Os bailes na antiga sede do Clube Umbenau, na rua D. Pedro II foram uma das opções de diversão nos anos 80 e 90. O espaço era pequeno e por isso não precisava de muita gente para dar a sensação de casa lotada. O terreno, onde hoje é a sede do Tribunal Regional Eleitoral, tinha grande diferença de nível em relação à rua e para chegar já havia alguns degraus de escada para acesso ao pátio sem pavimento, onde o velho carvalho europeu estava plantado há quase um século. No tronco da árvore alguns corações com declaração de amor e também alguns palavrões riscados à faca. Em noites de verão, era costume os bailantes saírem do salão para o pátio para se refrescar, levar aquela conversa mais específica com o par arranjado no salão ou resolver alguma desavença. Sim, as brigas eram comuns também.

Naquela noite, a música era gaúcha, mas o traje era livre e no salão havia uma mistura de jovens com jeans e camiseta, homens de bombacha, algumas mulheres com vestidos de prenda e outras com looks da época e cabelos da moda. Os cortes femininos até que eram bonitos, mas o estilo Xororó de cabelos masculinos era medonho!

A cidade recebia centenas de trabalhadores de outras regiões para obras na usina de xisto e naquele final de semana era dia de pagamento. O resultado era bailes e festas lotadas e muita alegria regada à cerveja. Entre estes trabalhadores temporariamente endinheirados, estava nosso personagem, Pedro. Era um rapaz tímido, de pouca conversa, se irritava facilmente e fora criado com a máxima de que não se leva desaforo pra casa, custe o que custar. Não tinha uma profissão definida e tão pouco formação, mas era muito trabalhador e naquele período de escassez de mão de obra estava recebendo remuneração acima da média, por isso resolveu ir gastar um pouco se divertindo no Umbenau.

Pedro chegou cedo ao baile, queria garantir a compra de uma mesa. Pela primeira vez não precisaria ficar procurando onde ficar. Se instalou onde julgou ser melhor pra ver os músicos. Não sabia dançar, mas escolheu uma mesa próxima à pista de dança perto de uma das colunas de sustentação do telhado. Dalí saiu várias vezes comprar cerveja, estava sem paciência pra esperar garçom. Numa das idas ao botequim, já um pouco afetado pelas “malt 90” consumidas escorregou na estreita escada que dava acesso ao bar, que ficava no subsolo. Isso gerou algumas gargalhadas e Pedro já sentiu sua noite estragada, mas manteve a calma, comprou a bebida e voltou para mesa, apesar de perceber que era motivo de risadas.

Lá pelas 3h da manhã, os músicos pediram uma pausa de cinco minutos para beber uma água. Era a deixa para o frango assado. Isso mesmo, era comum, como já citado em outra história, a venda de frango assado nas madrugadas dos bailões. O líder do conjunto musical voltou para o palco com o tradicional prato de papelão contendo um galináceo devidamente recheado de farofa. Uma iguaria que seria disputada no leilão. Começaram os lances e Pedro resolveu entrar na disputa.

Leiloar uma “penosa” durante o baile era uma arte. Era necessário medir a disposição do público em pagar uma fortuna por uma galinha antes de começar, pois do contrário seria vendido muito barato. Mas naquela noite estava fácil. Pedro dobrou o lance já primeira provocada do leiloeiro, que segurava a galinha com uma mão e o microfone com outra, deixando cair um pouco de gordura na camisa. Em cinco ou seis lances o preço já estava mais de 10 vezes o valor de um frango de padaria e a maioria dos compradores já desistira de concorrer. Restava um grupo de amigos que disputava com o Pedro. Dobraram a oferta e depois de pensar um pouco, com o incentivo da plateia e do leiloeiro Pedro dobrou de novo. Assim foi até que num último lance Pedro arrematou a penosa por algo em torno de metade do que ganhava no mês de trabalho.

O garçom, todo formal, levou o frango até a mesa de Pedro e recebeu o dinheiro. Restaram poucos cruzados (moeda da época) na carteira. Mas pelo menos a galinha estava garantida. Pedro encheu o copo de cerveja e passou a olhar para aquela galinha assada. A adrenalina da disputa do leilão estava passando e ele se dava conta da bobagem feita. Estava sozinho no baile. O que iria fazer com um frango inteiro assado? Como pudera ser tão inconsequente? Os músicos retomaram o baile e o salão se encheu, tudo parecia correr normal, mas Pedro estava inconformado. Como contaria em casa que gastou quase todo o pagamento numa galinha assada?

Às 3:30 da manhã, depois de uns 20 minutos olhando fixamente para o galináceo que jazia naquela mesa, Pedro surtou! Levantou de repente, pegou a cadeira e com ela bateu no na galinha. Parte da farofa foi parar no meio do salão. Uma das cochas caiu no colo de uma moça da mesa ao lado que iniciou a gritaria. Aquela cadeira subia e descia espancando a galinha e já restavam apenas uns fiapos no prato. Um homem tentou interromper aquilo, mas acabou levando uma cadeirada no queixo quase indo a nocaute. Todos queriam sair de perto da fúria de Pedro.

De repente, o rapaz parou de brandira cadeira e fixou o olhar na moça que gritava com aquela coxa no colo. O medo de que ele fosse pra cima dela foi tanto, que ela se atirou pela janela da frente, seguida por outras duas ou três mulheres desesperadas. O problema é que o terreno em aclive deixava a janela mais de 2 metros do solo. Pobres mulheres com aqueles vestidos longos se abrindo como paraquedas caíram aterrissaram desastrosamente no pátio e uma delas não conseguia caminhar.

A polícia chegou, chamada pela direção, e recolheu Pedro para uma estadia na delegacia. Depois de algumas horas preso, já sem o efeito do álcool, bateu aquela fome e ele lembrou da galinha destruída. Aquela farofa parecia estar tão boa. Tinha até azeitonas!

Luís Ferraz
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