Histórias de Terra e Céu

Quando a Astronomia fez o “sertão virar mar”…

(Foto: ibahia.com)

Na última semana falamos sobre uma chuva de meteoros e quero convidá-lo para seguirmos neste tema, amigo leitor. Meteoros são objetos compostos de rocha e metal, que ocasionalmente encontram nosso planeta. Quando isso ocorre, este meteoro começa a pegar fogo, devido ao atrito que ocorre durante a queda. Como uma grande parte deles tem tamanho inferior a um grão de arroz, acabam queimando (de 60 a 120 km de altura), provocando um rápido rastro luminoso no céu. Em casos raros eles chegam ao chão. A parte do meteoro que chega ao chão sem queimar é chamada de meteorito.

No Brasil, o maior meteorito conhecido foi encontrado em 1784, junto ao riacho Bendegó na Bahia. Ele pesava mais de cinco toneladas, e o governador da província, pensando ser ouro, mandou uma equipe levar “a pedra” para Salvador. Mas mal eles conseguiram colocá-lo sobre uma carreta de bois e o peso do pedregulho estraçalhou a carreta. Ao ver que o Bendegó não era ouro os brasileiros abandonaram a “pedra inútil” ali mesmo, mas cientistas de vários locais do mundo começaram a entrar no sertão para conhecer a maravilha vinda do céu. Em 1810 o francês Aristides Mornay confirmou que era um meteorito e, com o químico inglês Wollaston, publicou um artigo sobre o Bendegó no jornal da Royal Society. Depois foi a vez dos alemães Martius e von Spix se embrenharem no sertão para retirar pedaços do meteorito e levar para o museu de Munique.

O Bendegó era famoso lá fora, mas esquecido aqui. A situação só mudou quando Dom Pedro II, em visita à Academia de Ciências de Paris, se interessou por fragmentos de um meteorito que era o segundo maior do mundo (na época) e descobriu que eles haviam sido trazidos do Brasil!!! Foi aí que nosso imperador (que era astrônomo!) decidiu levar o Bendegó para o Rio de Janeiro. Mas quem conseguiria fazer tal façanha? As carroças já haviam provado que não teriam resistência para isso. Dom Pedro, então, decidiu que o “sertão viraria mar”, e definiu que um velho marinheiro traria o meteorito. Se navios, que eram pesados, andavam na água sem afundar, ele acharia um jeito de mover o Bendegó. Foi assim que o Vice-almirante José Carlos de Carvalho, com mais dois engenheiros e um pequeno grupo de apoio, usando basicamente trilhos, roldanas e cabos de aço, moveu o Bendegó por 113 km (levando 126 dias nesta epopeia), até a estação férrea de Jacuricy, de onde o meteorito seguiu para o Rio de Janeiro, e encontra-se até hoje no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista.

Muita gente tem medo de que meteoritos e asteroides possam se chocar com a Terra. Isso já aconteceu no passado, mas eu sigo pensando que a maior ameaça ao nosso planeta ainda chama-se “ser humano”. Há uma música chamada “Sobradinho”, de Sá e Guarabyra, cujo refrão fala que o “sertão vai virar mar”, e ela inicia com a constatação: “O homem chega e já desfaz a natureza…”. Que possamos ser lembrados pelas gerações futuras por façanhas como o transporte do Bendegó, e não pela nossa capacidade de destruir a natureza.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
Astrônomo Amador
gersoncesarsouza@gmail.com

colunistas_gerson_menor

Gerson Cesar Souza
Últimos posts por Gerson Cesar Souza (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
O Big Bang e as fezes das pombas
Bruno Filgueira, um azarado que “descobriu” São Mateus do Sul
Tem alguém aí????