajuda de mais pessoas. Haverá uma explicação com a graça de Deus. Fizeram mais uma busca nos cantos da igreja e, não encontrando ninguém, a fecharam e foram para as casas tentar dormir. O Sino não tocou mais. O padre perdeu o sono. Como trataria o assunto com o Bispo? Era grave a situação., precisava se reunir cedo com o prefeito Paulo Fortes.

Em frente à igreja, no outro lado da rua, no terreno do Instituto Imaculada Conceição (Colégio das irmãs), inaugurado na quele ano, havia um quintal com viçosa plantação de mandioca com mais de dois metros de altura. No meio dessa plantação, quase congelados, dois meninos enrolavam uma linha de pesca, que puxaram até arrebentar, o que fez om que o sino da igreja em cujo badalo a ponta da linha estava amarrada, batesse aquela última vez. Durante o dia, com a igreja aberta, haviam amarrado a ponta da linha no badalo e soltado o rolo pra fora. Depois esconderam o rolo sob uma pedra ao lado da igreja. Foi só esperar a noite, esticar a linha lá pra dentro do mandiocal e bater o sino!

Entraram casa pela janela que deixaram estrategicamente encostada e foram dormir, como anjos! No outro dia numa inspeção cuidadosa, o toco de linha preso ao badalo denunciou ao padre a traquinagem. O religioso ficou dividido entre a vontade de excomungar o autor da brincadeira e o alívio de não precisar contar ao Bispo uma história de assombração.

Luís Ferraz
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