Reflexão com Padre Marcelo S. de Lara

Talvez mais escravos do que livres

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Tendo tido contato com um texto durante estes dias, o qual faz uma análise da realidade atual no que se refere aos comportamentos, relacionamentos e o pensamento das pessoas na atualidade, pensei em compartilhar com você amigo(a) leitor(a), tais ideias.

O texto é um comentário do pensamento do filósofo e sociólogo polonês, Zygmunt Bauman (*1925). Em várias obras, Bauman vem analisando a mudança não só de mentalidade, mas a mudança de uma época que forma esta mentalidade, referindo-se em seus livros que estamos vivendo em um período que se pode chamar de “modernidade líquida”.

Sua constatação se dá na observação que atualmente estruturas, valores, estilos de vida, convicções não estão mantendo suas formas por muito tempo. Pelo contrário, cada dia que passa, as estruturas, os pensamentos, os quadros de referência que se tinha estão mudando. Aquilo que antes se tinha como certo, como seguro, como ponto de segurança, hoje já não é mais, é questionável, é incerto. Segundo ele, a certeza hoje está na mudança.

Por isso, assim como o líquido, que ao contrário do sólido se molda ao ambiente em que está, que toma formas diferentes, assim também a modernidade atual faz as pessoas não terem uma solidez nos seu valores, nos seus comportamentos, pois aquilo que penso ou faço hoje, pode amanhã ser mudado; os valores que mantenho hoje podem amanhã serem contrários, dependendo dos interesses ou das necessidades que me forem apresentadas.

Segundo Bauman, o comportamento atual caracterizado pela fragilidade dos laços humanos, com dificuldade de gerar laços duradouros; a crise de identidade nas pessoas não sabendo quem são e o que serão; o pensamento desordenado; as várias ocupações de trabalho; a busca desesperada em conquistar um lugar de destaque; e com tudo isso, a doença da depressão, da falta do sentido da vida, da sensação de inferioridade é tudo fruto da mentalidade de consumo que hoje domina.

Para o autor, a mentalidade capitalista fez com que o ser humano fosse “coisificado”, ou seja, se tornou também um objeto de consumo diante da mentalidade frenética de ser valorizado por aquilo que se tem e aquilo que se demonstra ser. Quanto mais coisas uma pessoa tem, quanto mais visível ela poder estar na sociedade, mais valor é dado a ela. Nós humanos acabamos nos tornando “produtos” do sistema dentro desta ideia, pois somos valorizados pela sociedade não por aquilo que somos como pessoa, mas por aquilo que temos e que aparentamos.

A isso se explica grande parte de nossas ansiedades, desejos, tristezas, pois queremos acompanhar o que a sociedade dita como regra de valorização. Queremos fazer tudo o que é possível para estar em evidência, para adquirir coisas e sermos assim, valorizados pela sociedade. Não estar em evidência para o pensamento atual é como se você não existisse para a sociedade.

Achamos que somos livres, quando na verdade estamos sendo escravos do consumismo, da exigência dos holofotes, estamos sendo manipulados pela mentalidade do consumo. Bauman diz que o incentivo ao consumo tira a capacidade das pessoas refletirem, é estratégia para o ser humano não fazer o uso livre da razão. Influenciados tratamos também as pessoas como mercadoria; possuem valor até quando satisfazem nossos desejos e expectativas, depois as descartamos, as eliminamos, as deletamos.

Podemos ser mais felizes e mais livres não entrando na onda da mentalidade vigente, valorizemos as pessoas da forma como são. Não nos sintamos inferiores se não correspondemos à mentalidade de mercado. Busquemos crescer mas, sejamos nós mesmos, assim teremos uma melhor qualidade de vida.

Referência:
Revista Vida Pastoral. Março-Abril; Ano 56. Nº 302. p. 03.

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