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Romaria reúne ucranianos de diversas cidades em Antonio Olinto

Irati, Ponta Grossa, União da Vitória, Curitiba e São Mateus do Sul marcam presença.
(Fotos: Sidnei Muran/Gazeta Informativa)

Pessoas de várias cidades, algumas falando português outras não, em meio ao cenário rural com arquitetura peculiar. Essas são duas das principais características que um visitante nota ao chegar na cidade com maior número de pessoas residindo fora do meio urbano no Paraná: Antonio Olinto.

Domingo (15/11) diversos romeiros participaram de procissão, que partiu da Igreja São José (no centro da cidade), lotaram o pátio da Igreja, visitaram e apreciaram a construção, com sua riqueza de detalhes e atributos ritualísticos ucranianos, tendo no quadro de Nossa Senhora dos Corais seu atrativo central. Esse “ícone” (nome dado ao quadro de santo religioso com cores em tom sacro, dentro da etnia ucraniana) é feito a partir de pedras preciosas como diamantes, pérolas e esmeraldas. Sua confecção, em forma de mosaico bordado, teve origem no lendário padre João Michalczuk. Também com papel importante na construção da identidade cultural dos ucranianos, e seus descendentes, no município e região.

O quadro religioso possuí, acima de tudo, de acordo com o arcebispo metropolita dom Volodemer Koubetch (principal líder da Igreja Ucraniana no Brasil), alto valor histórico, cultural e religioso. “Não pelo valor financeiro e sim pelo que representa”, frisa. Mesmo assim, o ícone foi alvo de furto, ocorrido na madrugada do dia 23 de julho de 1995 e recuperado pela polícia quatro dias depois. O ato deixou a imagem ainda mais representativa.

Esse furto danificou a imagem que, após restaurada, peregrinou por comunidades ucranianas do Paraná e Santa Catarina. Em seguida, ela foi reintroduzida com grande festa popular na Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição – município de Antônio Olinto que na atualidade possuí em torno de 90% de seus habitantes na zona rural, da população total estimada de 7.578, de acordo com o IBGE. Após isso, o quadro ganhou estrutura de proteção e é resguardado como ícone que simboliza a padroeira dos descendentes de ucranianos no Brasil: Nossa Senhora dos Corais, desde 2011 por decisão do Conselho Geral dos bispos. “Queremos oficializar o local como Santuário Mariano, em breve”, antecipa dom Volodemer.


A edificação do Templo

A Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição é o principal cartão postal de Antônio Olinto, antes mesmo de sua existência, fundado em 1960. A arquitetura, baseada na arte oriental bizantina com abóbodas arredondas (cúpulas), marca a paisagem do meio rural na Linha Munhoz, próxima ao centro da cidade. Internamente, além do ícone de Nossa Senhora dos Corais – localizado ao fundo em local próprio e seguro –, a construção possuí pintura ritualística ucraniana, com iconóstase (conjunto de quadros religiosos de santos tradicionais da etnia).

Os sites da metropolia (diocese ucraniana) e coordenação do Patrimônio Cultural do Paraná apontam que o padre Clemente Bzuchouki iniciou a construção em 1902, com projeto da igreja feito em Jovkwa, Ucrânia, tendo inicialmente 15m de comprimento por oito de largura. Dois anos mais tarde, a parte central e a cúpula estavam prontas. Após isso, a obra ficou parada por quase dez anos, sendo retomada pelo padre Michalczuk, entre 1911 e 1914. Ao longo dos anos, ocorreram várias intervenções de reforma e manutenção.

João Karpovicz, é um dos moradores mais próximos do templo. Nascido em 7 de março de 1937, ele estava com 13 anos quando o padre Michaltchuk faleceu e se lembra de muitas histórias do vigário que o preparou para a 1ª Comunhão. Sobre a igreja, o diácono permante testemunha que a atual cobertura de telhas de barro e cúpulas com zinco (em tom de alumínio) têm cerca de 60 anos. Até então, o revestimento era em madeira, com telhado composto, integralmente, por ‘tabuinhas’ – telhas de madeira lascadas a partir de pinheiro araucária, num processo artesanal que veio na bagagem cultural dos imigrantes ucranianos.


Intervenção do Patrimônio

Em 2011 foram investidos R$ 271mil, do governo federal, na parte externa e estrutural, mas infiltrações posteriores levaram a comunidade em buscar novo restauro. Fato esse que gerou demanda com a Coordenadoria do Patrimônio Cultural e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Essas entidades são responsáveis pela preservação de bens tombados, mas não dispõe de recursos para auxiliar na manutenção ou restauro. Contudo, para que uma obra ocorra é necessário aval desses departamentos que imperam em carência e alto preço de mão-de-obra que inviabilizam projetos como o da Igreja Imaculada Conceição.

O presidente da comunidade, Hélio Rodrigues dos Santos, relata a ‘novela’ estabelecida com os dois departamentos. “Nós achamos que a obra não ficou bem realizada, mas eles [IPHAN e Coordenadoria] disseram que faltou nossa manutenção.” O imbróglio se estendeu para além da igreja. O campanário, que abriga o sino, é parte do patrimônio tombado e, para reforma, careceu de intensa discussão entre a comunidade e a coordenadoria. A situação, felizmente, logrou êxito e ambas as construção foram restauradas pela própria comunidade, tendo em vista a impossibilidade de contratar serviços terceirizados. “Só o arquiteto, para vim até aqui e olhar iria cobrar R$ 6 mil. Sem contar, depois, o projeto e a obra”, explica o presidente. “Seria inviável. Mas, felizmente, nos autorizaram que a obra fosse feita por conta própria.”

