Mentes Inquietas

Sontag e Benjamin – Técnica e Sociedade

O mundo em suas discrepâncias e nuances, se apresenta como objeto das relações. Nele tudo acontece. É impossível o nada-acontecer, pois já é um nicho do acontecimento. As relações humanas são cíclicas e manifestam constante alteração da ordem a cada momento que se passa. A cada causa, um efeito proporcional ocorre, e ambos geram um produto já experimentado pelas gerações precedentes.

Susan Sontag (1933-2004), em sua obra Sobre Fotografia (1977), traz para consideração a indiferença do indivíduo frente ao mundo objetivo. Ao narrar a questão do trânsito de classes que ocorre no ato da fotografia, diversas inquietações passam a nos atentar. Entre tais, a relação entre ricos e menos afortunados: quando o fotógrafo aponta a objetiva para uma nova perspectiva social – a qual ele não está inserido – e denuncia as discrepâncias entre aqueles que vivem à margem da sociedade e os que habitam condomínios luxuosos. Para tanto, não é necessário ter registros imagéticos de ambos os extremos, mas apenas aquele contrário ao destinatário da matéria.

Entretanto, o que chama a atenção é a passividade do fotógrafo frente ao fato. Seu ato é fazer uso da técnica para revelar um estrato social, que será visto por outros tantos a partir da reprodução do material e dali em diante as coisas prosseguem como de costume: cada qual em seu lugar.
Walter Benjamin (1892-1940) em sua obra Magia e Técnica, Arte e Política (Brasiliense, 1985), argumenta sobre as obras de arte e sua consequente reprodutibilidade a partir da instrumentalização de uma técnica. Assim, a arte passou a ser exposta às massas de forma como nunca antes havia acontecido. Com o passar do tempo, a observação do mundo passou a ser menos intensa com relação a tempos passados. A técnica deu mais velocidade ao movimento humano. Não se passa mais que alguns segundos observando uma pintura ou escultura em uma galeria: faz-se autorretratos com os telemóveis na frente de obras conceituadas, captura-se a imagem de uma escultura e a ela não se despende maiores considerações.

As velocidade das interações e de descarte de objetos é vertiginosa. No ensaio de Benjamin A Obra de Arte na Época de Sua Reprodutibilidade Técnica (1989), aprofunda o tema da arte e reprodução. Diz Benjamin: “[…] existem dois [fatores]que se opõe diametralmente: o valor da obra como objeto de culto e seu valor como realidade exibível.” Isto é, com o desenvolvimento de técnicas de reprodução em larga escala, obras de expressividade artística que antes eram cultuadas como alvo de estudo e admiração foram deixadas de lado por uma exibição imagética sem aprofundamentos. Apesar do que possa parecer, a visão do ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo alemão sobre as técnicas de reprodução não é pessimista, há uma dicotomia visível: para ele a fotografia expressa uma nova forma para observar o mundo, que muitas vezes escapa aos olhos do homem vulgar – que está a todo momento cumprindo suas metas e seguindo a vida na velocidade que acredita que deva imprimir. Desta maneira, a técnica de reprodução aqui referida tem a capacidade de congelar um instante que jamais se repetirá.

A aura é uma questão importante para Benjamin. Para ele, é “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais próxima que esteja”. A aura pode ser apreendida na pintura, mas também na fotografia, porém, ao passo em que qualquer objeto que manifeste uma captação espaço-temporal irrepetível é tecnicamente reproduzida de forma massiva, a aura vai se dissipando. Aquele momento eternalizado já não é mais único

De tal modo entende-se que há certo egocentrismo da técnica de reprodução no trânsito de classes: pessoas, animais e seus ambientes transformam-se em mercadoria do entretenimento. Turistas vão à periferia para fotografar a inusitada (para eles) situação de vida; comercializa-se imagens de pessoas no ocaso, ganha-se prêmios (capital) e aquelas continuam definhando.

Artigo escrito por Alexandre Stori Douvan, acadêmico do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG e membro do Grupo de Estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.

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