Sempre fui daquelas pessoas curiosas que buscam saber o porquê das coisas mesmo que não entenda o que de fato significa. Quando criança essa energia era movida na velocidade de mil perguntas por minuto e com a sagacidade de uma curiosidade que conta goteja perguntas o tempo todo e bombardeia o mundo de porquês, então me embrenhei na cozinha pela primeira vez ainda bem pequeno, depois que vi uma mulher cozinhando um pan-de-ló de laranja enquanto ouvia piadas de um papagaio. Não sei se o meu amor por animais ou a paixão por falar, alguma coisa neles me motivou a crer que se eu também cozinhasse um bolo como aquele, poderia ser amigo daquele papagaio. E assim eu preparei minha primeira receita da vida: um bolo de laranja.

Acredite quem quiser, mas nunca encontrei com o papagaio. O bolo ficou uma delícia; quem perdeu foi ele.

Desde aquele dia nunca mais esqueci a magia da cozinha e o que ela faz: Cria, transforma e permite um mundo de possibilidades. Ela tira do caos do lado de fora e te reconecta consigo mesmo, te leva para qualquer lugar do mundo ao alcance do paladar.

A cozinha é o coração pulsante da casa, onde tudo acontece. O lugar em que nos reunimos para celebrar, agradecer, ouvir e compartilhar; para rir, contar segredos e histórias. É onde a realidade se mistura com a fantasia e ao fecharmos os olhos, escutamos uma barulhenta sinfonia de aromas e sabores e texturas e tudo que podemos imaginar debaixo do destampar das panelas. Da até para conversar com papagaios engraçados e fazer bolo de laranja ao mesmo tempo. Será que os papagaios gostam mesmo de bolo de laranja?

Minha afinidade com a cozinha sempre foi grande, já meu talento não tanto. O pouco que sabia aprendi olhando o que minha mãe inventava nas panelas e outro pouco das minhas investidas culinárias em busca pela sobrevivência.

Quando fui a morar sozinho tive que aprender algumas coisas na amarra e outras pelo telefone com a minha mãe tentando me ajudar a salvar o que depois eu chamaria de almoço.

A faculdade de gastronomia foi um adeus a esse perrengue e um encontro entre o que me faz sentir alegria e o que me permite viver profissionalmente disso. E também um jeito de não morrer de fome morando sozinho [risos].

Cada dia uma nova descoberta, um novo aprendizado e um salto gigante em muitos aspectos da vida. A cozinha é afetiva, é memória e história vivas, é cultura, representatividade, política, resistência e é também sobrevivência. Um resgate cotidiano de pessoas e de suas origens, e como a moda; reflete exatamente o que que estamos vivendo. O prato de comida estampa nossas caras e nossas realidades. Somos aquilo que comemos ou a falta disso.

A expressão da cozinha é como arte abstrata: cada tempero é uma pincelada, a assinatura de um cozinheiro em sua obra. As características peculiares de cada um são representadas em traços de sabor, de técnicas e de influências.

Essa coluna é um pouco isso: de cozinha e receitas, de porquês e de cultura, tudo bem temperadinho e explicado.

Um convite para embarcar comigo nesse papo de histórias e sabores, para provar da cozinha através do gostinho das palavras.

Sou Lincoln Molinari, gastrônomo, vegetariano, cozinheiro, consultor, professor e palestrante de gastronomia, etiqueta e comportamento à mesa. Fui apresentador da TV Cultura, passei pelo rádio, revista, editora e muitas cozinhas, atualmente me comunico falando sobre cultura gastronômica na internet, promovendo o diálogo e desmistificando a cozinha através do humor, amor e alegria.

Lincoln Molinari
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