De acordo com pescadores locais, algumas pessoas que já haviam presenciado período de seca intensa estão revisitando as antigas carcaças de embarcações. (Foto: Cleverson Guimarães)

O período de falta de chuvas, ao qual está exposto o estado do Paraná nos últimos meses, tem provocado uma série de impactos econômicos. Desde o mês de fevereiro, a seca vem afetando o cultivo de algumas culturas que tradicionalmente sustentam a economia do nosso estado. É o caso das lavouras de soja, milho e café. Além disso, o nível baixo dos rios propiciou a visualização de um aspecto bastante curioso e importante na história do município de São Mateus do Sul.

De acordo com dados do monitoramento hidrológico realizado pela COPEL (Companhia Paranaense de Energia), na última leitura registrada antes do fechamento dessa edição, o nível do Rio Iguaçu em nossa cidade é de 0,072 m. A vazão, que representa o volume de água carregado pelo rio é de 17,2 m³/s. Somado a esses dois dados, junta-se o baixo índice de chuvas significativas em nossa cidade, o que faz com que a água não se acumule. Esse cenário revelou algumas carcaças de antigas embarcações, que estavam submersas nos rios Taquaral e Iguaçu. Tais vestígios são retratos de uma realidade que ajudou a erguer as bases de nosso município.

Um breve histórico da navegação

Nelson Chaves é um estudioso da história são-mateuense e filho de um capitão das antigas embarcações à vapor. Ele comentou sobre alguns dos aspectos mais importantes que envolveram a navegação através das águas do Rio Iguaçu. “O pioneiro da navegação no Rio Iguaçu foi o Amazonas de Araújo Marcondes. Ele foi o primeiro a realizar essa forma de transporte fluvial e fez sua primeira viagem experimental no dia 27 de dezembro de 1882”, ressaltou ele. O objetivo inicial era realizar o transporte de sal para gado até a região de Guarapuava. A embarcação utilizada por Amazonas era chamada de Vapor Cruzeiro.

O Vapor Sereno foi reformado para reutilização em 1948, mas teve seu fim decretado antes mesmo de navegar.
(Foto: Acervo Pessoal Nelson Chaves)

Outro momento importante da navegação nas águas do Iguaçu, foi a constituição da Lloyd Paranaense S.A., uma empresa de navegação estatal que incorporou algumas outras já existentes. Ela foi fundada em 1915 e passou a ser sediada em São Mateus do Sul, a partir do ano de 1918. A empresa possuía muitos vapores e funcionários, dentre eles o Vapor Pery. “A atuação da Lloyd foi muito importante para estruturar cada vez mais a navegação no Iguaçu e a formação do nosso município. Existiam muitas serrarias e empresários na região, cuja principal via de transporte de seus insumos se tornou as águas do Rio Iguaçu. Isso estabeleceu maior regularidade de viagens para carregar mercadorias”, destacou Nelson.

Os últimos capítulos da navegação em São Mateus estão vinculados à construção da ponte localizada na BR-476, em uma das entradas da cidade. “Não se sabe exatamente o ano final do declínio da navegação tradicional no Iguaçu e em nosso município, mas isso ocorreu aproximadamente no ano de 1955, após a construção da ponte. O transporte através dos rios é mais lento, o que pesou muito nisso”, explicou o estudioso.

A seca expõe antigas carcaças

Através de relato de pescadores e amantes do meio ambiente local, a reportagem da Gazeta Informativa recebeu algumas fotos das carcaças das antigas embarcações que navegaram pelas águas do município. Nelson Chaves comentou sobre a natureza e a origem das mesmas. “Existem quatro carcaças de notório conhecimento por parte do pessoal que costumar estar sempre no rio. Duas delas não são identificadas e estão localizadas em um trecho logo acima da ponte e outra na curva, acima do rio Taquaral. E também existem outras duas, as quais a origem é conhecida. Se tratam da Chata Marli e do Vapor Sereno.

Vestígios de um passado marcante

As carcaças do Vapor Sereno e da Chata Marli (chata é o nome atribuído a diferentes tipos de embarcações de serviço, seja para transporte, dragagem ou carga e descarga, de pequeno calado e fundo chato) são encontradas no trecho localizado acima da ponte do Rio Iguaçu, próximas à fábrica de manilhas da Prefeitura Municipal, junto à foz do rio Taquaral. De acordo com Nelson Chaves, a chata era rebocada pelo Vapor Sereno, por isso seu tamanho não era demasiado grande em comparação à outras embarcações.

A navegação à vapor foi a principal força motriz na formação do município de São Mateus do Sul, representada agora por vestígios que contam nossa história. (Foto: Cleverson Guimarães)

Ainda de acordo com relato do estudioso da história são-mateuense, o Vapor Sereno iria ser reformado por Augusto Tararan, um madeireiro e empresário local. “Ele já havia sido utilizado anteriormente durante o período de ouro da navegação e aproximadamente em 1948 aconteceu um episódio curioso. O Tararan iria reformar a embarcação para que ela continuasse navegando, mas o casco acabou se partindo ainda na saída do estaleiro. Isso decretou o término de sua utilização”, comentou ele.

A preservação do passado

Nelson Chaves relembrou o caso do Vapor Tibagi, a fim de ilustrar um cenário que se revela acerca da preservação do patrimônio da navegação no estado do Paraná, de maneira geral. “Os restos do importante vapor que navegou durante muitos anos através das águas do nosso rio, ficaram durante 50 anos afundados no km 53 do rio, esquecidos. Isso aconteceu numa região próxima à localidade de Porto Amazonas, mas é um cuidado que também devemos tomar com os vestígios da história local”, encerrou ele.

No trecho conhecido popularmente como “Prainha do Rio Iguaçu” é possível atravessar caminhando as duas margens.
(Foto: Éber Deina/Gazeta Informativa)

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