Mentes Inquietas

Respostas prontas

(Imagem Ilustrativa)

A todo momento recebemos um sem-número de informações. A televisão, o rádio e a internet proporcionam larga difusão do conteúdo jornalístico e de entretenimento. O advento da internet proporcionou uma nova revolução comunicacional, pela qual o modelo de produção centrado em um único emissor se difundiu ao ponto de receptores tornarem-se simultaneamente emissores de informação. A final de contas, o que está em jogo quando se fala da produção jornalística em diversos meios? Qual a função da mídia? Quais as fronteiras entre a teoria e a prática?

A divergência entre teoria e prática nos meios de comunicação chama a atenção. Quando de sua implementação – não apenas no Brasil, mas em praticamente todos os países –, o caráter de servir ao público, isto é, oferecer de maneira responsável o necessário para que a sociedade possa se informar de acontecimentos que geram impacto sobre suas vidas; análises não são descartadas quando de sua proposta está em explicar, trazer ao entendimento do cidadão médio questões complexas. Porém, o que se verifica é um fenômeno um tanto diferente do proposto; as determinações constitucionais sobre as empresas de mídia são desrespeitadas; a cobertura, que se propõe plural, beneficia amplamente determinados conteúdos em detrimento de outros; o caráter comercial dos conglomerados de mídia, aclamado por uns e detratado por outros tantos, interfere diretamente no processo de produção e difusão dos conteúdos. Com este texto não se pretende apontar direcionamentos universalizáveis ou sanar os problemas observados na mídia, mas de forma sucinta convidar o leitor a refletir sobre o que e como consome no que tange a informações.

A televisão é, ainda hoje, o principal meio de comunicação brasileiro. De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia[1], os meios pelos quais o brasileiro mais consome mídia são a televisão (63% em 1ª e menção e 89% agregando 1ª e 2ª), a internet (26% e 49% no agregado), o rádio (7% e 20%), o jornal impresso (3% e 12%); os demais meios juntos somam 1%. A pesquisa avalia uma série de características, como faixa etária, escolaridade, posição geográfica, entre outras. A influência da televisão sobre a sociedade nos dias correntes é notória. A crença dos cidadãos no jornalismo veiculado nas emissoras é, conforme demonstrado, altíssima. Aquilo que ganha espaço na produção televisiva, passa a contar com a legitimação que cabe à TV proporcionar. Neste panorama, uma série de riscos e controvérsias atuam, conforme veremos a seguir.

Peter Burke nos fala sobre a história social da mídia. Em livro homônimo escrito em coautoria com Asa Briggs, percorre a história da mídia desde a invenção da prensa, por Guttenberg, no século XV, até chegar ao mundo contemporâneo. A influência dos jornais na esfera pública, a difusão ideológica, a difusão do conhecimento e dos acontecimentos do mundo tiveram seus graus de influência sobre e pela mídia, bem como também foram difundidos de acordo com o crivo do jornalismo. Em suma, as mídias fazem parte da vida ocidental de tal modo que a organização política e social muito deve ao árduo trabalho nas redações jornalísticas.

O jornalismo brasileiro contemporâneo veiculado nas TVs comerciais apresenta características semelhantes ao que se vê em outros países, tais como a restrição de tempo, uso de artifícios gráficos atrativos e, claro, o financiamento dos programas jornalísticos por empresas privadas. Nada haveríamos de ter contra o financiamento privado à programação televisiva. Inclusive, mostra-se como um excelente estopim para produções mais interativas e acirramento da competitividade entre as emissoras, beneficiando o público até certo ponto. Mas quando se trata do financiamento a programas jornalísticos, o quadro é completamente distinto e suas implicações são muito mais sérias. A partir de uma relação simbólica de forças, a pauta das reportagens passa a ser determinada pelos interesses da empresa, o que é preocupante quando se fala em uma democracia ainda não completamente consolidada e valores sociais ainda muito heterogêneos. O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), no livro Sobre Televisão (Zahar, 1997), traz uma reflexão neste sentido. Para o estudioso,

Ver reintroduzir-se essa mentalidade-índice-de-audiência até entre os editores de vanguarda, até nas instituições científicas, que se põem a fazer marketing, é muito preocupante porque isso pode colocar em questão as condições mesmas de obras que podem parecer esotéricas, porque não vão ao encontro das expectativas de seu público, mas que, com o tempo, são capazes de criar seu público. (BOURDIEU, p.38).

