(Foto retirada do livro The Underwater Dogs (amazon)

A ponte sobre o Rio Iguaçu em São Mateus do Sul, foi inaugurada quase duas décadas antes do meu nascimento. Não falarei sobre a história de sua construção e importância para o desenvolvimento regional. Falharia se tentasse isso. Este texto é sobre alguns acontecimentos de décadas atrás, que de alguma forma envolveram a ponte.

Somos seres sociais, alguns mais, outros menos, mas todos ao longo da vida colecionamos histórias sobre lugares comuns, públicos ou não. Assim, posso apostar que você leitor, tem alguma história envolvendo uma ponte, uma igreja, uma escola, uma avenida ou praça da cidade. E se não tem fatos da vida pessoal, certamente conhece alguns interessantes, de outros, que valem a pena contar! Somente um personagem terá o nome citado, porque me autorizou, os demais, verdadeiros, permanecerão anônimos pois não consegui contato para autorização.

Como já disse em outras histórias, essa facilidade de aquisição de veículos é algo recente na realidade brasileira. Nos anos 1980 o normal era percorrer grandes distâncias a pé, seja por trabalho ou diversão, mas “percorrer os aguapés” a pé já era demais! Esse termo (percorrer aguapés) eu aprendi com um amigo aqui do coração do Rio Grande e no dicionário gaúcho significa ir na zona mesmo!

Pois os dois amigos resolveram ir a pé, afinal arrumar carona para esse fim sempre era muito constrangedor. Pegar um táxi? Não, isso sairia caro. O que são alguns quilômetros de pernada na rodovia?

Mas é claro que as chances de sucesso numa empreitada dessas é pequena e depois de chegarem lá, esbaforidos, perceberam que não eram clientes muito desejados, as dançarinas obviamente sabiam que os cavalheiros estavam desprovidos de recursos, não valia a pena investir tempo com eles. Algumas poucas cervejas e os bolsos se esvaziaram. Perdeu a graça aquilo! Melhor voltar pra casa, mas agora, sem a expectativa do “calor humano”, a distância do retorno parecia maior. Se foram, já na madrugada, escutando o eco dos passos na reta que separa a Vila Palmeirinha do Centro da cidade. O alívio de ter vencido a maior distância fez com que um deles decidisse comemorar dando um grito, que ecoou no leito do Rio Iguaçu. Deu pra ouvir lá na Usina Velha, o “nome artísticos” das moças que dispensaram os galanteios rapazes.

Poucas pessoas ouviram os gritos no Rio, mas não passaram despercebidos para dois homens que estavam debaixo da ponte, na parte seca, ali na rua de acesso à Usina Velha. Incomodados, até ofendidos com aqueles gritos, os dois homens, apesar de embriagados, subiram rapidamente as escadas e em um ou dois minutos estavam em cima da ponte. Haviam decidido que, por ali, os rapazes que gritavam não passariam. Que desaforo ficar gritando de madrugada daquele jeito!

“Por aqui nenhum vagabundo vai passar!”, gritou o mais velho, com uma ripa na mão. “Vamos pra casa a nado então? Só tem esse caminho, vai cuidar da sua vida homem, deixa a gente em paz! gritou lá na outra cabeceira um dos jovens enquanto atravessavam a ponte em direção ao bloqueio. “aqui não passam!”, insistiu o homem com a ripa enquanto o outro já não estava tão certo de que aquilo era uma boa ideia. “ah não vou passar, então veja!”, disse o rapaz, iniciando uma corrida em direção aos “fiscais da ponte”. O amigo, que ficou pra trás, nem teve tempo de avaliar direito. Só viu que o parceiro atravessou o bloqueio e continuou correndo. Foi embora e abandonou o amigo. “E agora, como vou passar sozinho?”, pensou o rapaz. Mas antes que decidisse o que fazer, percebeu que um dos homens que bloqueavam a ponte também correu, mas não em perseguição ao seu amigo e sim para outro lado e que, o homem que sobrou se agachou e depois se deitou no asfalto do pavimento da ponte. Ao se aproximar percebeu uma poça de sangue.

Seu amigo estava armado de faca, e ao passar correndo golpeou com ela a barriga do homem que estava com a ripa na mão. O outro, ao ver o sangue entrou em pânico e fugiu do local. Restou ao rapaz prestar socorro ao homem. Carregando o homem nas costas ele conseguiu com muito esforço vencer o declive da rua Luciano Stencel e alguns minutos depois entregava a vítima da facada na portaria do hospital. Felizmente o golpe não foi fatal e como o rapaz socorreu a vítima e não foi o autor da facada, não teve maiores problemas com a lei. O outro se mudou da cidade e só foi visto novamente muitos anos depois.