 

O padre Arcenio Krefer atende à comunidade desde 2012 e testemunha a resolução foi fruto de amplo diálogo. “Buscamos conversar e apontar nossos pontos de vista e nossas possibilidades. O nosso presidente, o Hélio, trabalha com construção e teve conhecimento para avaliar e executar esse trabalho”, frisa. Em comum acordo dentro da comunidade e de posse de preços de outras empresas, o próprio líder da localidade trabalhou nos reparos necessários na igreja e campanário. “Tínhamos orçamentos de R$ 58 mil a R$ 76 mil e fizemos por R$ 35 mil, com mão-de-obra e material”, afirma o presidente. O grupo seguiu orientação de especialistas e teve o serviço aprovado pela Coordenadoria e IPHAN.

O próximo passo é buscar solução para o restauro da parte interna. “O interior precisa de reparos, mas não dispomos de profissionais para realizar esse trabalho e necessitamos de ajuda”, explica Hélio. A busca pelo apoio tem como foco o IPHAN.

Espaço obsoleto

Talvez os romeiros possam voltar para suas casas com a observação de que o pavilhão de festas, com palco que teve diversas apresentações folclóricas ucranianas de beleza exuberante, carece de estrutura melhor. Hélio Rodrigues compactua com essa opinião. “Precisamos investir e melhorar esse espaço, mas não temos como mexer, no momento”, justifica. Não que o problema seja financeiro, o empecilho é cultural.

A Coordenadoria do Patrimônio e o IPHAN, em sua interpretação da Lei, entendem que a construção desse pavilhão, feita após o tombamento, atrapalha a visibilidade da igreja. A orientação é de que ele seja movido. “Em torno de 15m”, relata o padre Arcenio. Tanto ele, quanto o presidente analisam que, além do custo elevado para mover toda a estrutura, mais ao fundo seria necessário investimento em aterro. “Impossível”, acrescenta o padre.

“Não podemos investir no pavilhão, pois, caso sejamos obrigados a removê-lo, perderemos o investimento”, justifica o presidente. Usando da boa fé e na busca de entendimento, baseado no diálogo positivo em ações recentes de intervenções frente às edificações, permitidas pelo IPHAN e Coordenadoria, Arcenio e Hélio comungam da mesma expectativa: o entendimento.


A Romaria

Pessoas que visitam Antonio Olinto e a Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição se encantam com o ambiente natural, pátio amplo, arborizado e estacionamento. Construções sacras belíssimas e água direto da fonte que brota da gruta de Nossa Senhora de Lourdes, bem próxima da igreja, e ponto de parada da procissão que se inicia na Igreja de São José (em reconstrução) no centro da cidade. A recepção aos romeiros é regada à café da manhã nesse local.

Após percorrer cerca de dois quilômetros, na gruta, o celebrante, no caso dom Volodemer, recepcionou a réplica do ícone de Nossa Senhora dos Corais e fez a benção da água. Junto da procissão, o arcebispo seguiu, ao som de cantos tradicionais da rica liturgia ucraniana na língua vernácula (originária dos descendentes), até a igreja. Dentro do templo histórico, lotado, o clero, coordenado por seu chefe maior, celebrou a Santa Missa, com coral e toda a ritualística tradicional em que os religiosos rezam junto com o povo, ou seja, de frente para o altar durante a maior parte da cerimônia que se estendeu por cerca de duas horas.

Para aqueles que não conseguiram um espaço dentro da igreja, a organização disponibilizou uma televisão na parte externa. Finalizada a missa, os festejos populares tiveram início com o comércio de produtos típicos da culinária ucraniana, saladas, doces, churrasco e bebidas. Após o almoço, os presentes puderam acompanhar apresentações culturais fortemente marcadas pelas tradicionais apresentações folclóricas da etnia. Ainda, a partir das 15h, a igreja promoveu novena em homenagem à Nossa Senhora dos Corais.

Um pouco de história…

João Karpovicz e sua esposa.

João Karpovicz e sua esposa.

Talvez despercebido por muitos, o diácono permanente da Igreja, João Karpovicz, é referência para pesquisa e troca de informações pontuais sobre a história da localidade. Acompanhado da esposa, Lúcia Jurkiv Karpovicz, atende com extrema simplicidade quem lhe procura e é categórico em

estabelecer verdades mal pontuadas. Muitos escritos atestam que o padre Michalczuk era rígido e ordenava o povo em prestar serviços para ele e à Igreja. “Não é bem assim. Ele não obrigava ninguém. Pedia colaboração. Claro, de postura firme. Comprou terras para a Igreja e tinha patrimônio próprio que depois doou. Meu pai ajudava na igreja e sempre falou muito bem dele. Os frutos da sua passagem por Antônio Olinto e sua herança cultural, e histórica, permanecem vivos para nós, mesmo passados 65 anos de sua morte”, afirma. “Muitas vezes as pessoas não pesquisam direito e escrevem coisas erradas.”

O diácono demonstra ampla felicidade em falar da igreja, que pode apreciar da própria casa, está contente pela reforma que foi feita, esperançoso na manutenção e preservação do patrimônio. Opinião que contagia e se compartilha entre os moradores da comunidade e visitantes, frente ao imenso valor cultural e representatividade do templo que é a casa da Nossa Senhora dos Corais, símbolo maior de todos os descendentes de ucranianos do Brasil.

Sidnei Muran

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