Perfil

Sonho de cinema que desde criança motiva são-mateuense, se torna realidade sob duas rodas

Um sonho de 25 anos junto a sua Caloi Cross Extra Light – lançada entre os anos de 1982 e 1983, e considerada na época, uma das melhores bicicletas do mundo. (Foto: Alexandre Müller/Gazeta Informativa)

Toda criança possui sonhos, dos mais variados possíveis. Muitos deles às vezes demoram anos e ultrapassam a infância e adolescência para se tornar realidade. Afinal, quem nunca sonhou em ter um brinquedo ou ser um super herói?

Inusitadamente nos deparamos no dia a dia com várias pessoas que possuem sonhos e que muitas vezes desconhecemos. Esse é o caso do arquiteto, urbanista e músico, Marco Aurélio de Lara, popularmente conhecido como Nelinho, de 37 anos, nascido em Porto União – Santa Catarina, mas que sempre residiu em São Mateus do Sul.

A história de Nelinho, que para muitos de seus amigos e conhecidos só veio à tona 25 anos depois e para outros tantos será conhecida após essa reportagem, iniciou no auge de sua passagem da infância para a adolescência quando descobriu uma grande paixão, viva até os dias de hoje.

Trata-se de uma bicicleta, ou melhor, como ele mesmo à chama pelo nome completo, Caloi Cross Extra Light, lançada entre os anos de 1982 e 1983. Na época a empresa Caloi possuía uma bicicleta que hoje é conhecida como “elo perdido” e nesta mesma época o diretor Steven Spielberg lançou o popular filme ET, onde encomendou a criação de uma bicicleta exclusiva para o filme, uma modelo BMX da marca Japonesa Kuwahara, modelo KZ-2.5 ou como ficou conhecida ET-1. E foi aí que começou uma onda frenética de bicicletas neste modelo.

Quando o filme chegou ao Brasil, a Caloi tirou mais do que imediatamente todas os seus modelos de bicicleta do mercado e lançou a Caloi Cross Extra Light, uma cópia fidedigna das bicicletas utilizadas no filme. Seu nome foi alusivo ao filme, Extra pelo ET e Light por ser a primeira bicicleta profissional em alumínio leve no país.

A ideia foi tão sensacional, que se tornou uma febre nacional o que a levou a ser considerada na época uma das melhores bicicletas do mundo, pois tinha em sua composição as melhores peças das bikes mais famosas do planeta, que foram montadas no Brasil. A fama fez com que a bicicleta agregasse valor e custasse muito caro para o bolso dos pais brasileiros, mas isso não impediu da marca e modelo continuarem sua trajetória de sucesso sendo coadjuvante em filmes nacionais como Os Trapalhões e programas da rede televisiva.

“Fui um dos primeiros apaixonados por essa bicicleta em São Mateus do Sul e do movimento BMX e Freestyle, mas passei minha infância e adolescência sem conseguir possuir uma. Meus amigos tiveram e eu não, foi uma frustração muito grande. Mas isso não me impediu de ser criativo, pois eu tinha minha Monark e na medida do possível adquiria modelos da Light e incorporava na minha bike com o objetivo de deixá-la mais próxima possível ao meu sonho de consumo”, relata Nelinho.

Segundo ele, com o passar dos anos deixou de praticar o Bicycle Moto Cross (BMX) e Freestyle por se comprometer com outra paixão, a música, e por estar sempre machucado devido as quedas e lesões decorrentes da prática esportiva começou aos poucos a deixar de lado a bike. O apaixonado nos conta que infelizmente naquela época existia uma espécie de retaliação muito grande com os jovens que praticavam esse esporte e muitas vezes eram taxados de “cacos” ou “maloqueiros”.

Com o amadurecimento emocional e profissional, Nelinho conta que quando estava prestes a se casar questionou Rosane Clara Lara Pacheco, hoje sua esposa, se ela não se importaria que ele pudesse levar consigo seu amor por esse esporte e esse sonho que ainda batia forte em seu peito. “Ela me apoiou firmemente, afirmando que eu deveria correr atrás do meu sonho, palavras que jamais esqueci”, relembra.

