Prismas

Seu rosto já é uma senha

Nesta semana lembrei-me de algumas cenas de Tempos Modernos, filme de Charles Chaplin, que estreou em 1936, cinco dias antes do nascimento do meu pai. Nela, o presidente de uma empresa controlava todos os movimentos de seus empregados, mesmo em momentos mais íntimos como, por exemplo, na hora de ir ao banheiro. Nesta visão profética, Chaplin mostrava o que nos aguardava.

A tecnologia sempre nos trouxe coisas boas e ruins e a dificuldade está em definir os limites de seu uso. Diferenciar o que é de interesse público e o que é privado é um dos principais desafios de hoje e dos próximos anos.

Até bem pouco tempo, suas formas de reconhecimento pessoal eram sua carteira de identidade com uma impressão digital e algum outro documento com foto. Meios fáceis de se falsificar, já que as bibliotecas digitais do planeta não estavam conectadas.

Na mesma linha, os exames de DNA permitem uma identificação quase que 100% segura, porém ainda dependem de análise laboratorial para confirmação. Isto mudará em pouco tempo e você deve, deixando o seu rastro por aí, ser identificado por qualquer aparelho apropriado e vendido pela Internet. Antes disso, você será perfeitamente identificado através de sua imagem e de nada adiantará uma cirurgia plástica para disfarçar, pois você é um conjunto de imagens e expressões únicas no planeta.

Nos últimos anos, o reconhecimento facial foi introduzido em aeroportos como forma de confirmar a identidade dos viajantes. Também é usado para reconhecer criminosos, como no caso de duas pessoas suspeitas de envenenar o agente russo Sergei Skripal e sua filha Yulia no Reino Unido.

As empresas estão trabalhando para criar um software de reconhecimento facial que pode, entre outras coisas, ajudar uma pessoa cega a saber quem está em uma foto ou mesmo quem está na sala com ela. As empresas de cartão de crédito esperam que o reconhecimento facial seja o próximo passo na autenticação de pagamentos.

Os exemplos acima são do bom uso dessa tecnologia, mas ela pode ser mal utilizada. “Imagine um governo rastreando você em todos os lugares em que você andou no último mês sem sua permissão ou conhecimento”, escreveu Brad Smith, presidente e diretor jurídico da Microsoft, em uma chamada pública para regulamentação governamental da tecnologia de reconhecimento facial. “Imagine um banco de dados de todos que compareceram a uma manifestação política que constitui a própria essência da liberdade de expressão”, continuou.

O mundo de hoje parece ser um imenso reality show, com câmeras espalhadas em cada canto. Em nome da segurança, monitoramos a tudo e a todos em todos os momentos.

O que será que a câmera de seu celular está capturando agora? Ela está transmitindo?

Pense! Será que não merecemos alguns momentos bons e honestos de privacidade?

Adnelson Borges de Campos
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