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São Mateus do Sul comemora aniversário ‘pensando’ na erva-mate

Turismo e ações concretas no setor produtivo podem ser alternativa à crise (Fotos: Gazeta Informativa)

Turismo e ações concretas no setor produtivo podem ser alternativa à crise (Fotos: Gazeta Informativa)

O município está localizado a cerca de 140 km da capital, Curitiba. A área industrial tem como principal elemento a usina de xisto, fonte inesgotável de insumos energéticos e matérias-primas para setores industriais. Ao todo, são aproximadamente 100 indústrias nos mais diversos ramos. Outro quesito de identidade e economia é a erva-mate que coloca São Mateus do Sul entre os maiores produtores do Brasil.

De acordo com o portal da prefeitura, o município foi criado em 1908, pela Lei 763 (datada de 2 de abril), e a instalação oficial ocorreu pouco mais de cinco meses após, em 21 de setembro. Em 1909 é constituído em Termo Judiciário e, três depois, em ‘Cabeça de Comarca’, com sede elevada à categoria de cidade. O nome completo, atual, São Mateus do Sul, surge após Decreto Estadual em 1943.

A bela história enfrenta paradigmas atuais e aponta alternativas de preservação cultural e histórica, com base na erva-mate e prodígios de seu povo. O grande crescimento da década de 1960, devido à instalação da indústria de exploração do xisto, enfrenta dificuldades na crise atual e precisa se reencontrar.

A história e o 1º pé

Foi o Tenente Bruno da Costa Filgueiras, chefe da Quarta Expedição, com 25 homens, que se destinava a Tibagi, quem primeiro pisou nas terras de São Mateus do Sul em 1769, conforme o portal municipal. Com primeiro núcleo de pessoas se estabelecendo somente em 1877. Um pouco antes disso, em 1855 chegaram alguns alemães, chefiados por Rudolph Wolff e Gustavo Frederico Thenius, em busca de petróleo.

A colônia foi denominada de Porto Santa Maria. Em seguida Maria Augusta, para homenagear a esposa de José Carvalho Sobrinho, o então administrador da localidade. Mais à frente é denominada São Mateus.

Em 1890, chefiados por Sebastião Edmundo Woss Saporski, chegam os poloneses, cerca de 2.000 famílias, e se fixam nas colônias Iguaçu, Canoas, Cachoeira, Taquaral, Água Branca e Rio Claro (atual distrito do município de Mallet, desmembrado de São Mateus do Sul em 1912). A relação do extrativismo da erva-mate e exploração da agricultura, com navegação à vapor pelo Rio Iguaçu, faz da localidade importante porto e centro comercial, ainda no final do século XIX.

Declínio e nova ascensão

Quando se encerra o ciclo da navegação pelo Rio Iguaçu, década de 1950, o comércio de erva-mate entra em crise. A superação vem com a Petrobras e implantação da usina experimental para o aproveitamento do xisto que gera grande impulso no desenvolvimento industrial, bem como infla a população da cidade. A projeção de habitantes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que, em 2016, atinja 45 mil habitantes.

Visão sobre a cidade

A presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de São Mateus do Sul, Ingrid Eliane Hoch Ulbrich, tem participado de diversos eventos relativos ao desenvolvimento da cidade e demonstra preocupação frente ao cenário econômico atual. Em seu entendimento, os ‘últimos acontecimentos políticos’ podem projetar a retomada da credibilidade interna e externa e estimular investimentos que retomem o crescimento.

“Sabemos que as vendas do comércio recuaram em diversos segmentos, ou na melhor das análises estagnaram e os motivos para isso são a alta taxa de desemprego, o aumento da inflação principalmente em função dos alimentos, crediário restritivo fruto do aumento da inadimplência e da alta dos juros e finalmente, o baixo nível de confiança do consumidor”, analisa a presidente.

Na sua avaliação, os 37 anos da CDL em São Mateus do Sul teve contribuições de diversas pessoas e elencou o fortalecimento do comércio na cidade. Bem como, é parceira de ações que visam o desenvolvimento e relação com a comunidade. “Além de todos os serviços que a entidade leva até seus associados, aos quais beneficiam diretamente a gestão de suas empresas”, observa.

Inovação e permanências

Ingrid Eliane Hoch Ulbrich entende que a CDL teve, entre suas atribuições mais recentes, papel importante na criação do Núcleo de Desenvolvimento e Empreendedorismo (NDE) de São Mateus do Sul. “Muitos são os desafios locais e este grupo vem agregar os mais diversos setores da comunidade para em parceria com o setor público planejar ações que desenvolvam a cidade, com crescimento econômico e qualidade de vida”, esclarece.