Bourdieu tem um posicionamento crítico sobre o papel do capital sobre as produções jornalísticas. Demonstra-se pessimista com relação aos cortes e enquadramentos que o jornalismo contemporâneo “exige” para atender a uma audiência cada vez mais dispersa, e as implicações que isto terá a médio e longo prazo. Como acima referenciado, cria-se uma demanda por conteúdos espetacularizados, que com o tempo põe em cheque a função social da mídia. Denominou fast-thinkers os supostos intelectuais que produzem artigos, comentários ou avaliações seguindo a lógica do mercado, isto é, da produção veloz e em larga escala. Sendo a televisão destinada a todos os estratos sociais, o brasileiro médio tem condições de compreender o contexto de mais de 3 mil anos de guerra no Oriente Médio a partir dos 5 minutos (quando muito) apresentados diariamente nos telejornais de grande audiência do país? A interminável “corrida pelo furo”, por noticiar antes e “melhor” do que a concorrência pede que determinados especialistas tracem comentários sobre o acontecimento. Todavia, isto não significa que esses especialistas sejam de fato os maiores conhecedores sobre o assunto, sequer que estejam investindo seus esforços na investigação dos fenômenos que comentam; o que ocorre é que estes têm uma vantagem sobre os demais: adequação aos limites de tempo e de criticidade dos jornais. Sobre isso, o próprio Bourdieu aufere que:

Diz-se sempre, em nome do credo liberal, que o monopólio uniformiza e que a concorrência diversifica. Nada tenho, evidentemente, contra a concorrência, mas observo apenas que, quando ela se exerce entre jornalistas ou jornais que estão sujeitos às mesmas restrições, às mesmas pesquisas de opinião, aos mesmos anunciantes ela homogeneíza. (BOURDIEU, p.31).

Com “homogeneizar”, Bourdieu aponta justamente para o fato de que a programação jornalística televisiva vale-se dos mesmos artifícios, seja qual for a emissora, pois todas estão sujeitas a um mesmo modelo de produção, que não pode perder o apoio dos grupos aos quais se dirige. No mais das vezes, o que se vê são comentários apaziguadores, reportagens amenas e apresentadores carismáticos.

As notícias de variedades consistem nessa nessa espécie elementar, rudimentar, da informação que é muito importante porque interessa a todo mundo sem ter consequências e porque ocupa tempo, tempo que poderia ser empregado para dizer outra coisa. (BOURDIEU, p.23).

Qual é o papel desempenhado pelas emissoras de televisão no ambiente democrático? Análises realmente críticas e articuladas são encontradas apenas em raros programas das TVs públicas, que contam com audiência pífia. Pode-se dizer que o grande público brasileiro está acostumado com uma programação de qualidade intelectual duvidosa e que posiciona-se frente ao televisor para receber sua dose diária de analgésicos e fuga da realidade? Seria, por outro lado, a realidade do brasileiro médio erigida sobre um falho projeto sócio-educacional acompanhado de estruturas sociais (em suas diversas representações) por uma série de motivos alienadas do pensamento crítico? São questionamentos que não nos comprometemos a responder prontamente, uma vez que a realidade não se constitui de respostas prontas.

O que se percebe, e de maneira muito clara, é que o jornalismo brasileiro quer se ver isento de posicionar-se frente aos acontecimentos do mundo. Muitos apelam para o ideal de imparcialidade, afirmam apenas relatar os acontecimentos. Com essa visão, negligencia-se o apontado em O Habitus na Comunicação (BARROS FILHO, Clovis de. Paulus, c2003), estudo sobre as obras de Bourdieu, que o processo de produção jornalístico atende a diversas regras arraigadas com a prática da profissão, interioriza-se normas institucionais que com o tempo passam a ser “normais”; vale citar que a isenção choca-se, também, com a noção de ser social, isto é toda a construção moral do sujeito, que implicará em seu discurso. Talvez seja esta a mais nítida crítica ao jornalismo contemporâneo, assim como o próprio Bourdieu percebera em meados dos anos 1990, “seria preciso refletir sobre o moralismo das pessoas de televisão: frequentemente cínicas, proferem palavras de um conformismo moral absolutamente prodigioso”. (BOURDIEU, p.65).

