(Imagens Ilustrativas)

Um curta-metragem em formato de mocumentário (formato de filme ou série que simula as características gerais dos documentários evidenciando a natureza ficcional destes conteúdos) viralizou nas redes sociais nos últimos dias. O intitulado “Save Ralph” traz uma forte crítica aos testes realizados por empresas do ramo de cosméticos. O que chama atenção é que esse vídeo chega ao público em um tom de sátira.

Foi escrito e dirigido por Spencer Susser mas a ideia é da Humane Society International – uma organização global líder na proteção animal. O objetivo, com a comoção, é promover uma campanha contra os testes em animais na indústria dos cosméticos.

Com quase 4 minutos, somos apresentados à rotina diária de um coelho chamado Ralph. Seu “trabalho” é servir de cobaia para testes laboratoriais de cosméticos. Ele é um personagem simpático e amigável que serve à sociedade na falsa ideia que lhe foi vendida: um trabalho honroso.

O animal é cego de um olho, surdo de um ouvido e possui queimaduras químicas em suas costas. Em uma das cenas, ele afirma que seus pais, irmãos e filhos foram cobaias, assim como ele. Ralph conta tudo isso em um tom orgulhoso, sendo alienado pela ideia de que o seu serviço é digno.

Conforme passam os minutos, é capaz de imergir em um universo cruel e triste para os animais. Percebe-se na fala de Ralph uma tristeza escondida e esta é misturada com uma imagem decadente, uma personalidade gentil e um relato conformista. Não há trilha sonora e o curta possui diversas cenas de silêncio que nos desconfortam com a situação apresentada.

Aos 02:35, vemos o carismático personagem com um semblante de cansaço e com mais machucados, agora cego dos dois olhos. “Gostaria de dizer a todos que ainda estão comprando cosméticos testados em animais […] que sem vocês e sem países que permitem testes em animais, eu estaria desempregado […] estaria nos campos, como um coelho normal. Mas está tudo bem”, conclui o coelho na sua última cena, em um falso tom de agradecimento aos humanos – não intencional do personagem, porém claro ao telespectador.

No final do vídeo, observamos uma mensagem da organização Humane Society International, que pede ajuda para banir a testagem em animais através de um abaixo-assinado. O link para acesso é: hsi.org/SaveRalph.

Testes em animais: necessidade ou crueldade?

O que chamamos de indústria de cosméticos abrange, na realidade, 3 segmentos, sendo eles: os cosméticos, os produtos de higiene pessoal e o ramo da perfumaria.

Esses produtos são regulamentados pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – visto que se tratam de interesse à saúde, pois possuem em sua formulação inúmeros ingredientes e insumos químicos. Dentre as exigências legais, o fabricante deve comprovar que o produto é seguro para o consumidor. Para isso, há duas etapas: in vitro (laboratorial) e in vivo (em organismos vivos). Após essas certificações, é permitido o licenciamento da empresa e registros do produto final. Assim como na área farmacêutica, os animais são utilizados na etapa “in vivo” para avaliar potenciais riscos envolvidos, tais como irritação, alergia e efeitos sistêmicos.

Os cuidados com a estética estão crescendo pelo mundo todo. Certamente, o uso de produtos voltados para a beleza traz felicidade a muitas pessoas, mas possuem um lado obscuro quanto se trata da sua produção. Diversos espécies são submetidas a procedimentos dolorosos e que causam danos a sua saúde, muitas vezes as levando a morte. A realização desses testes viola inúmeros direitos dos animais.

O artigo III dos “Princípios éticos para o uso de animais de laboratórios”, desenvolvido pela SBCAL – Sociedade Brasileira de Ciências de Animais de Laboratório – diz: “Procedimentos que envolvam animais devem prever e se desenvolver considerando-se sua relevância para a saúde humana o animal, a aquisição de conhecimentos ou o bem da sociedade”. Analisando, percebe-se que os testes não se enquadram na finalidade dos cosméticos, que é a promoção da beleza.