“A cultura polonesa é uma das nossas maiores riquezas e a sua valorização local vem crescendo muito. A presença da Braspol e a existência do Grupo Folclórico Karolinka que é renomado nacionalmente são exemplos da vocação que possuímos. Diria que temos ‘a faca e o queijo na mão’ para fazer daqui um pólo turístico unindo as tradições do povo polonês à erva-mate, que é outra riqueza local”, analisa a presidente.

“Precisamos apenas nos profissionalizar. A valorização da erva-mate também caminha nesse sentido, principalmente por ações realizadas pelo setor privado e por entidades e grupos como o Conjove e IG-Mathe que buscam conferir São Mateus do Sul a Identidade Geográfica da Erva- Mate”, completa. Para tanto, Ingrid frisa que é fundamental fortalecer a ligação da planta com a identidade da cidade. “Uma das mais recentes criações nesse sentido está a Rota do Mate, cujo objetivo é atrair a atenção local e de visitantes, fomentando a economia”.

Potência no setor

“Quando o turismo é levado a sério, ele tem forte poder de impactar positivamente uma região, porque para envolver a satisfação do visitante é necessário organizar atividades que vão desde a facilidade nos deslocamentos, de um portfólio de atrativos, de uma gastronomia diversificada à oferta de objetos que representam a cultura local, por exemplo”, avalia.

Para a presidente da CDL tudo isso precisa ser pensado dentro de uma estratégia que una empresários e gestão pública. “Esse é um belo exemplo de parceria público-privada a ser criada, pois os investimentos dos empreendedores locais devem ter a contrapartida da administração pública através de uma infraestrutura local adequada, como o cuidado geral com a cidade e boas estradas de acesso ao meio rural, por exemplo, além de contribuir em divulgar o município”.

Alternativa para o xisto…

“Não há dúvidas de que a corrupção deflagrada pela Lava-Jato e que provocou um verdadeiro assalto à Petrobras afete a Unidade SIX. O fato de ser uma estatal levou os erros da política para dentro da empresa, e o que não deveria acontecer, aconteceu: princípios de eficiência de gestão tão praticados e buscados na iniciativa privada foram substituídos por interesses pessoais, partidários e de grandes empresas que orbitavam o governo”, analisa Ingrid Eliane Hoch Ulbrich.

“A importância da SIX já se revelou ser estratégica a Petrobras, como a da promoção de pesquisas científicas e de desenvolvimento tecnológico”, explica a presidente da CDL. Para tanto, ela exemplifica com o Projeto ‘Xisto Agrícola’, somado de outros estudos no setor que poderiam constituir novas opções ao produto. “Afinal, o xisto é uma das riquezas de nosso chão, literalmente.”

Erva-mate na rota

São Mateus do Sul agora tem nova opção turística, é a Rota do Mate, essa é a primeira rota turística cultural e rural do município. Uma iniciativa que traz na rota todos os pontos turísticos, históricos e culturais, valorizando as riquezas do município. Para grupos particulares que desejam realizar o passeio, basta entrar em contato com a Secretaria Municipal de Educação e Cultura, no telefone: (42) 3912-7050.

O grupo que tem o maior foco na erva-mate é a IG-Mathe, associado do Núcleo de Desenvolvimento e Empreendedorismo e prefeitura. “O intuito do NDE é fazer como em algumas cidades desenvolvidas. Maringá, por exemplo, que formou um grupo de representantes da sociedade civil organizada para auxiliar no desenvolvimento da cidade, realizando um diagnóstico, bem como um documento prospectando a cidade que queremos para daqui alguns anos”, explica Helinton Lugarini, que é representante da IG-Mathe, NDE e prefeitura.

Segundo ele, a IG-Mathe é uma Associação dos Amigos da erva-mate de São Mateus responsável por conduzir todo o processo da IG (Identificação Geográfica) da planta. “Além da gestão desta IG esta associação está tentando fomentar a ideia de que possuímos uma erva-mate de qualidade e comprovadamente diferenciada, para que isso possa se tornar cada vez mais rentável, não só pra produtores e indústrias ervateiras como também para todo o município”, destaca.

A Emater regional trabalha exatamente nessa perspectiva. Conforme o gerente da entidade, Cleacir Junior Dall Agnol, o valor da erva-mate sombreada, bastante presente na região, é maior que a cultivada. “A erva-mate sombreada é a melhor erva-mate do mundo. Produto diferenciado,” pontua. Sendo uma das principais cadeias produtivas de toda a região, só perdendo para a madeira. “Das 14 mil propriedades da região, cerca de 10 mil tem erva-mate presente.” Segundo ele, o intuito é tornar o produto a prioridade de trabalho e disso o intuito de fomentar preparo técnico e seminários de instrução aos produtores.