O início da trajetória em busca do sonho

Há exatos 10 anos Nelinho conta que encontrou um de seus colegas de infância, um dos quais possuía uma bicicleta naquele sonhado modelo, na cor vinho. O colega relatou ao questionado por ele, que sua bike estava em uma barracão há muitos anos jogada sem ser usada. Logo em seguida, ele e o amigo entram em um consenso, e Nelinho acaba comprando a bicicleta. Começava aí mais uma etapa do sonho.

Uma semana depois o amigo chegou em sua casa e tirou da caminhonete aquela bicicleta que o faria, a partir daquele momento, voltar no tempo e correr atrás de suas lembrança.

A partir daquele momento, a bicicleta completamente detonada passou a ter uma nova perspectiva. “Peguei ela, fui para casa e mostrei à minha família que ali começa a minha realização, mesmo todos vendo diante seus olhos apenas um monte de lata velha”, diz.

Nelinho desmontou toda a bike, separando as peças originais do resto dos apetrechos. “Aos poucos limpei peça por peça e as restaurei. As peças ficavam na casa do meu pai e sempre que eu sabia que ele iria começar uma faxina na garagem eu corria buscar tudo para não ser jogado nada fora”, conta.

O sonhador salienta que neste ano de 2018 entrou na fase final da realização do sonho, o qual sempre contou com a ajuda de toda a família, que por muitas vezes o presenteavam com uma ou outra peça. “Quase no término do trabalho levei a bicicleta para minha mãe ver e ela se emocionou e pediu desculpas por não ter conseguido comprá-la quando ele era criança”, menciona emocionado.

A primeira voltinha

“Meu primeiro passeio junto ao meu sonho aconteceu na manhã do último domingo, 9 de dezembro, no 3º Passeio Ciclístico da Polícia Militar e agora ela vai ficar guardadinha para não gastar”, relata o ciclista que conta que a bicicleta é toda original e ainda faltam alguns detalhezinhos que logo serão complementados.

No dia do passeio ciclístico Nelinho pensou em apenas ir na concentração do evento e depois ir embora, e assim o fez. “Pedalei por uns 100 metros e parei. Naqueles instantes um filme passou pela minha cabeça e fui incentivado por minha força de vontade, para voltar e percorrer todo o trajeto e assim o fiz. Cerca de 7 quilômetros que representaram 25 anos de espera. Para muitos, apenas um passeio ciclístico, para mim o meu sonho sob minha Caloi Cross.”

Muitas pessoas vêm o questionando sobre o porquê Nelinho passou anos da sua vida empenhado com a reforma da bicicleta e hoje com ela pronta a deixa guardada. “Apenas afirmo que o sonho está conquistado e o valor dela pra mim é emocional, nela está toda minha infância. Hoje ela está guardada em meu quarto”, afirma.

Nelinho lembra que quando iniciou a fase da pintura na restauração, pensou em utilizar vários tipos de cores e a customizar como era de praxe entre os jovens, mas resolveu buscar mais informações na internet e lá se deparou com um movimento que tem mais de 50 mil apaixonados pela Caloi Cross Extra Light, chamados como Light Maníacos em todo o Brasil.

“Nas minhas jornadas à procura por informações do meu sonho, encontrei e me inscrevi em um canal Caloi Cross Extra Light que tem como dono, hoje meu amigo Ravi Sawaya, que dá dicas de como montar sua Light. Ele me convenceu a manter a originalidade. Hoje o Ravi atua junto aos engenheiros e designers na formatação da reinvenção do modelo em comemoração aos 120 anos da Caloi, e já criaram uma espécie de movimentação que foi denominada como #returnlight, ou seja, ‘quero minha Light de volta’”, enaltece.

A partir de agora, o objetivo do ciclista sonhador é adquirir uma Caloi Cross Extra Light nova para seu filho, Pedro Pacheco de Lara, e juntos passearem pelas ruas são-mateuenses, ele com sua Caloi Cross vinho que em breve terá uma cestinha e carregará um Etezinho como no filme.

CHARGE:

Colaborador

Compartilhe:


MATÉRIAS RELACIONADAS
Morador de São Mateus do Sul possui acervo centenário
A disposição e a vitalidade da cozinheira são-mateuense
Para viver a vida da melhor maneira possível, não precisa-se necessariamente enxergá-la, diz Joelson Luis

Os comentários estão fechados