Algum tempo depois, eu pescava lambaris logo abaixo da CBR1 (estação de bombeamento de água para a usina de xisto) e num dado momento, curiosamente quando lembrava do caso da facada, olhei para a ponte a tempo de ver um rapaz se atirando dela para o rio. O susto foi grande. Eu não sabia nadar, como poderia ajudar essa pessoa que estaria se atirou no rio? Abandonei a vara de pesca e caminhei olhando pro rio. Alguns segundos se passaram e finalmente o jovem emergiu. O mergulho, por mais loucura que parecesse, era intencional. Era o amigo Joni Santos. O maluco mergulhava no Rio Iguaçu a partir da ponte! Eu não sei nadar até hoje porque não tive coragem de mergulhar no arroio Bizinelli e o Joni ali, se fazendo de Tarzan e mergulhando daquele jeito. Que susto!

Felizmente meu amigo Joni Santos desistiu da carreira de mergulhador e São Mateus ganhou um grande gaiteiro. Sim, Joni Santos é o nome de batismo do Frank Joni, nada menos que o gaiteiro que toca com artistas como Chitãozinho e Xororó, entre outros. Um mestre da sanfona! Mas segura aí, que tem mais um personagem nas histórias da ponte:

Todos dias, quando ele saia pra trabalhar, o guaipeca baio o seguia. Se tornara uma verdadeira sombra e o único jeito de sair de casa sem a companhia do cusco era prendendo o cachorro antes de sair. O cachorro já era muito velho e ele não entendia porque, tendo outras pessoas na família, seguia somente um.

De repente começaram a surgir algumas feridas na pele do cãozinho, que foram se agravando. Os recursos eram poucos e a cidade não dispunha de serviço de veterinário gratuito. Em alguns dias a doença piorou muito, mas o cachorro continuava seguindo seu escolhido e ele teria que fazer alguma coisa. Infelizmente teve a pior das ideias. Pensou em sacrificar o animal! Mas como ter coragem pra isso?

Os dias se passaram e o, já mal cheiroso cachorrinho continuava seguindo seu humano pra lá e pra cá, apesar de não demonstrar a mesma alegria. Era sábado e os dois atravessaram a ponte sobre o Rio Iguaçu. Era temporada de pesca ao lambari e as barrancas do outro lado ofereciam bons pesqueiros. Final da tarde, com o samburá cheio de lambaris, ele retornava pela ponte, quando lá no meio, achou que seria a oportunidade de se livrar do cão.

Parou ao lado do guarda-corpo da ponte e o fiel companheiro parou em sua frente. O rapaz não estava muito certo do que pretendia fazer, mas fechou os olhos e desferiu um chute forte em direção ao cachorro. Com os olhos fechados não percebeu que o animal mudou ligeiramente de posição e o chute, embora tenha arremessado o cãozinho no rio, acertou em cheio com a canela na barra de ferro da mureta de proteção. Escutou o barulho do amigo caindo na água. A altura era grande e só a queda já poderia ter matado o bicho.

Os pouco mais de 3 km da ponte até a casa foram terríveis. O ferimento na canela era grande. Levantou um hematoma enorme no local da batida e ele mal podia tocar o chão com o pé. Foram mais de 40 minutos agonizantes pra chegar em casa, na Vila Amaral. Se deu conta da burrada. O que diria em casa? Se contasse que sacrificou o cachorro, era capaz do pai lhe terminar de quebrar a perna. A consciência pesava e ele já pedia perdão à Deus pelo pela crueldade com o animal.

O alívio de vencer os últimos metros e entrar no pátio de casa foi grande. Mancava muito e a mãe ao vê-lo chegando perguntou: “O que é isso filho? Olha o estado dessa perna!” – E antes que ele conseguisse inventar uma desculpa a mãe completou: “Eu já ia mandar teu irmão te procurar. Faz mais de meia hora que seu cachorro chegou, todo molhado. Pensei que você tinha caído no rio”. Nesse momento o cachorro, que percebera a chegada de seu algoz, sem nenhum rancor veio lá do quintal, abanando o rabo. A mãe não entendeu o abraço que o rapaz deu no cachorro e nem o sorriso no rosto apesar da perna tão machucada!

Luís Ferraz
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