Junção de interesses

Da mesma forma, Lugarini acrescenta que tanto a IG-Mathe quanto a NDE justifica esta ‘fama’ em relação à erva-mate. Para tanto, promovendo a qualificação de produtores e estudando a constituição de um Arranjo Produtivo Local (APL). Isso visando produzir com qualidade e preservar os ervais.

Por sinal, há um movimento político nesse sentido. O deputado estadual Hussein Bakri (PSD) já ventila essa ideia da APL. O parlamentar disse que pretende levantar dados específicos e propor essa criação na Assembleia Legislativa do Paraná. “Vamos discutir com pessoas ligadas ao setor, produtores, empresários e investir nessa proposta, se assim tivermos respaldo da viabilidade e importância”, garante.

“Isso é uma ferramenta fundamental para o crescimento sustentável de qualquer setor, principalmente da erva-mate”, entende o representante das entidades. “Temos que estreitar a relação com as necessidades das indústrias, leis florestais e com a realidade dos produtores da região.” Segundo ele, Hussein tem olhado para esta questão e cabe aos envolvidos acompanhar e cobrar por ação concreta no que diz respeito à estas ‘ajudas’, afirmando que o deputado tem demonstrado boa intenção. “Esperamos que ele consiga algo palpável.”

Diferencial de renda possível

Lugarini acredita que a planta é o grande diferencial de São Mateus do Sul. “Se considerarmos alguns custos de produção versus rendimento da erva-mate podemos notar que esta é sim uma atividade de alto rendimento, porém há de ser feito com maestria o nosso ‘dever de casa’, principalmente no que se refere ao plantio, condução e poda para que possamos alcançar nossos objetivos em relação aos ganhos”, ressalta.

Como analista do setor produtivo, ele não desmerece outras culturas e a diversidade na produção de soja, milho, tabaco, entre outros, com respeito e enaltecendo a importância delas. Sobretudo, o cultivo da erva-mate, segundo ele, é o que menos agride o meio ambiente. “Pois pode e deve ser cultivada em consórcio com plantas nativas de nossa floresta como o pinheiro, imbuia, frutíferas dentre outras”, acrescenta. Ficando explícito que os interesses, das organizações, política e o apoio da Emater, convergem para o mesmo caminho.

Turismo, cultura e projeção

“Este é apenas o primeiro roteiro que desenvolvemos para termos um diferencial a mais em nosso município”, conta o representante da IG-Mathe, NDE e prefeitura. “É um roteiro longo, porém que contempla pontos que tudo tem a ver com São Mateus do Sul, pois passa por locais e monumentos que lembram a navegação, a colonização polonesa, o tropeirismo, a exploração de xisto e claro, a erva-mate, tão presente em todo o passeio”.

Lugarini entende que o poder público tem dado a sua parcela de contribuição e demonstra interesse para que estas ações aconteçam. “Prova disso é que a prefeitura fez parte de toda a estruturação da rota do mate, parceria para a construção do chimarródromo, plantio de erva-mate nas calçadas, manutenção das estradas por onde passa a rota, fomento das atividades comunitárias, principalmente na comunidade de Burrinhos, dentre outras”, justifica.

Firmando identidade

Segundo ele, a secretaria de educação pretende levar alunos e professores para que conheçam e disseminem os conhecimentos desse roteiro histórico-cultural. “A rota do mate, em síntese, é um passeio que recomendamos a grupos de pessoas que queiram entender um pouco mais sobre São Mateus do Sul, principalmente com foco na erva-mate visto que o turista pode verificar desde a escolha de sementes até ervais plantados, indústria ervateira, etc”, detalha.

“Por fim, pretendemos ainda realizar novos roteiros, para que possamos explorar outras riquezas de nossa cidade, possamos mostrar outras indústrias que estão instaladas aqui e ainda outros lugares do interior do município”, prevê o representante.

Opinião conceitual

Certamente, o pouco de história que se conheça sobre a cidade que completa seus 108 anos de fundação leva ao entendimento de que o que fomentou e alavancou o desenvolvimento inicial da Vila de colonizadores, via transporte no barco à vapor, pode se apresentar como alternativa viável à crise. Solução caseira e eficiente se apresenta.

Os interesses de pessoas ligadas ao setor, técnicos, políticos e representantes de classe parecem ter o mesmo entendimento: a erva-mate tem muito a contribuir com a economia no município. A identidade é muito forte! Bastam ajustes, entendimentos e continuidade de ações, numa remodelagem do sistema, para São Mateus do Sul continuar pujante!

Sidnei Muran

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