(Acervo Casa da Memória)

As transmissões dos jogos olímpicos instigam muita gente à prática esportiva. Alguns até continuam, desenvolvem disciplina e uns poucos até se destacam em seus esportes. A medalha merecidamente ganha pela “fadinha” já teve reflexo no comércio de skates, que cresceu 600% nos últimos dias. São Mateus também deve ser influenciado e certamente veremos novos skatistas em nossas ruas. Mas a cidade já tem atletas se destacando em outros esportes, como já foi divulgado aqui no GI. No entanto, o texto de hoje não é dos atletas atuais e talvez nem seja sobre atletas, mas é sobre nado livre.

O ano de 1983 nunca será esquecido pelos são-mateuenses. A grande enchente do Rio Iguaçu castigou muito a região e causou enormes transtornos para a população. Quem morava nas vilas atingidas, como a Vila Amaral, a Usina Velha, Raia e outras localidades teve que se abrigar na parte alta. Não sei dizer por quanto tempo, mas foram semanas com as casas submersas naquilo que mais parecia um mar de tanta água. E chovia, ah como chovia naquele mês!

Num primeiro momento quase todos duvidavam de uma grande enchente, afinal, todo ano o Iguaçu saia de seu leito e alagava os gramados e isso era normal. Mas os dias passaram e o nível só foi subindo, até que tivemos que sair, fugir para a parte alta. Minha família se abrigou junto com outra família de vizinhos, numa casa na esquina da rua Guilherme Kantor com a rua Theodoro Toppel. A residência pertencia à família Portes que nos socorreu naquele momento complicado.

Penso que um evento daquele se ocorresse nos tempos atuais, seria mais fácil de suportar, porque a comunicação atual é muito melhor e isso facilita demais a vida, até em momentos críticos como uma grande enchente. Mas tudo passou e terminou bem. E o que isso tem a ver com esporte e natação?

Era domingo, o nível da água havia parado de subir e as pessoas começavam a ficar mais animadas pois fazia um dia ensolarado finalmente! Na rua Theodoro Toppel, a água chegou até pelo menos metade da quadra entre a rua Guilherme Kantor e rua Augusto Tararan (nesta época essa rua não chegava até a Theodoro Toppel, mas serve como referência para localização). A ponte de madeira sobre o Rio Canos havia sido arrancada pelas águas, mas ainda estava presa de alguma forma e se destacava naquele lago gigante que se tornaram as margens do Rio Canoas. Da terra seca na rua Theodoro Toppel até a ponte flutuando devia ser uma distância de aproximadamente uns 200 metros.

Lá pelas 15h, o número de pessoas aglomeradas por ali para olhar a enchente era grande e aquele local também havia se tornado ponto de saída e chegada de embarcações que entravam na enchente pelos mais diversos motivos. Alguns iam colher laranjas nas árvores que restaram com as copas fora d’água, outros faziam vistoria em suas casas alagadas porque infelizmente haviam pessoas se aproveitando para roubar os objetos que não puderam ser removidos da enchente na mudança. A polícia militar teve muito trabalho naquela enchente!

Com a aglomeração de tanta gente naquela beira d’água, não demorou para alguém falar em nadar no alagado. Uma loucura, pois, estávamos no mês de junho e, mesmo desconsiderando toda a contaminação daquela água, o frio já deveria repelir qualquer ideia de natação ali. Mas, “onde se junta meia dúzia de piás, o diabo se retira de medo”. Um desafio aqui, outro ali e de repente havia 3 “corajosos” já só de calção entrando na água com o objetivo de nadar até a estrutura da ponte que resistia à correnteza.

A plateia se dividiu. Alguns gritavam para chamar a polícia, outros incentivavam e assim se foram os nadadores. A distância era longa e o nado que começou frenético foi ficando lento à medida que havia mais correnteza e cansaço. Chegaram quase juntos à ponte e subiram nas madeiras flutuantes. Nós que assistíamos ficamos espantados ao ver que todos mergulharam de volta e nadavam com mais vontade ainda. De fato, eram bons os meninos! Mas havia algo de errado pois na ida foram em silêncio e agora nadavam gritando.

Um homem que assistia aquilo resolveu pegar um dos barcos que estava sem cadeado ali e remou ao encontro dos meninos. Talvez isso tenha sido a salvação para pelo menos um deles, que a essa altura já não estava conseguindo nadar. O barco se aproximou e todos embarcaram. Chegando em terra, precisaram de alguns minutos para recuperar o fôlego antes de contar o ocorrido.

Ao chegarem na ponte, que era basicamente construída com pranchões de madeira de aproximadamente 10 x 3 polegadas, encontram diversas cobras que usavam a estrutura para se abrigar. Por isso, como atletas olímpicos, apenas bateram na borda e inverteram o sentido. Com a certeza de que alguma daquelas cobras também havia se jogado na água para lhes morder os garrões! Certamente quebraram algum recorde na volta!

Luís Ferraz
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