Com os avanços tecnológicos, o surgimento de novos meios proporcionou perspectivas distintas com relação ao futuro que hoje temos como realidade. A internet nos foi apresentada como uma ferramenta da democracia. Um meio pelo qual o usuário tem a possibilidade de publicar com a mesma facilidade com que recebe informações. É inegável que o potencial das redes é enorme; verdadeiras bibliotecas do mundo estão ao alcance de um clique, o acesso aos conteúdos se tornou horizontal. É uma ferramenta que possibilita conhecer diversos mundos, mas vale refletir sobre a deliberação do internauta por aceitar conteúdos plurais e contraditórios frente a enclausurar-se em uma bolha na qual apenas discursos concordantes com seus próprios são bem-vindos e tudo aquilo que destoar dessa ordem criada, é julgado como um mal a ser destruído.

Não se quer, de maneira alguma, retornar ao modelo paternalista de televisão empregado em seu primórdio, que ditava o que seria bom ou ruim à audiência, mas continuar no caminho em que nos encontramos também não parece ser a mais viável das opções.

A legitimação por meio do espaço nos programas televisivos da qual acima falávamos tem contornos interessantes a serem observados. Em condições normais, estudiosos de todos os campos ganham legitimidade a partir do reconhecimento de seus pares sobre as pesquisas desenvolvidas e resultados obtidos, desta forma configura-se uma lógica circular da legitimação dos discursos – o sujeito está expostos às mais variadas críticas provindas de pessoas que possuem profundos conhecimentos acerca do tema tratado, criando-se um ambiente de tensão e reconhecimento com base no mérito. Ao valer-se dos discursos prontos de “intelectuais da moda” – como recentemente vem ocorrendo –, ou de suas fontes de segurança, aquelas dispostas a falar/escrever de maneira demasiada simples e objetiva (o que dá margem para lacunas e nem de longe se faz uma leitura completa do assunto), produz-se uma quebra da circularidade e legitima socialmente variados indivíduos. De acordo com Bourdieu,

O jornalismo age, enquanto campo, sobre os outros campos. Em outras palavras, um campo, ele próprio cada vez mais dominado pela lógica comercial, impõe cada vez mais suas limitações aos outros universos. (BOURDIEU, p.81).

Sendo assim, aos diversos campos cabe o afastamento do aparelho midiático para a preservação de sua integridade. Não apenas nas ciências, mas nas artes em geral, as produções profundas e de alto valor à sociedade não se curvaram aos índices de audiência, tampouco foram produzidas para a massa – em suma, a contemplação não se dirige a um público específico. Diferentemente do que se vê com os produtos culturais industrializados[2], onde a produção atende a uma demanda e a remodela, recria-a conforme lhe aprouve, com músicas, filmes e modas que atacam diretamente as fraquezas dos indivíduos e os faz crer esclarecidos.

Dito isto, não partilho da nostalgia de alguns pela televisão pedagógico-paternalista do passado e penso que ela não se opõe menos do que o espontaneísmo populista e a submissão demagógica aos gostos populares a um uso realmente democrático dos meios de difusão em grande escala. (BOURDIEU, p.68-69).

Conforme observamos no Brasil, um grande número de emissoras entregues ao proselitismo religioso, concessões pertencentes a representantes políticos ou a entidades religiosas, que deste fazem o uso que bem pretendem sem que qualquer fiscalização e imputação legal recaiam sobre eles. Neste caminho há gritos de ordem contra a regulamentação, que chamam de censura. Tais manifestos não passam de medidas para evitar a perda de privilégios, dos seus profícuos meios de arrebanhamento ideológico e de seus artefatos de controle político. Ao falar sobre as ciências, Bourdieu adverte que:

De fato, seria importante que a tomada de consciência de todos os mecanismos que descrevi conduzisse a tentativas coletivas para proteger a autonomia, que é condição do progresso científico contra a influência crescente da televisão. (BOURDIEU, p. 87).

Cabe-nos a difícil tarefa de refletir sobre o que queremos para o futuro. Urge a revisão do modelo de televisão adotado no país, mas não podemos nos esquecer que este configura-se como apenas um dos vários problemas que temos de enfrentar. O que nos trouxe a este contexto em que nos encontramos? Teria se constituído um modelo midiático conforme temos hoje se as bases morais de nossa sociedade fossem outras? Como um projeto de nação poderia ser desenvolvido com vistas a oferecer ao cidadão condições sociais dignas e a consequente possibilidade de ascensão intelectual? São questionamentos que sem muito esforço levantam outros tantos, mas todos interconectados ao seguinte: levando em conta o contexto social brasileiro, a televisão cumpre com sua função?

Abril de 2018.

Escrito por Alexandre Douvan. Acadêmico de Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa e Membro do grupo de estudos em ciências humanas Mentes Inquietas. 

[1] http://pesquisademidia.gov.br/#/Geral/details-917

[2] ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos.

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