(Fotos: Arquivo pessoal)

Tudo começou quando a professora Angela Pietrasko da Escola Municipal Monteiro Lobato no município de Antônio Olinto abriu em agosto de 2021 uma livraria itinerante e compartilhou suas ideias com os alunos do 4º ano. “Eles ficaram curiosos para saber o que eu estava fazendo fora do meu horário de aula’’, conta a professora.

Este foi o início de um projeto que ainda não estava nos planos da professora. Os alunos participaram opinando sobre o logotipo da livraria e como seria o dia da inauguração, a qual aconteceu durante as comemorações do aniversário dos 60 anos do município. “Meus alunos foram até o local para me prestigiar e isso criou um vínculo maior entre mim e eles”, comentou Angela sobre a inauguração.

Mas até então não havia um projeto, somente a participação voluntária dos alunos. Tudo isso mudou quando a professora foi expor sua livraria numa feira livre no município de Contenda. Lá ela conheceu Lucília, uma empreendedora que, ao ver seu salão de beleza fechado durante a pandemia e diante da possibilidade de demitir sua única funcionária, resolveu fazer sabões e sabonetes naturais para vender. “Eu me apaixonei pelos sabonetes e pela história de superação da Lucília, mas principalmente pelo amor e carinho que ela tratava seu novo empreendimento, a Saboaria Aromas de Louenge”, relata a professora.

Turma em visita às lanchonetes para realizar pesquisa de preços de pizzas.
Professora Angela realizando a venda das latinhas.

De volta a Antônio Olinto, é claro que não deixou de vir na mala uma caixa de sabonetes. “Fui vender livros e voltei vendendo sabonetes”, conta a professora rindo. Mas o objetivo era outro. Segundo ela, já era rotina começar sua aula contando uma história e, naquele em especial, a história se iniciou com: “Era uma vez uma moça chamada Lucília…”. Começou como ficção, mas não demorou para que uma mãozinha se levantasse no meio da sala. “A Lucília existe de verdade?”

“Eles ficaram encantados com os sabonetes, com seus aromas e formatos. Foi durante essa exploração que senti que aquela turminha tinha potencial para ir além. Tive um insight e perguntei se eles queriam ser empreendedores também. Você sabe que criança adora um desafio. Eles toparam na hora, embora nem eu e nem eles sabíamos exatamente o que faríamos. Acalmados os ânimos, começamos a pensar nas possibilidades que tínhamos para o tempo disponível. Afinal, era o último trimestre do ano. Chegamos à ideia de coletar latinhas para vender. Foi uma decisão coletiva. O que faríamos com o lucro? Não restaram dúvidas: Seria usado para pagar uma rodada de pizza na confraternização da turma no final do ano”, explica Angela sobre o início do projeto.

A partir daí, a professora realizou um detalhado planejamento para unir conceitos de empreendedorismo e os conteúdos das demais disciplinas. “Eu sabia que precisava focar nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, pois os alunos haviam retornado há pouco tempo para o ensino presencial. Como foi um ano atípico para a educação e o bom senso mandava deixar o projeto para o próximo ano. Mas esta pandemia nos fez refletir muitas coisas e uma delas é a maneira de ensinar. Como diz uma antiga canção: quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Então, decidi fazer agora e não depois. Em sala de aula, as produções de textos, situações problemas e cálculos são situações hipotéticas, mas não para os meus alunos durante este projeto”, conta alegre a professora do 4º ano.

Matemática:

Angela conta que costuma questionar os seus alunos, os ensinando a pensar por si próprios. “Ensinar a pescar e não dar o peixe”, como diz a teoria. Ela usou a provocação como base para todo o trabalho e se surpreendeu em muitas situações. Estes foram os questionamentos que a turma fez juntamente com a professora:

1) Quanto custa uma pizza?
2) Quantas pizzas precisaríamos?
3) Quanto dinheiro precisaríamos?
4) Para ter esse dinheiro, quantas latas precisaríamos vender?
5) Quanto custa 1 kg de latinhas?
6) Quantas latinhas por aluno?
7) Quantas latas no total?

Estas foram as situações problemas reais que serviram de base para todos os cálculos que buscavam respostas que definiriam quais seriam as ações do projeto e a melhor maneira de executá-las.

Aluno Aryel Kovalco depois de um momento de coleta de latinhas na vizinhança

Língua Portuguesa:

  • Produção de textos em um diário do empreendedor sobre cada etapa do projeto;
  • Produção de lista dos lugares onde poderiam coletar e das pessoas (familiares, amigos, vizinhos) com os quais poderiam falar;
  • Produção de discurso oral para falar com essas pessoas;
  • Produção de entrevista escrita e realização de entrevista oral com profissional de contabilidade;
  • Produção de convite para uma entrevista coletiva e realização de entrevista oral com empreendedoras locais;
  • Produção de reportagem escrita para publicação em um jornal local;
  • Produção de conteúdo para mídia social sobre separação de lixo e empreendedorismo;
  • Produção de entrevista via google meet com a empreendedora que motivou o surgimento do projeto.

Geografia:

  • Debates sobre conservação ambiental;
  • Realização de eleição para votação do nome do projeto.

História:

  • Debates sobre a importância e a influência feminina no empreendedorismo atual, surgimento do comércio e sua evolução.

Ciências:

  • Estudo do ciclo de vida de uma latinha de alumínio e tempo de decomposição da mesma;
  • Impacto ambiental do lixo no meio ambiente;
  • Importância da coleta seletiva.

Arte:

  • Produção de releitura de paisagem natural do município para entregar aos vizinhos em troca de latinhas;
  • Produção de logotipo da empresa.

Empreendedorismo:

  • Planejamento estratégico;
  • Estoque;
  • Fluxo de caixa;
  • Empréstimo e juros;
  • Lucro e prejuízo;
  • Custos de abertura de uma empresa;
  • Custos fixos e variáveis;
  • Abertura de empresa fictícia em escritório de contabilidade.

Conquistas

Criticidade, comprometimento, proatividade, autonomia, cooperação, disciplina, resiliência, empatia, otimismo, autoconfiança, criatividade, ousadia e trabalho em equipe.

O projeto

Para resolver os problemas, a turma visitou 3 lanchonetes para orçamentos. Aprenderam conceitos de lucro/prejuízo. Para aprender os conceitos de empréstimos e juros a professora inventou um banco de latas para emprestar a quem esquecia de trazer as latas do dia, cobrando um juro de 1 lata a cada 7 emprestadas. Tudo era real, narrado, calculado e vivido por eles.

Turma em encontro com empreendedoras da cidade.

O encerramento do projeto “Latinha no chão, dinheiro na mão” aconteceu em uma lanchonete local.

“Para mim foi uma experiência única e uma das mais valiosas na minha carreira de 18 anos de magistério. Durante todos esses anos, vi o quanto a sociedade mudou e a necessidade de a Educação preparar os indivíduos para a vida”, disse a jovem professora. “Sempre gostei de trabalhar com projetos. Considero uma maneira muito eficaz de usar a interdisciplinaridade e ensinar temas transversais. Com certeza, estes alunos jamais esquecerão do que aprenderam, pois foram eles próprios os agentes da mudança. Valorizo muito a educação financeira e empreendedora já na primeira infância, pois sabemos que hábitos adquiridos nesta fase tendem a perdurar para a vida adulta”, finalizou.

A turma encerrou o projeto na Daju Lanches, uma lanchonete da cidade de Antônio Olinto, realizando seu objetivo inicial que era o de confraternizarem comendo pizzas.

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