Poetas e escritores já traduziram muito bem em palavras o sentimento que une duas pessoas pelo afeto mútuo, sendo o ritual do casamento, um dos acontecimentos mais significativos e antigos do comportamento humano. Notadamente na contemporaneidade é nas imagens fotográficas por exemplo, que os sentimentos relacionados ao amor romântico nos tocam com maior intensidade. O retrato de casal é parte insubstituível dos ritos de casamento que segundo Leite (2001), representam significados que tendem a fixar na memória coletiva a lembrança do acontecimento. Historicamente porém, o casamento era visto como um eixo de estabilidade social, para criação dos filhos, transmissão de valores e organizador de núcleo econômico. Sendo assim, essas atribuições eram muito mais importantes que o amor entre os casais. A fotografia como evidência histórica é uma representação do mundo, que pode variar de acordo com a cultura de quem a produziu e de quem a interpreta. Ela deixa de ser tratada como uma fiel imagem de uma realidade para ser vista como um documento passível de interpretação. A fotografia utilizada como fonte histórica carece de contextualização para ser analisada, por isso, além da imagem, usamos de outras fontes para uma possível interpretação.

A imagem selecionada é uma fotografia de casamento em ambiente interno. Trata-se do casamento de Marcelo Janowski (viúvo), agricultor e músico e Antonina Pageski Janowski. O ano é de 1936 e não temos informações sobre o fotógrafo. A festa de casamento foi na Colônia Cachoeira na residência dos pais da noiva. O casal é descendente de imigrantes poloneses que chegaram em São Mateus do Sul no final do século XIX.A contextualização da fotografia foi feita a partir de textos sobre a imigração polonesa em São Mateus do Sul e do relato oral de um membro da família, o Sr. José Carlos Janowski. Mesmo em cenário aparentemente simples (fotografia de estúdio), a noiva traja o tradicional vestido branco com o véu comprido e sapatos brancos. Encontramos também flores e ramos naturais nas mãos da noiva, o seu buquê. O noivo aparece bem trajado, com terno e sapatos escuros, gravata, lenço no bolso e um adorno na lapela. As festas de casamento segundo a tradição oral duravam três dias e geralmente começavam na quarta-feira. Também era muito comum nesses casamentos algumas tradições como o aconselhamento aos noivos, retirada do véu da noiva após a cerimônia e entrega para os noivos de um pedaço de pão juntamente com uma criança pequena, simbolizando alimento e fertilidade. Esses são apenas alguns exemplos dos costumes.

Assim, o casamento tradicional sobreviveu à chegada dos novos tempos. A cerimônia do casamento constitui um acontecimento importante, além do significado religioso, um acontecimento social, um rito de passagem muito forte complementado pela festa, formalizando o amor e o respeito mútuo entre duas pessoas. O que está na fotografia não é só uma imagem, também são memórias, pessoas reais com suas histórias de amor ou desilusão, afinal, nem todos foram felizes para sempre…

LEITE, Miriam Moreira. Retratos de família. 3.ed. São Paulo: Edusp, 2001
MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia e história interfaces. Tempo, Rio de Janeiro, v.1, n.2, 1996, p.73-98.

Últimos posts por Hilda Jocele Digner (exibir todos)

Comentários

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Eternamente Jovem: a fotografia de Haydée Carneiro
Vou sentir saudades!!
Instituto Imaculada Conceição: evocando memórias