Máquina do Tempo

São Mateus do Sul 110 anos e a reescrita da história

(Foto: paulodafigaro.blogspot.com – acesso em: 19/09/18)

É preciso sempre reescrever a História. Por isso, nessa coluna especial de 110 anos trago essa reflexão. Quando começa a história do local onde hoje, é a cidade de São Mateus do Sul? Quem faz parte dela? Por quem ela é contada? Já superamos o conceito de história a partir da escrita. O historiador pode utilizar a história oral como fonte de narrativa histórica, não só pode, como deve. Pois, povos que não desenvolveram um sistema de escrita, não deixaram de existir, de legar sua cultura, de ter sua própria e de fazer parte da história. A história tradicional aborda a perspectiva a partir da entrada das bandeiras em nossa região. É preciso abrir o leque, não havia antes disso, ocupação e história humana? Os indígenas, sobretudo, as etnias Kaingang e Guarani ocupavam todo o território paranaense. É preciso então, trabalhar com a interdisciplinaridade e abordar conceitos antropológicos para construir essa justa narrativa. Em outras colunas, abordei o tema sobre indígenas, principalmente sob o legado deles para com o hábito de extração e consumo da erva-mate, mais tarde incorporado pelo homem branco. Afinal, somos a terra da erva-mate.

A colonização do nosso município, hegemonicamente polonesa, também trouxe e estabeleceu legados culturais importantes e marcantes na história de nossa cidade. E a mulher imigrante tem um papel importante nisso. Numa perspectiva da micro-história, adentramos os lares das famílias polonesas no século XIX, ambiente predominantemente administrado por uma mulher nesse contexto. É lá que os hábitos culturais são praticados e reforçados no dia a dia, e assim, se mantém vivos ao longo do tempo. A culinária, a língua, a religião, as crenças populares, os modos de se vestir etc. Não estou excluindo o homem da história. Já sabemos o papel importante que ele desenvolveu na exploração do território, na economia agrícola, na política citadina e na vida pública. Na verdade, sabemos muito sobre isso. Estou incluindo o protagonismo da mulher, e para isso precisamos olhar a vida privada dos lares imigrantes, já que as mulheres foram privadas por muito tempo de ocupar lugares públicos.

Ainda sobre etnias. O mito. No Paraná não houve escravidão. Logicamente, não tão quanto em São Paulo, por exemplo. Isso não significa que, em território paranaense e em nossa região, tais sujeitos históricos não existiram. Assunto que abordei em colunas passadas. Escravos alforriados, advindos de fazendas das regiões próximas de São Mateus, a maioria utilizados em trabalhos domésticos ou engenhos de mate, se estabeleceram em nossa cidade e região. São Mateus foi à Segunda Guerra, teve uma professora que foi a primeira mulher negra engenheira do Brasil, toma chimarrão indígena e come pierogi polonês. É preciso levar em conta toda essa riqueza e diversidade cultural quando se leva em consideração o que é ser são-mateuense nesses 110 (ou mais) anos de história! Hoje fico por aqui, e até a próxima viagem pessoal!

Jéssica Kotrik Reis Franco
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