Embora o relevo de “Samas” não seja exageradamente acidentado, temos nossos morros e colinas e todos sabem que na região urbana o ponto mais alto é onde está a “cuia”, que é nosso reservatório de água tratada. Outra característica natural da cidade é inverno com chuvas prolongadas, acho que acontece em anos em que ocorre o evento El Niño. Aquelas garoas geladas que fazem doer os ossos. Depois de uma semana sem ver o Sol, com a umidade tomando conta de tudo e o cheiro de mofo dominando o ambiente, é vem o mau humor!

Foi num inverno assim que tive esse dia “especial”. Era primeira segunda de junho e já fazia uns 10 dias que o astro rei não dava as caras. O fogão era um acalento, mas a lenha úmida fazia mais fumaça do que queimava e ainda assim, íamos nos defendendo das intempéries do inverno de “Samas City”. Pulei cedo da cama. Era véspera de dia dos namorados e eu trabalhava na única floricultura da cidade e era responsável pelas entregas. Decididamente entregar flores é uma atividade perigosa! Na rua D. Pedro II, fui mordido por um Pastor Alemão ao entregar flores para uma senhora, que me garantiu que podia entrar que o cão era manso. Em outra ocasião, troquei os nomes das esposas de dois médicos da cidade e entreguei os cartões trocados. Minha sorte é que as senhoras se conheciam e acharam engraçado aquilo. Nessa época, ganhei do saudoso Sr. Kaminski, que era meu professor, o apelido de “Flori”.

As entregas iam bem, mas aquela garoa abençoada já tinha encharcado a roupa e o frio incomodava demais. No final da tarde, com apenas mais dois clientes a atender, acelerava o passo. Teria uma entrega na rua Dr. Paulo Fortes e não dava pra ir de bicicleta porque era impraticável pois estava fazendo a base para o asfaltamento no trecho do endereço da entrega. Eram 18 rosas vermelhas. Lembro que pensei no quanto o “romeu” teria acertado na escolha pois certamente a moça iria gostar. Folhas de acácia completavam o ramalhete que era envolvido em celofane e arrematados com um laço também vermelho.

No lado da rua em que eu trafegava praticamente não havia calçada. Apenas aquela lama grudenta da argila removida das camadas que recebiam pedras para infraestrutura do pavimento asfáltico. Decidi atravessar ali, pois parecia que o outro lado estava melhor. Saltei para a rua e percebi o erro! O solo recém cortado estava muito liso, resbaloso, como dizem os chilenos. Meus dois pés escorregaram e eu fui de costas na lama. Só lembrei de salvar as flores pois sabia que não poderia pagar aquele arranjo. Como todos que caem, minha primeira reação foi ver se haviam testemunhas. E haviam 3 meninos que observavam a chuva e as obras de uma varanda que assistiram o pialo e morriam de rir. O que fazer? Segui para o endereço e fiz a entrega. Ao virar as costas para ir embora ouvi um “meus Deus, o moço caiu na alma!”.

Depois de perder um tempão indo em casa tomar banho e trocar de roupa, voltei para a última entrega. Pelo menos essa era na rua 21 de setembro, lá perto da rua Manuel Furtado Neves, não haviam obras no pavimento e até a chuva deu uma trégua. Finalmente estava tudo certo, era só encerrar o expediente. Tudo certo com a entrega, desta vez um buquê com 11 rosas. Segundo o remetente, a 12ª era a mulher amada!

Na volta, deixei a bicicleta acelerar na descida, queria chegar logo. Mas não era o meu dia! Numa pedalada forte, ali na esquina com a rua Eduardo Sprada, a corrente caiu e o freio era no pedal! Virei passageiro da agonia! Quase em frente ao supermercado 70 havia uma lombada e custou manter o equilíbrio ao passar por ela. A maldita bicicleta acelerava como se não houvesse amanhã!

Passei pelas esquinas com as ruas Dr. Paulo Fortes e R. Tenente Max Wolf Filho sem problemas, mas a probabilidade de me esborrachar contra um carro na avenida Ozy era grande. Precisava frear a magrela antes de chegar. A tentativa de colocar o pé no pneu quase causou um tombo. Decidi então direcionar a magrela para a praça da igreja.

Atravessei o gramado atrás da Casa da Memória e segui até bater numa vegetação que existia atrás da estátua de São José. A roda da frente prendeu na trama de galhos e eu fui projetado por cima, vindo a cair aos pés de umas senhoras que admiravam o santo. Uma delas ficou muito brava, mas as outras tentaram me ajudar. Saí dali com uma única intenção. Ir para casa e ficar bem quietinho, porque o dia estava muito estranho!

Luís Ferraz
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