Máquina do Tempo

Quando a História vira cinzas

‘Cápsula do tempo’ enterrada nos jardins do Museu Nacional. “Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir seu próprio futuro.” (Foto: Papo de Guia)

Escrevo a coluna dessa semana com o coração partido. Todos nós presenciamos a triste notícia de que o Museu Nacional, a mais antiga instituição científica do Brasil, ardeu em chamas. É simbólico. Nada do que eu escreva aqui vai demonstrar a importância desse local para a História. Nada do que escreva aqui, vai transmitir a real dimensão dessa perca. Era uma tragédia anunciada. Há na nossa sociedade brasileira, um descaso institucionalizado com a preservação de patrimônios históricos. Além disso, a ciência e pesquisa, sobretudo, na área das ciências humanas, são marginalizadas. Na ótica do poder público, educação é gasto, não investimento. Vide o congelamento de investimentos nessa área pelos próximos, vinte, eu disse, vinte anos. Por isso, não é de hoje que utilizo este espaço para não só, trazer conhecimento histórico para os leitores do jornal, mas também para despertar a consciência histórica em todos. Essa é nossa principal função como historiador. Datas, nomes, locais, acontecimentos. Isso é conhecimento enciclopédico. Fazer história, é muito mais do que isso. Fazer história é fazer você leitor, se sentir parte dela. Fazer história não é tratar somente do passado, fazer história é saber que ela moldou nosso presente e interfere no nosso futuro. Fazer história é reescrever, reinterpretar. Pois nela, não há verdade absoluta. Um herói, pode ser na verdade, um vilão.

Tive a oportunidade de visitar o Museu Nacional há dois anos atrás. Mas quem sou eu? Afinal, Einstein, Marie Curie, cientistas de renome mundial estiveram por lá. No Brasil, o último presidente a visitar o museu, foi Juscelino Kubitschek na década de 50. Um patrimônio de todos nós brasileiros e da Humanidade. Era o quinto maior acervo mundial. Possuía o maior acervo em Egiptologia, História Natural e Antropologia da América Latina. Vinte milhões de objetos catalogados. Entre eles, o meteorito do Bendegó, o maior meteorito achado em solo brasileiro, e o segundo maior do mundo. Fósseis de dinossauros e de Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas com cerca de 12.500 anos. Descoberta que fez a história da ocupação das Américas dar uma reviravolta. Apesar de haver especulações que este entre outros fósseis, possam estar a salvo num cofre, eles podem simplesmente estar destruídos. Assim como está o prédio que abrigava essas preciosidades. A construção era a própria História. Chamado de Paço São Cristóvão, foi construído em 1803 por um comerciante português. Em 1808, com a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, o casarão foi cedido pelo comerciante para a residência real, se transformando no Palácio Real. Com a Independência do Brasil, D. Pedro I o transformou no Paço Imperial, e ali, nasceu e cresceu o futuro Imperador do Brasil, Dom Pedro II e sua filha, a Princesa Isabel, a qual assinou a Lei Áurea que aboliu a escravidão. Além disso, foi nesse local, no dia 02 de setembro de 1822, que a esposa de D. Pedro I, a Imperatriz Leopoldina, assinou o Decreto de Independência do Brasil. Tal documento, chegaria as mãos de seu marido às margens do Rio Ipiranga, somente três dias depois. E foi no dia 02 de setembro de 2018 que a construção ardeu em chamas. Como eu sempre digo, a história tem dessas. Mas a verdade é que a história ensina, muitas vezes, pela dor e pela tragédia. Ela nos ensina que um povo que não conhece sua história, não a valoriza. E quando não valorizamos nossa história ela pode virar cinzas. Com pesar, hoje fico por aqui, e até a próxima viagem caros leitores.

Jéssica Kotrik Reis Franco
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