Na imagem, Manoel Azevedo da Silveira Netto.

Dentro da alternância que fazemos nesse espaço, hoje o assunto será poesia, mas vou ceder à tentação e misturar poesia com história, citando um poeta que visitou nossa cidade nos seus primórdios. Embarque comigo nessa viagem poética!

Eu não posso afirmar com certeza qual foi a primeira poesia feita em nossa cidade. Certamente, muito antes da colonização polonesa, alguns dos primeiros moradores já cultivavam a prática de escrever versos. Mas se eu tivesse que apostar qual foi a primeira poesia feita aqui que acabou sendo publicada em um jornal, eu diria que foi “Em Viagem”, do grande Silveira Netto (imagem desta coluna).

Manuel Azevedo da Silveira Netto é hoje reconhecido como um dos maiores representantes da poesia simbolista no Paraná, mas quando passou por São Mateus do Sul, em outubro de 1892, era um jovem que nem tinha completado seus 20 anos. Tinha a missão de registrar uma viagem pelo Rio Iguaçu para a Revista Azul e para o jornal do Club Curitybano, órgãos da imprensa da capital do estado. Viajavam com ele os amigos Maneco de Andrade e Philinto Braga, mas viajava também uma saudade imensa de sua noiva, grande musa de seus versos.

Aqui em nossas terras, Silveira Netto registrou que na colônia Água Branca havia “uma capelinha construída sobre pequeno morro, de onde se pode espraiar agradavelmente a vista ao redor”. Descreveu a região de Fluviópolis como sendo “poesia rústica, selvagem, a verdadeira poesia!”. Ficou impressionado com a natureza em São Mateus (“a fertilidade do solo, exuberando na mata frondosa onde o mate, o pródigo ouro verde paranaense, multiplicava-se folhudo e saboroso…”), mas também citou a miséria dos colonos, abrigados em “estreitíssimos pardieiros”. Dentro da lancha, numa das curvas do Iguaçu, Maneco de Andrade provocou Silveira Netto, lembrando a “musa” que havia ficado em Curitiba e instigando: “Atire teus pensamentos por essas matas e faça uma poesia!”. E foi assim que nasceu o soneto “Em Viagem”:

Da água fendendo a correnteza clara
caminha a lancha plácida e ligeira,
à margem triste e quedo se depara
o vulto solitário da palmeira.

Pinheiros, quase nus, vão como para
o termo oposto, andando de carreira,
e o salgueiro que os galhos debruçara
como sentindo a solidão inteira.

Paisagem morna e linda, quem não há de
sentir vibrarem suas fibras em
face dela. Por esta imensidade

sentimo-nos bem grandes… e também
grande se torna a sombra da saudade
de um ente amado que ficou além…

Silveira Netto encerrou a viagem no final de 1892, e já em janeiro de 1893 se casaria com a amada Emília de Alcântara. Mas voltaria outras duas vezes a visitar São Mateus, sendo a última em 1922, na inauguração do prédio da nossa prefeitura.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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