Perfil

Uflavio Lopes: correndo rumo à vitalidade

Algumas das medalhas que Uflavio Lopes coleciona e o troféu da última competição em que foi campeão. (Fotos: Cláudia Burdzinski/Gazeta Informativa)

Quando o assunto é superação e força de vontade, Uflavio Lopes se torna um exemplo para todos nós. Na edição de perfil dessa semana, venha com a Gazeta Informativa descobrir um pouco sobre a história desse atleta que busca ensinar em sua rotina o amor pleno pela vida.

Natural de Fortaleza – Ceará, Uflavio foi embora com 7 anos para Santos – São Paulo, onde passou toda sua adolescência. Vindo de uma família muito humilde, o corredor passou por muitas dificuldades, que acabaram moldurando a sua valorização como pessoa.

Rotina de treino que fazem com que Uflavio seja referência em vitalidade aos 65 anos.

Os obstáculos percorridos por Uflavio não foram apenas os obstáculos visíveis em uma maratona, mas sim o esforço para manter o caráter e a dignidade como ser humano em meio aos contratempos que uma vida difícil pode oferecer. Um adolescente sem esperança, vivendo em uma cidade grande, é muitas vezes motivo para desistir de tudo e entregar-se para uma vida marginalizada.

“Um dia encontrei um amigo de infância e ele me disse ‘tu não tem estudo, não vai conseguir um emprego, vamos na favela trabalhar com os traficantes’, e eu fui até o pé do morro para subir e entrar nessa vida, mas quando cheguei lá paralisei, e começou a passar um filme pela minha cabeça, eu nunca bebi, nunca fumei, não vou me entregar desse jeito, então resolvi dar um tempo para pensar”, e assim, voltando para beira da praia (lugar que gostava de frequentar quando precisava de tranquilidade) em Santos, Uflavio é intensificado para continuar na vida justa.

Corria na areia da praia para esquecer os problemas que a vida cotidiana oferecia, e essa sua rotina foi vista pelo seu primeiro treinador, que fez o convite para o profissionalismo nessa área. “Ele perguntou se eu queria ser atleta, me convidou para um teste, eu não tinha tênis nem nada, e ele me patrocinou com tudo. Assim, acabei me tornando atleta do Clube Vasco da Gama em Santos”, dessa forma, seu principal impulsionador reavivou o jovem desmotivado.

Por adversidades em sua vida pessoal, o jovem acabou se tornando morador de rua, e seu treinador acabou repassando um dos principais conselhos que Uflavio segue até hoje. “Lembro dele me dizendo ‘você nunca peça nada para ninguém, procure trabalhar para conseguir’, e assim eu fui, trabalhei de ajudante de padeiro em troca de uma marmita, eu pedia em bares e restaurantes para ajudar a lavar louça ou um banheiro em troca de comida”.

Se estabilizando dessa forma, Uflavio começou então a trilhar o seu caminho como atleta profissional. Fazendo parte da equipe de atletismo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), lá acabou se interessando pela profissão que fez com que ele chegasse até São Mateus do Sul. “Em um dia no treino, vi um homem lidando com um foguinho lá no fundo, perguntei para o meu treinador o que era e ele disse que era um homem soldando. Falei para ele que queria entrar naquele curso, e pedi para ele me matricular”, começou então trabalhar na área de solda pela Petrobras, migrando para várias cidades, mas nunca deixando de lado o seu amor pela corrida.

Treino realizado toda semana no Ginásio de Esportes Polacão.

Chegando em São Mateus do Sul em 1987, acaba se adaptando com o frio, com a cidade e com a vida de tranquilidade, e assim, após a aposentadoria, se dedica no ensinamento do esporte para os são-mateuenses.

Acordando todos os dias as cinco horas da manhã, com uma alimentação regrada, passa o dia todo treinando voluntariamente alguns são-mateuenses no Ginásio de Esportes Olívio Wolff do Amaral (Polacão). Corre em média 100 km por semana, e acumula medalhas de inúmeras competições de maratonas com modalidades diferentes, tirando os primeiros lugares na grande maioria.

O trabalho voluntário de treino é reconhecido com grande carinho e gratidão por seus alunos, que levam a vida de Uflavio como exemplo de determinação. “Ele é uma inspiração, só temos que valorizar, ele faz muita coisa pela gente, somos gratos demais por ele”, dizem Guilherme Weber e Moizés Rubian Demenchucki, seus alunos. Mesmo com as dificuldades presentes no ambiente de treino, pela falta de equipamentos específicos para a modalidade, Uflavio jamais desistiu de ensinar o que aprendeu para as pessoas, e por trás de uma vida nada sedentária, possui um grande reconhecimento social, pois dessa forma, incentiva os jovens para a vida do bem e da educação.

Sonha em formar atletas profissionais em São Mateus do Sul (mesmo com todas as dificuldades de aparatos esportivos), sonha com a vitória de pessoas que chegam até ele em busca da mudança de vida, sonha em transformar como hábito a prática esportiva e sonha cada vez mais por um mundo melhor. “O ser humano ele pode ter 100 anos, mas ele precisa sonhar. Se ele não sonha, ele acaba com ele mesmo. Eu sonho até hoje”, encerra.

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