Foto: Acervo Casa da Memória

Uma festa de casamento… música, dança, fogueira, alegria… talvez a noite fosse de lua cheia como convém a tradição destes rituais de matrimônio. Enfim, o fato é que seguindo os costumes, um certo grupo de ciganos que por aqui passou, há muito tempo atrás, se preparou para um acontecimento especial dentro da sua cultura. Uma cerimônia cheia de simbologia, que podia durar de três dias até uma semana e que acabou tragicamente…

A expressão “post-mortem”, vem do latim e significa após a morte. A arte de fotografar pessoas mortas era muito comum no século XIX e servia principalmente para lembrar dos entes queridos, pois naquele período, nem todas as pessoas vivas tinham acesso a uma imagem fotográfica. Também era utilizada a foto de uma pessoa morta, como registro policial, investigação criminal ou fonte de imagens para jornais e revistas. A maioria dos retratos “post-mortem”, eram feitos em crianças. Era comum que eles fossem retratados com algum objeto que sentiram apego durante a vida, no caso de crianças, um brinquedo favorito, e em adultos, um livro, ou outro objeto pessoal. Os adultos, apareciam mais frequentemente dentro de caixões, mas também podiam ser fotografados em camas ou cadeiras.

Essa foto foi feita por volta de 1910 na Colônia Cachoeira em São Mateus do Sul. A documentação sobre ciganos é escassa e relatar informações sobre esse povo é um desafio. Os ciganos que viveram em épocas passadas não deixaram registros escritos o que ajudaria muito a entender sua cultura e seu modo de viver. Raramente aparecendo nos documentos, os historiadores aproximam-se dessas informações históricas indiretamente, através de mediadores, chefes de polícia, padres e viajantes, por exemplo. Nestes testemunhos, muitas vezes a informação sobre os ciganos é dada por intermédio de um olhar muitas vezes hostil e até preconceituoso.

No caso dessa fotografia, o tema é o registro de um crime que ocorreu durante uma festa de casamento. O grupo acampou em nosso município e decidiu realizar a cerimônia. Encontramos a menção dessa história na forma da tradição oral o que nos causa uma incerteza em relação às informações. Muito curiosa, chamando a atenção dos visitantes da Casa da memória Padre Bauer, essa fotografia fica exposta em uma das paredes e apresenta oito homens ciganos mortos dentro de caixões. Os oito corpos estão inclinados para a frente apoiados por oito homens vivos, numa pose de preparação para a foto. As informações através do relato oral, constam junto da fotografia. A fotografia é externa e só aparecem homens. Alguns deles estão vestidos com farda policial. Infelizmente a qualidade da fotografia não é das melhores o que dificulta a análise.

Para os ciganos, no entanto, o casamento é uma das instituições mais sagradas, e seus costumes e tradições são mantidos há séculos. Vários são os detalhes que atravessaram o tempo na tradição de um casamento cigano. Entre tantos detalhes, os trajes por exemplo, são especialmente trabalhados e coloridos. O vestido da noiva então deve ser o mais vistoso! Deve fugir totalmente do convencional e ser surpreendente, com cor intensa e simbólica, cheio de personalidade.

Se o vestido da noiva desse casamento ocorrido na Colônia cachoeira era vermelho e vistoso, nós não sabemos…, mas foi por conta de uma peça de roupa de uma das mulheres ciganas que teve início a tragédia. “Reza” a história que uma mulher cigana caçoou do casaco mal feito de outra cigana. Os maridos entraram na discussão em defesa de suas mulheres. Logo, todo acampamento se envolveu na briga resultando em muitos feridos e nos mortos que foram fotografados como registro do acontecimento. A morte é o maior mistério experimentado pelo homem, a causa maior da angústia e, ao mesmo tempo, aquilo que também impulsiona a vida enquanto ela existe. “Inventamos formas de os mortos continuarem entre a gente. É uma certa ilusão, de alguma forma necessária para nós. É uma maneira de mantermos algum tipo de relação com aquilo que desapareceu. Passamos a vida tentando salvar as coisas do esquecimento. Por isso, fazemos imagens”, – Carolina Junqueira dos Santos.

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