Na Declaração Universal dos Direitos dos Animais, o artigo 8 apresenta que “a experimentação que implica em sofrimento físico, é incompatível com os direitos do animal, quer seja uma experiência médica, científica, comercial ou qualquer outra”. É possível afirmar um desrespeito à declaração, visto que o sofrimento que a indústria cosmética causa nos animais é irrefutável.

Animais sendo utilizados em testes.

Essa causa e a preocupação em acabar com a crueldade em pesquisas científicas é assunto em diversos países. Infelizmente, ao pensarmos no Brasil, a preocupação com leis que protejam os animais das atrocidades em testes laboratoriais demorou para ser alcançada. Isso nos leva a crer que a nossa sociedade não demonstra tanta preocupação, como em outros países

Infelizmente, profissionais que atuam com o uso de animais para testes utilizam da eutanásia para disfarçar o sofrimento causado. A morte, para aqueles privados de liberdade devido ao seu uso em laboratórios, é vista como um alívio, já que eles passam por tanto sofrimento durante sua curta vida.

Camundongos, ratos, macacos, porquinhos-da-índia, cães da raça beagle… diversas espécies passam por esses testes. O coelho albino é um dos mais utilizados, sendo também o escolhido para o personagem principal do curta-metragem que viralizou na última semana. Sua preferência se deve ao fato de não ser um animal agressivo, ter um menor custo e possuir grandes olhos. Estes são imobilizados e tem substâncias aplicadas em seus olhos, podendo causar hemorragias, úlceras e outros danos graves.

É evidente que os animais estão sendo visto como objetos. São torturados em busca de dinheiro e não pensando no benefício da sociedade. Também vale ressaltar neste ponto que esses testes não são totalmente confiáveis, visto que o organismo deles se difere muito com o humano. Há relatos, inclusive, de medicamentos que foram aprovados nesses testes e que trouxeram diversos malefícios aos humanos, chegando a levar à morte, como o caso do Benoxaprofeno, que causou mortes por insuficiência renal e hepática no Reino Unido e Estados Unidos. Outro exemplo é a Penicilina, a qual quase foi descartada por não apresentar os resultados esperados em coelhos durante a fase de testes.

Esses não são confiáveis e precisam de modificações. Existem métodos alternativos com maior confiança que trazem segurança aos seres humanos e possuem um custo menor, além de trazer resultados com maior agilidade. Há aqueles para permeação cutânea, corrosividade cutânea, fototoxicidade e irritação de pele, os quais inibem o uso de animais. Se utilizados em sua totalidade, podemos afirmar que evitariam milhões de mortes desnecessárias.

Essa mudança vem ocorrendo em passos lentos. No cenário mundial já temos, ao menos, 37 países com leis que proíbem ou limitam o uso de animais em laboratório, especialmente para cosméticos. Há nações que estão em processo de transição, como o Brasil, que atualmente possui oito estados com leis locais proibindo o uso em determinadas indústrias. São eles: Amazonas, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

Infelizmente, aqueles que amam os animais e buscam uma vida digna para eles, ainda tem muito chão pela frente, mas, com a evolução da ciência, acreditamos que em breve possamos mudar o cenário horripilante que encontramos em laboratórios experimentais pelo mundo.

Quer saber se os seus cosméticos são testados em animais?

O site “Beauty without bunnies” ajuda consumidores a descobrirem as marcas que testam ou não em animais. Apesar de ser um site estrangeiro, contém em seus registros marcas brasileiras e a navegação por ele é simples, tendo apenas uma barra de pesquisa, onde você deve informar a marca que deseja.

Link: https://crueltyfree.peta.org/

Comentários

MATÉRIAS RELACIONADAS
O são-mateuense e seu baú de histórias
Policiais militares são-mateuenses recebem carta de agradecimento de vítima de depressão
Ação voluntária tem como objetivo a construção de lar à família de trabalhadores são-mateuenses