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São Mateus do Sul comprova que a paralisação não é apenas dos caminhoneiros

A manifestação em São Mateus do Sul segue pacífica e reúne dezenas de caminhoneiros que conscientizam seus colegas a cada parada, para aderir à greve. (Fotos: Gazeta Informativa)

O movimento da classe dos caminhoneiros iniciou na segunda-feira (21), tendo como motivo principal a alta dos combustíveis em todo o Brasil. Como maneira de manifestação, caminhoneiros fecharam o acesso às cidades através das principais rodovias, paralisando a circulação de caminhões.

Em São Mateus do Sul a paralisação iniciou na manhã da terça-feira (22), e foi motivada pela ação provinda em todo o país. Um dos trevos de acesso à cidade, através da BR-476 próximo ao Posto Triângulo foi bloqueado para a passagem de caminhões, sendo um dos principais pontos retidos.

No Brasil, há mais de 2,2 milhões de profissionais registrados, dentre autônomos, funcionários de empresas e terceirizados segundo a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam), que de certa forma os representa. Eles percorrem cerca 1,7 milhões de quilômetros de estradas, 87% delas, sem um centímetro de asfalto, segundo dados da Confederação Nacional dos Transportes (CNT).

Reginaldo Macuco, caminhoneiro são-mateuense e um dos organizadores do movimento na cidade elencou que o principal motivo, é de fato, a alta exorbitante no valor dos combustíveis. “Além de nós caminhoneiros estarmos há anos trabalhando com o valor defasado de fretes. Não dá mais para suportar essa situação. Ela não prejudica somente nós caminhoneiros, mas agricultores e todos os trabalhadores que dependem de um veículo para trabalhar.”

A gasolina ultrapassou a barreira dos R$ 4,00 nos postos de combustíveis em dezembro de 2017 e, desde então, sobe de forma contínua e gradativa em todo o país. Influenciada pelo aumento do dólar e do petróleo, a escalada de preços dos combustíveis se intensificou no mês de maio, irritando consumidores e sendo o estopim que motivou a paralisação de caminhoneiros.

Os manifestantes obstruíram apenas a passagem de veículos pesados, os quais são obrigados a parar e convidados a aderir ao movimento. Carros, motos e ônibus estão liberados nos bloqueios, mas precisam enfrentar lentidão no trânsito por conta dos caminhoneiros que ocupam parte da pista. Caminhões com medicamentos, ambulâncias e cargas especiais também possuem passagem liberada durante toda a ação que já acontece há mais de uma semana.

Reginaldo mencionou à equipe da Gazeta Informativa que está sempre presente nos vários atos da mobilização, e que a disparidade nos valores dos combustíveis é muito grande. “Na Bolívia nosso combustível vale menos de R$ 2,00 cada litro, e aqui nós pagamos quase R$ 5,00 a mesma coisa. Nós precisamos mexer com o povo e com as autoridades.”

A movimentação tem como um dos objetivos a conscientização da sociedade. “Nós temos que mobilizar a população para que haja um exame de consciência dos nossos representantes políticos para que o valor dos combustíveis e pedágios sejam revistos. Nós não aguentamos mais”, desabafa Macuco.

Os principais reflexos da paralisação começaram a aparecer já no terceiro dia da manifestação. O primeiro fator alcançado foi a falta de combustíveis nos postos do município. Em seguida, supermercados tiveram a ausência de frutas e verduras, além de carnes onde a reposição é diária. Os empresários já se preocupam também com farmácias e transporte escolar. A gestão pública municipal também opera com restrições no andamento dos serviços prestados à comunidade. E o comércio indica queda nas vendas e no movimento.

“A união faz a força, por isso nossa classe de trabalhadores está unida para comprovar mais uma vez a nossa representatividade diante da nação. Um simples botão que está na camisa da população foi transportado e chegou até você graças ao empenho de um caminhoneiro que rodou o país para transportar a matéria-prima”, comenta Macuco.

Reginaldo salienta a importância do caminhoneiro, profissão que dá o sustento de sua família. “Muitos criticam os caminhoneiros, mas a grande maioria é trabalhador e pai de família que deixam seus lares para trazer o sustendo à suas casas. Ficamos dias, semanas e meses longe, e muitas vezes passamos necessidades. Não existe nada em nenhum supermercado, farmácia, loja, empresa ou indústria que não tenha passado em cima da carroceria de um caminhão.”

Bem mais que apenas um protesto contra a alta do combustível

Empresários, empregados, famílias, professores e grupos da sociedade civil organizada também vêm participando do movimento que agrega cada vez mais seguidores e apoiadores. Uma semana após o início da mobilização em São Mateus do Sul, e mesmo sentindo na pele as consequências da ausência dos caminhoneiros nas estradas, a comunidade abraçou a causa e foi às ruas junto aos motoristas.

A Associação Comercial, Industrial e Agropecuária (ACIASMS) e a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), também apoiaram o movimento e incentivaram os associados a fecharem as portas em dois momentos no decorrer da semana e se uniram aos caminhoneiros e aos agricultores que também demonstraram apoio.

Foram passeatas, carreatas, “tratoraços”, cavalgadas e “buzinaços” que chamaram a atenção da comunidade pelas principais ruas da cidade. Em cada ação houve maior adesão e movimentação. Inúmeras empresas e famílias colaboram com a doação de mantimentos como água, comida, roupas e cobertores aos mais de 120 caminhoneiros de vários lugares do país que estacionaram seus caminhões em São Mateus do Sul e uniram suas forças em prol há um interesse em comum.

No sábado (26), cavaleiros e agricultores se juntaram aos caminhoneiros e celebraram a santa missa no local do protesto, onde o Padre João Francisco que atua na Paróquia do Perpétuo Socorro, lembrou que todos ali unidos lutam por uma causa em comum e em prol à toda uma sociedade, dando ênfase a luta das classes trabalhadoras.

A busca pelo acordo

Logo após o início das manifestações, antes objeto de discórdia e dúvidas do governo, as consequências começaram a aparecer e os representantes executivos e legislativos das esferas estaduais e federais, tiveram de se reunir para analisar a situação que chegou ao “nível extremo”, segundo eles.

Em um primeiro momento, reunidos com parte dos representantes dos sindicatos, o governo chegou à primeira tentativa de apaziguar os transtornos, mas não obteve sucesso. Os manifestantes alegaram que as medidas não seriam suficientes para a retomada do trabalho.

No último domingo (27), a Presidência da República anunciou um pacote de medidas emergenciais aos protestantes que, segundo o Presidente Michel Temer, seria a última tentativa de acordo, haja visto que o governo não teria mais condições de melhorar as propostas. O Presidente estabeleceu: a redução no preço do diesel de R$ 0,46 a cada litro, medida válida por 60 dias, com reajustes há cada 30 dias, ao invés de diário.

Foram elencadas três medidas provisórias: a isenção da cobrança dos eixos suspensos nas rodovias municipais, estaduais e federais; a garantia aos caminhoneiros autônomos de 30% dos fretes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); e a criação de uma tabela mínima para o valor do frete, segundo projeto de lei do legislativo federal nº 121. De acordo com Temer, essas medidas atendem à praticamente todas as reivindicações dos caminhoneiros e com elas o país retomará os eixos do progresso.

A retomada da normalidade poderá demorar cerca de uma semana a 15 dias com a liberação das rodovias, que por sua vez permitirão o tráfego dos caminhões que abastecerão os postos de combustíveis, os supermercados, farmácias, etc. Até o fechamento desta edição, nenhum posto de combustível de São Mateus do Sul recebeu o abastecimento para a população.

Colaborador

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