Mentes Inquietas

Reflexões sobre a difusão cultural em São Mateus do Sul

São Mateus do Sul comemora 109 anos neste mês, e a história que este município carrega é frondosa. Como berço da imigração polonesa, conta com características arquitetônicas, culinárias e costumes do povo do leste europeu. Da mesma forma que também abriga descendentes de alemães, ucranianos, austríacos e uma vasta gama de povos que encontrou no Brasil a oportunidade de começar uma “vida nova”. Esta mistura de culturas que forma nossa sociedade têm muito a colaborar para a diversificação dos costumes e da arte. As provocações que abaixo apresento servem como um estímulo para o desenvolvimento das potencialidades dos filhos desta terra. Não me atenho a trazer quaisquer respostas, mas sim a questionar para que possamos refletir de maneira conjunta.

São Mateus do Sul, hoje, não possui um time de futebol, um cinema ou um grupo de belas-artes. Curiosamente os dois primeiros ítens já fizeram sucesso por estas bandas. O que leva a tal escassez? O idioma, os costumes e as manifestações artísticas são a identidade dos povos. Durante a Segunda Guerra Mundial, sugeriram ao Primeiro Ministro inglês, Winston Churchill, que cortasse verbas do Ministério da Cultura para aplicar nos esforços de guerra. Churchill, perspicaz, redarguiu dizendo que tal atitude seria um contra-senso, pois o país estava em guerra justamente para defender sua cultura.

Hoje, o que distingue a comunidade são-mateuense das outras? Excetuando atitudes individuais, as quais não serão citadas para que não seja injusto caso esqueça de alguma, quais esforços o poder público vêm tomando para pluralizar o espectro cultural?

A Biblioteca Pública Municipal é um triste exemplo. Seu vasto acervo, que tem muito a proporcionar, é realocado de tempos em tempos. Hoje a biblioteca (que deveria ser um dos pontos mais importantes da cidade) é situada em uma sala da rodoviária. Em países desenvolvidos isso seria motivo de vergonha.

Quais investimentos que de fato têm potencialidade para engajar a população foram desenvolvidos na última década pelas secretarias responsáveis? A revisão e ampliação do que é feito até o momento é de suma importância na formação de crianças e jovens, e não apenas destes. Aprendemos com Paulo Freire que “a cabeça pensa onde os pés pisam” e, desta maneira, só nos é possível notar talentos a serem desenvolvidos em qualquer área se dermos as bases para tanto. Não se pode esperar que um peixe nade em uma piscina vazia.

O montante de verba destinada à cultura é suficiente para suprir a demanda atual, quando se trata de desenvolvimento permanente de atividades em múltiplas áreas visando abranger um número significativo de pessoas? Há um projeto para o auxílio na formação de intelectuais?

Como nunca antes na história da humanidade, há a possibilidade de acesso ao conhecimento difundido pela internet. O que antes demandava horas, hoje é resumido a um clique. A velocidade nas transformações da sociedade é vertiginosa e a produção de conhecimento científico hodierna destina-se, cada vez mais, ao instrumentalismo, isto é, o utilitarismo vem tomando conta dos mercados e das artes. Adorno e Horkheimer, em 1944, haviam percebido a dimensão que a instrumentalidade toma sobre os objetos antes pensados para a contemplação. Em um cenário onde a cultura torna-se cada vez mais comercializável, urge agir para que o senso de contemplação das artes não se torne motivo de troça como já é perceptível em diversos âmbitos. A frase que professores muito ouvem: “para que vou usar isso na minha vida?” é mais um sintoma do processo que precisa ser revertido. Eis a necessidade de investir em um processo formativo que dê bases para a formação de indivíduos que não vejam nos produtos da força criativa (Nietzsche) um produto comercializável.

Com este texto não há o intuito de fazer oposição aos governos que este município já teve, mas sim causar um desconforto para que repensemos o que de fato está sendo realizado no âmbito da disponibilização de uma formação cultural múltipla, para que se atenda a população de forma plural no processo de construção de uma sociedade que possa receber o predicado “autônoma”. Merece esse predicado todo o grupo social que seja capaz de, ao receber uma informação, estabelecer conexões lógicas mediante o estudo sistematizado e o contato empírico com diversas realidades, onde cada sujeito articule uma visão crítica e independente.

Artigo escrito por Alexandre Stori Douvan, acadêmico do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e membro do Grupo de Estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

Mentes Inquietas
Últimos posts por Mentes Inquietas (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Crônica de um país no abismo
A inibição do pensamento nas escolas
Mosca na Sopa