Esta Semana

Sentir o Verde

Dona Leocádia e o remédio. (Foto: Ed. Guimarães)

Esta semana me deparei com uma nostalgia, lembrei do tempo que corria pelo quintal, local que na época era guardado e cuidado pela minha avó, um quintal repleto de verde e vida, que na época para mim, não passava de mato.

Tanchagem, arruda, guaco, arnica, pata de vaca, folha de laranjeira, carqueja, capim cidreira, capim limão, gengibre, hortelã, camomila, babosa, boldo, eram alguns dos exemplares daquela coleção fascinante de plantas, que ela ao longo de sua vida havia plantado e cuidado.

Lembro das vizinhas que trocavam entre si mudas de plantas medicinais, flores e folhagens. Enjoo, gripe, azia, pra tudo havia uma plantinha para aliviar o mal estar, uma pequena farmácia ao nosso dispor.

O tempo foi passando, ela nos deixou. O tempo foi ficando cada vez mais corrido e por vários motivos o quintal todo cheio de vida foi ficando menos verde e dando lugar a calçadas e pedras, não tínhamos mais tanto tempo para nos dedicar à prática e cuidado do quintal, este pequeno universo.

O que vi acontecer na casa da minha família, é o que vi acontecer por muitas outras casas da cidade. Apesar de São Mateus do Sul ser uma área demasiadamente rural, a população que vive no perímetro urbano, devido ao ritmo contemporâneo, teve de adaptar sua moradia, casas cada vez menores, quintais reduzidos e com apenas um tipo de gramínea, para facilitar o cuidado. O que me preocupa nesta relação é algo que vai além do estético e sim, algo que mexe com nossos instintos e nosso sensível. A memória afetiva que tenho de minha avó e que talvez muitos de vocês tenham, nos faz lembrar da necessidade do contato com a natureza, contato direto com o processo e ciclo da vida. O cuidar, o germinar, o florescer, o brotar… e claro, o morrer.

Talvez pude amadurecer e valorizar muito mais a terra, depois que me vi morando em um apartamento. Senti a necessidade de trazer para dentro de casa um pouco desta vida, de preencher o espaço com um verde, de começar a sentir o prazer de ver uma mudinha virar um pé, de ver o cactos desabrochar uma flor.

Em relação a questões técnicas, hoje existem vários canais e fontes de informação na internet para fazer seu mini jardim, sua horta urbana, pessoas que cada vez mais sentem vontade de trocar o concreto pelo verde. Grupos de pessoas que estão se mobilizando para fazer de espaços públicos hortas comunitárias, pessoas voltando a relação da cura pela natureza. Mas cá entre nós, valorizo sobre tudo, o conhecimento empírico, aquele conhecimento passado através da experiência de quem fez e deu certo, aquelas dicas de vó para mãe, de mãe para filha e por aí vai… Nossa cidade é muito rica em exemplares de plantas, solo e conhecimento, que tal voltar a sentir um pouco destas raízes?

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