(Imagem Ilustrativa)

Não sou poeta, nem cantador como Caymmi, Ary Barroso, Vinícius de Moraes, João Gilberto e tantos outros. Também não conseguiria descrever o valor, os costumes e bondade daquela gente como fazia Jorge Amado. Talvez minha homenagem seja menor, mas o que sinto não cabe em meu peito e o jeito é colocar para fora um pouco desse sentimento, da minha gratidão àquela gente morena.

Não conheço toda a Bahia, mas em Salvador e seguindo um trecho da Linha Verde encontrei muita simpatia e sorriso no rosto. Talvez seja o vento que sopra nos coqueirais ou o sol que bronzeia a pele que impregnem um pouco desses sentimentos partilhados pelos baianos.

É incrível como esta gente consegue valorizar o que a terra e o mar lhe oferecem, transformando tudo em gostosuras, doçura e alegria.

Quando vou para lá, ainda no trajeto fico tentando relembrar o gosto do bolinho de acarajé. Comer a bola de fogo (na língua dos Iorubás) é sensacional. É impossível não o experimentar com um pouquinho de pimenta (será que é daí que vem o fogo do nome?). Como dizia uma das baianas que me serviram um: “acarajé sem pimenta é como Coca-Cola sem gás!” Acarajé sem pimenta, faltou essa citação na canção interpretada por Claudinho e Bochecha.

Quando o experimento, saído da frigideira, acompanhado do vatapá, do caruru e para arrematar os camarões secos e o vinagrete, sou transportado ao continente de origem da humanidade, de onde esse povo veio e misturou suas tradições aos costumes portugueses criando uma culinária incrível. Você sabe o que é, depois de se deliciar de alguns acarajés, degustar uma esplendorosa moqueca de frutos do mar? O prato herdado dessa mistura luso-angolana é sensacional. Acompanhado de um pirão e de uma falofa (o termo em quimbundo é a origem da nossa farofa), melhor ainda!

Em todos esses pratos, o azeite de dendê, também de planta com origem africana, o dendezeiro, é que dá o toque especial. Não sei como tudo veio parar aqui, mas o quiabo também foi trazido da África para a América.

Está com água na boca? Pois então vou provocar um pouco mais. Que tal para sobremesa uma cocada quebra-queixo? É, no tabuleiro da baiana também tem. Ah! Você prefere um outro doce? Que tal um mungunzá? Pois é, o mungunzá é bem parecido, talvez tenha a mesma origem da nossa canjica.

Essa ligação da Bahia com alguns povos africanos não começou no Século XVII com a política escravagista dos colonizadores portugueses não! Busque um mapa da Pangéia, quando todos os continentes formavam um único bloco. Veja quem eram os vizinhos do que hoje é o Brasil, aproxime mais sua lente e observe quem eram os vizinhos dos baianos e dos mineiros, por exemplo.

Sim, somos predestinados a viver juntos, o que não é nada difícil. O desafio é ficar tanto tempo longe dessa terra, de grandes belezas e insuperáveis sabores. Sabores esses feitos de ingredientes simples, mas que são transformados para homenagear os deuses. Se os agrada, imaginem os simples mortais como nós.

Depois de toda essa comilança, beber uma água de coco, ou uma cachaça, se você preferir, e aí, numa rede, dormir nos braços morenos da lua que não é só de Itapuã, mas do céu de toda a Bahia, onde igual no mundo não há. Boas lembranças!

Adnelson Borges de Campos
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