Acesso a equipamentos não garantem melhor aprendizado. (Imagens Ilustrativas)

Entre tantas mudanças causadas pela atual pandemia, a educação é uma das situações que tem sofrido bastante por ter que criar novos mecanismos de estudos e de apresentação desses, mostrando grande deficiência que temos no Brasil em relação à informatização e o acesso a ela. Em diversas cidades brasileiras aconteceram programas de popularização da internet, sem no entanto criar mecanismos para baratear os sinais existentes junto às empresas particulares fornecedoras. Criaram-se centros de internet gratuita em alguns locais, mas com limitações.

Nessa pandemia, os professores por todo o Brasil, principalmente das séries iniciais e ensino médio, têm buscado alternativas para chegarem aos seus alunos e manterem as mínimas condições de aprendizado, mas muitas vezes esbarram e situações básicas como a falta de acesso à internet, algo que para a maioria nos dias de hoje é tão básica como água tratada ou energia elétrica. Muitas vezes, esses problemas vêm da questão financeira e outras são questões técnicas mesmo, principalmente para quem mora em comunidades do interior, onde os sinais de internet não chegam ou, quando chegam, tem um custo altíssimo.

Aliados a isso, uma pesquisa recente apresentou as conclusões da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) num seminário virtual simultâneo em diversos países, na quarta-feira dia 26 de maio, com base no relatório Leitores do Século 21 – Desenvolvendo Habilidades de Alfabetização em um Mundo Digital. O seminário mostrou as habilidades de interpretação de texto dos alunos de 15 anos avaliados no Pisa, exame internacional aplicado pela OCDE em 2019, em estudantes de 79 países ou territórios, inclusive no Brasil. Os dados que aparecem são preocupantes, pois demonstra que no Brasil apenas um terço dos estudantes foi capaz de distinguir fatos de opiniões em uma das perguntas aplicadas no Pisa. Na média dos países da OCDE, esse índice era de 47%. O que mostra que, mesmo no grupo de países mais desenvolvidos, mais da metade dos estudantes de 15 anos não demonstrou, em média, capacidade de fazer distinção entre fato e opinião.

Segundo o estudo apresentado, apenas metade dos estudantes em países da OCDE disseram ser ensinados na escola para reconhecer se a informação que estão lendo é correta e 40% dos alunos nesses países foram incapazes de reconhecer os perigos de se clicar em links de e-mails de phishing (termo originado do inglês, que em computação se trata de um tipo de roubo de identidade e/ou dados online), por exemplo.

O estudo demonstrou que as habilidades de navegação foram consideradas altamente eficientes para apenas 24% dos estudantes na média da OCDE, e para apenas 15% dos estudantes no Brasil. Os problemas que esses números demonstram são profundas dificuldades futuras para a inserção no mundo do trabalho e para o exercício da cidadania, uma vez que pessoas que não sejam capazes de compreender textos plenamente estarão, em teoria, menos aptas para ocupar empregos de alta complexidade e, ao mesmo tempo, serão presas mais fáceis para o ambiente de desinformação que floresce na internet e nas redes sociais.

O Brasil tem dificuldade de acesso à internet em muitas cidades.

O país necessita saber utilizar a internet para o aprendizado.

Ter nascido na era digital não significa que se tenham mais habilidades para usar a tecnologia de modo eficaz. Os resultados também mostram que, apesar de sua crescente familiaridade com a tecnologia, os jovens não necessariamente aprendem instintivamente as habilidades necessárias para usar a fim de obter informações confiáveis. O maior acesso a tecnologia entre os jovens nos últimos anos não se traduziu em mais educação midiática ou conhecimento da internet. O relatório demonstrou que, em sistemas educacionais nos quais essas habilidades digitais são ativamente ensinadas, estudantes pareceram mais capazes de distinguir fatos de opiniões, mas ficou demonstrado também que este é um problema que ultrapassa os muros da escola e exaltou o trabalho de países que já têm uma cultura mais enraizada de leitura e alfabetização, como Dinamarca, Finlândia, Estônia e Japão.

Outro destaque apresentado nesse relatório da OCDE tem a ver diretamente com a Covid-19, pois a pandemia fez com que parte significativa do processo educacional atual migrasse para a internet e isso aumentou a urgência de se lidar com esse tema da alfabetização digital. A infodemia (como especialistas se referem à proliferação de falsas informações em grandes volumes, como ocorre em tempos de covid-19) e a incerteza sobre fatos científicos e de saúde básicos capturou o foco dos alunos de 15 anos e criou expectativas por soluções desse problema de saber o que realmente é correto e verdadeiro.

Em alfabetização digital, o que se sabe é que o educador tem um papel central nisso, à medida que mudam as habilidades exigidas dos estudantes. Hoje, ele precisa aprender a distinguir o que é relevante entre milhares de resultados de uma busca no Google, ele precisa ser capaz de construir conhecimento e validá-lo, é a conclusão que os especialistas da OCDE, chegaram. Os educadores precisarão ser grandes mentores, mobilizadores e guias nesse processo. A alfabetização no século 21 significa parar e olhar para os lados antes de seguir adiante online. Significa checar os fatos antes de basear suas opiniões nele. Significa fazer perguntas sobre as fontes de informação: quem escreveu isto? Quem fez este vídeo? É de uma fonte confiável? Ele faz sentido? Tudo isso cabe ao currículo escolar e ao treinamento de professores. E tem implicações que vão muito além de detectar notícias falsas e desinformação, é necessário assegurar o ato de tomada de decisões bem informadas e assegurar a base de conhecimento e pesquisas.

Hugo Lopes Júnior
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