A Família, da esquerda para a direita Marcos Paulo, Dona Maria Izabel, Cornelinho (em memória),
Rogélio e, sentado, Cornélio (em memória). (Fotos: Acervo Pessoal)

Dizem que nada nessa vida é por acaso, nós é que não conseguimos entender os motivos, mas volta e meia a vida nos dá um sinal.

Assim, nessa pequena história que dedico aos pais neste dia 8 de agosto e, em especial, o meu, Cornélio, que muitos conheceram e que, dentre tantas boas ações que fez em vida, o destino se encarregou de realizar mais uma agora, e tenho a certeza de que de onde estiver nos guardando, está dando um belo sorriso por essa história.

Sua história de luta e perseverança iniciou em 2008, com um simples ato de cortar as unhas, e quem diria que um corte a mais no dedinho do pé, fazendo um pequeno ferimento – pequenino mesmo – em 15 dias resultaria no triste ato de amputar parte de sua perna. Cornélio era portador do chamado Mal do Século, o Diabetes. Era uma decisão difícil e imediata, pois as inimagináveis dores que nem a morfina conseguia conter, além do sofrimento, poderiam levá-lo à morte.

Lembro-me bem do seu desespero, seguido do choro, mas aceitou e nos disse que se fosse a vontade de Deus, sairia vivo da cirurgia. Te dei um beijo, um abraço e fiz o sinal da cruz em sua testa, quando te falei: pai, como o médico falou, você tem forças para colocar uma prótese e voltar a andar. Não medirei esforços para esta conquista. Assim, antes de completar 40 dias após a cirurgia, lá estava o senhor indo três vezes para Curitiba, fazer fisioterapia para receber sua prótese. Meu pai, o meu super herói, estava andando novamente, e os médicos e profissionais envolvidos na sua reabilitação disseram que nunca haviam visto uma pessoa com a sua idade se recuperar tão rápido assim.

E meu querido pai estava aprendendo a andar pela segunda vez na vida.

Passaram-se os anos, com aquele seu xodó, seu Corcel 1977 adaptado, que fizemos virar automático para ele poder novamente passear e mostrar aos outros que ele estava ali, forte e nunca derrubado pelos problemas de saúde.

Mas o destino se fez presente novamente e, numa noite fria, com a outra perna tendo dificuldades de circulação, resolveu colocar uma simples bolsa de água quente para aliviar e, com a pouca sensibilidade que o diabetes dá, não sentiu que de uma queimadura, surgiu uma bolha no pé. Desse ferimento, resultou que em apenas 10 dias, acontecia a triste amputação da outra perna. Desta feita não foi fácil aceitar a situação, apesar de todo apoio da família. Foi a visita do amigo e irmão, o saudoso padre Silvano, que saiu de São Mateus até Curitiba em pleno domingo e, depois de uma conversa de 15 minutos a sós, ele chamou a família e disse: “Estou pronto para a cirurgia, Deus sabe o que faz”. Nunca saberemos o que conversaram.

Novamente, entre choro e abraço lhe falei que, caso seja a vontade dele, não medirei esforços para que volte a andar. E nem é preciso dizer que em 40 dias ele já andava com as duas próteses.

Pela terceira vez, meu amado pai estava aprendendo a andar.

Nosso herói, exemplo de perseverança, resiliência e com tantas outras qualidades nos deixou em novembro de 2019, mas o motivo dessa homenagem continua com a participação dele.

Há pouco tempo, eu estava aguardando a vez de ser atendido no lado de fora do cartório, na Rua Tenente Max Wolf Filho, quando vi um menino jovem vindo pela calçada em direção ao cartório. Ele andava com muletas, tendo uma perna amputada. Toda a história do meu pai se passou em segundos, principalmente da sua primeira amputação, achando que não andaria mais. Esse rapaz passou ao meu lado, cumprimentou com um aceno de cabeça e pude ver em sua camisa a logo do Mercado Móveis, foi neste momento fiquei com a ideia de conhecer um pouco mais a história desse rapaz. Liguei na loja e falei com o gerente Vagner Gritten, que me contou que ele havia amputado a perna ainda garoto e que tinha dificuldades com a prótese simples que possuía, pois havia machucado a perna. Comentei com o Vagner para conversar com o rapaz e averiguar se havia interesse em ganhar uma prótese que fora do meu pai um dia, para que ele voltasse a andar. Resultado foi que no mesmo dia eu estava conversando pessoalmente com o Alan.

Em nossa conversa, soube da sua história e dificuldades com a prótese atual, que havia também dificuldades financeiras para melhor adaptar a sua prótese. Eu o convenci a ir até a clínica em que meu pai aprendera a andar duas vezes, e para que não se preocupasse com o valor para custear, que se daria um jeito. Na semana seguinte, foi consultar, refez e ajustou a prótese e pude ver um vídeo dele caminhando sem muletas. Eu pude lembrar do meu vencedor, Cornélio.

Jovem Alan com a nova prótese. (Foto da esquerda);
As duas próteses que estão sendo doadas. (Foto da direita).

Alan perdeu sua perna com 12 anos, mas desde bebê um problema no pé o acompanhava e dificultava o seu caminhar. Diversos tratamentos foram tentados, mas chegou o momento em que a dolorosa decisão foi tomada pela equipe do Hospital Pequeno Príncipe. Ainda enfrentou outra batalha, pois após a cirurgia ficou mais de 60 dias internado por conta de uma infecção hospitalar, sem saber se conseguiria sair. Fechou-se para o mundo, não ia mais para a escola e sempre se perguntava o motivo de ficar sem sua perna. A prótese simples, sem articulação, ainda faltava partes para sua adaptação e, entre rifas e bingos, procuravam juntar recursos para tal. Apesar de ter a prótese, só andava com apoio da muleta.

Pouco tempo depois de reiniciar os trabalhos de adaptação da prótese, foi orientado pela clínica de reabilitação que constatou que os problemas que ele tinha foram devido à falta de acompanhamento por profissionais habilitados na época. E, com sugestão da clínica, Alan pediu se poderia receber uma das próteses do meu pai. No mesmo instante, eu disse que sim e tenho certeza que de onde meu pai estiver estará cuidando e torcendo para que este jovem volte a andar, com a mesma segurança e confiança que ele tinha ao caminhar firme e sem muletas.

Novamente, fica aqui o meu desejo de um Feliz Dia dos Pais a todos. E, de coração, fico agradecido em poder fazer essa homenagem ao Cornélio, tendo a certeza de que está feliz em ter me iluminado no momento certo para encontrar um destino para suas próteses. Até vejo o seu sorriso com os esforços e façanhas do jovem Alan, de apenas 26 anos, da sua luta e história que será ainda mais vitoriosa.

Deixo aqui a oferta de dar um destino à outra prótese de meu pai, para que alguém possa utilizá-la também e me ajudar a cumprir essa outra parte que o destino reservou ao meu pai, ajudando mais alguém, fazendo-o sorrir ainda mais. Sabendo de alguém que possa precisar, peço que me procure no Posto Castrovel.

Por Carlos Rogélio de Castro

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