(Imagem Ilustrativa)

Sempre falei que para ser professor a gente tem que ser um tanto maluco ou gostar muito e ter um certo dom, não é uma coisa tão natural assim, ou que seja fruto de querer. Não sei explicar direito, mas ser professor é algo de outro mundo, e encontrar ex alunos, é sempre uma coisa um tanto mágica, pelo menos para mim.

Falando nisso, eu encontrei um aluno há alguns dias e me apresentou o filhinho, dizendo com a intimidade de um velho amigo, “Esse aqui é o Professor Gravatinha que o papai falou”… Eu ri e ao mesmo tempo me senti orgulhoso. Ri pelo apelido que eu sei que tinha e era chamado por uns alunos, e também por saber que ele tinha vontade de me apresentar para o filho, algo de bom ele guardava de mim.

Professor Gravatinha, essa era uma boa. Lembro que alguns professores não gostavam muito dos apelidos, e eu fingia que não sabia o meu, para não estragar a brincadeira e também para que não mudassem o apelido e ele ficasse ruim mesmo. Para quem não sabe ou não me conhecia da época de professor, eu a partir de determinado momento passei a dar aulas de gravata e nunca mais parei, sempre de gravata, daí veio o apelido.

A história é antiga e já comentei algumas vezes, mas me pediram pra contar aqui, então. Eu morava em Paranavaí, cidade do meu filho mais velho. Lá iniciando a vida profissional como arquiteto, apesar de não ser natural de lá, mas tendo alguns amigos que me recomendavam para trabalhos, mas depois de uma boa conversa, uma boa entrevista, achava que fecharia o contrato para os projetos e execução da obra, mas nada, nunca passava da primeira conversa. Até que o pai de um amigo que me indicara para fazer um projeto de uma grande residência, de um amigo dele, me perguntou como fora a prosa, e eu comentei que fora tudo bem, que ele tinha gostado das ideias e possibilidades iniciais, falou que o orçamento estava razoável, mas que não tinha mais voltado, igual aos outros. Meio constrangido ele me falou que o problema era que eu tinha cara de ser muito novo e que não inspirava muita confiança, para se investir um bom recurso que é uma casa com alguém que não parece com tanta responsabilidade. Foi um banho de água fria, e pensei alguns dias sobre aquilo e como eu iria mudar essa ideia. Para minha sorte, nem barba eu tinha, como parecer mais velho ou mais responsável? Fui atrás de quem podia me dar uma luz, se não uma solução. Meu velho e querido pai, falei com ele pelo telefone e expliquei a situação, de como mudar essa imagem e poder ser levado mais a sério. Conversamos um pouco e depois ele disse que iria pensar e me dava uma resposta. A resposta veio uns 4 ou 5 dias depois, em forma de uma pequena caixa com dez gravatas. A dica foi deixar as camisas polo de lado, só para os fins de semana e passar a usar camisas sociais com gravata.

Nessa altura do campeonato eu havia começado a dar aulas num colégio local, eu desejo meu. E lá fui eu investir em camisas sociais de mangas compridas e comecei a usar as gravatas que meu pai me enviou. Ainda bem que eu sabia dar dois tipos de nós, e lá ia eu para o escritório que eu tinha alugado, às vezes de calça social e às vezes de calça jeans, mas sempre de camisa e gravata, e iniciando as aulas eu saía do escritório e ia direto dar aulas e depois voltava para o escritório. Era algo diferente no colégio e a direção gostou da ideia da gravata, e passou a exigir dos outros professores que usassem também. Queriam me matar por isso, mas foi sem querer.

Tempos depois fui convidado a dar aulas em outro colégio, mas em tempo integral no período da manhã e já estava sendo conhecido pela gravata, no outro colégio não pegou o costume da gravata pelos outros professores, talvez porque fazia 40 graus no verão? Não sei, mas eu estava de gravata e alguns projetos começaram a aparecer e se concretizar. E desde então nunca dei uma só aula, em 20 anos de sala e giz, sem a gravata. Ganhei muitas gravatas de amigo secreto dos alunos, até algumas com temas de personagens de desenhos, que amava.

E me recordo até hoje, quando fui morar em outra cidade e deixei por vários anos São Mateus do Sul, e me despedi da Dona Titina, foi lá onde mais dei aula. Agradeci a ela por tudo o que aprendi e os dois chorando, ela me fez dois pedidos naquele momento, um, que nunca deixasse de usar gravata na sala de aula, pois dava dignidade ao professor e o outro pedido se eu poderia lhe dar uma das minhas gravatas, e ela escolheu a que tinha o Pernalonga. Foi a última vez que a vi.

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