Edward era polonês. Nasceu no condado de Tarnowskie Góry, Silésia, a alguns quilômetros ao norte da histórica mina de prata, no entanto, seus pais, que eram alemães, retornaram ao país natal quando ele ainda era um bebê. Numa daquelas tramas do destino, Edward, que nasceu numa região de mineração polonesa, se formou em geologia e foi trabalhar para a Agência Alemã de Recursos Minerais.

O país germânico mantinha um programa com o objetivo de estabelecer parcerias com países que pudessem fornecer minérios ou produtos manufaturados. Desta forma, enviava engenheiros, geólogos e afins para vários países como forma de garantir suprimentos para sua poderosa indústria, através desse intercâmbio.

Nos anos 1980, a agência enviou alguns de seus técnicos para a América Latina e Edward foi escalado para o Brasil, substituindo de última hora um colega engenheiro que ficou doente. Outra interessante obra do acaso! Mesmo não sabendo uma única palavra em português, ele aceitou a tarefa com satisfação, pois tinha muita curiosidade em relação ao país sul-americano. Certamente seria uma grande experiência!

Na programação estavam visitas a empresas de mineração em Minas Gerais, no Pará e também no sul do Brasil, onde conheceria um pouco da exploração do Xisto Betuminoso.

A chefia deixou que Edward escolhesse por onde começaria as visitas e ao ver que a mina de xisto estava numa cidade colonizada por imigrantes poloneses, decidiu que seria ali o início, afinal, ainda que sequer falasse polonês, ele nascera na Polônia, e queria saber como era esse pedacinho polaco tão longe da Europa.

Chegou a São Mateus do Sul numa tarde de quarta-feira e já na quinta pela manhã estava conhecendo a mineração de xisto, acompanhado de Gabriel, que foi escalado pelos anfitriões para ser seu tradutor. Passaram o dia em reuniões e visitas até que às 17h o apito da caldeira lembrou a todos que o expediente estava encerrado. Edward estava muito animado pois ao longo do dia recebeu um convite para um churrasco. Um amigo o havia recomendado que provasse essa iguaria do sul do Brasil, e assim fizeram.

O churrasco foi muito além das expectativas de Edward. Aquela costela assada lentamente no calor das brasas realmente era algo que todo viajante deveria provar. E ainda tinha a caipirinha. Era perfeito! Mas no outro dia a agenda era intensa, com reuniões e visitas, por isso quando se aproximava da meia noite, Edward resolveu ir para o hotel.

Justamente no momento que Edward se despedia dos seus “amigos de churrasco”, chegou um rapaz pra falar com Gabriel. Pela reação ele percebeu que havia alguma notícia desagradável, o que foi confirmado em instantes. O homem veio comunicar o falecimento de um velho amigo de Gabriel e conhecido de todos que estavam ali no churrasco. Foi então que Gabriel decidiu convidar o visitante para ir com ele, “dar uma passada” lá no velório do amigo. Edward achou que seria uma experiência interessante e talvez uma oportunidade de conhecer costumes locais. Lá pelas 2 da manhã, os dois chegaram no velório, que acontecia na casa do falecido numa comunidade do interior de São Mateus do Sul.

Era inverno e fazia muito frio naquela noite, o que talvez explicasse porque havia tão poucas pessoas na sala. Os dois se aproximaram do caixão e fizeram uma oração em silêncio e Gabriel correu o olho pelo cômodo e verificou que só conhecia o falecido. Não fazia ideia de quem poderiam ser os parentes enlutados. Edward observou que na parede havia um quadro com a foto do Papa João Paulo II e um crucifixo. Viu ainda que, no canto havia uma mesa com uma imagem de Nossa Senhora de Częstochowa com algumas velas acesas e ao lado, numa cadeira, uma senhora aparentando uns 80 anos, com lenço escuro na cabeça rezava. Enquanto ele admirava aquela senhora e tentava comparar com as memórias que tinha das fisionomias polonesas, ela encerrou a oração, olhou para eles, levantou-se e se dirigiu para o cômodo ao lado, a cozinha. Edward viu a mulher pegar uma chaleira e derramar água na cuia prateada que estava na borda do fogão à lenha. Ficou curioso pois não conhecia aquele objeto.

A velha senhora se dirigiu para a sala trazendo a cuia e Gabriel que também observava tudo percebeu que ela lhes ofereceria chimarrão. Depois do churrasco, das caipirinhas e cervejas, só de olhar para aquele mate lavado, com a erva-mate tão pálida quando o defunto, já fez Gabriel sentir um aperto no estômago. A mulher se aproximou e Gabriel fingiu que não a viu e se dirigiu para os pés do caixão onde agarrou o sapato do falecido e iniciou uma oração. A mulher então estendeu a mão com a cuia para Edward, que sem entender nada pegou aquele objeto e ficou olhando para Gabriel, que continuava sua reza.

Edward, que era católico, tentava buscar nas lembranças algo que explicasse a relação entre aquele objeto que a velha senhora entregou a ele e o morto, para o qual Gabriel rezava. Foi aí que nossa história teve seu ápice! Edward de repente olhou para a cuia de chimarrão, pegou a bomba, removeu do meio da erva-mate, voltou a inseri-la e se aproximou do caixão. Retirou a bomba e salpicou o defunto com o chimarrão quente enquanto dizia uma oração em alemão! Gabriel entrou em desespero! As pessoas que estavam na sala ficaram boquiabertas. Quem era esse louco! Uma outra senhora, talvez esposa do falecido desmaiou, outra gritou que aquilo era pecado. Estava formada a confusão.

Edward havia confundido a cuia e a bomba de chimarrão com o aspersório, objeto utilizado pelos padres para aspergir água benta durante alguns ritos.

Foram vários minutos de gritaria no velório. Alguns homens queriam bater no pobre alemão, outros perguntavam de onde veio aquele estrangeiro e Gabriel tentava acalmar a todos. Depois de um tempo decidiram ouvi-lo. Ele então contou toda a história de Edward e sua origem polonesa e as razões de estar ali. Passado o susto, os mesmos que queriam espancar o visitante agora riam da situação. No final, aquela gafe serviu pra deixar o ambiente mais leve e Edward se enturmou tanto com os polacos que apressou os compromissos daquele dia para retornar e participar do enterro. O padre que foi ao cemitério “encomendar o corpo” não entendeu nada quando, ao pegar o aspersor, alguém gritou, “deixa longe do alemão se não é capaz de ele chupar achando que é mate”!

Luís Ferraz
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