Histórias de Terra e Céu

Um rosto para uma rua da cidade

(Acervo Pessoal)

Saber que um texto nosso sobre a história da cidade foi lido nos Estados Unidos já seria um motivo para ficarmos felizes. Mas a surpresa ainda aumentou quando recebemos uma ligação daquele país, elogiando nosso trabalho e nos dando informações preciosas para a história local.

No ano passado a coluna Histórias de Terra e Céu da Gazeta Informativa publicou dois relatos sobre Altino Ferreira Lima, que dá nome a uma das ruas de São Mateus do Sul. Ali contávamos que Altino era um comerciante pernambucano, que se estabeleceu em São Mateus na primeira metade do século passado. Casado com Enedina Arzua, da Lapa, Altino tinha três filhos pequenos e era apaixonado por aviação. Fundou o aeroclube de São Mateus em junho de 1942, em parceria com Nino (João) Bettega e Veco (que realizou o primeiro pouso na cidade). Mas em 26 de março de 1943, Altino e Bettega faziam um voo sobre a cidade, quando Bettega resolveu “dar um susto” nos cavalos dos poloneses que estavam em frente à velha capela de madeira, mas a manobra deu errado, e o avião caiu, matando os dois ocupantes.

A tragédia comoveu a cidade. O corpo de Altino foi enterrado no cemitério municipal, e o túmulo azul conserva até hoje uma saliência no formato de um avião. A esposa de Altino foi embora de São Mateus, levando os pequenos Heraldo, Vera e Adalgisa. A família nem ficou sabendo que, anos depois, a Câmara de Vereadores colocou o nome dos dois pilotos nas ruas paralelas à Ulisses Faria.

Ao registrarmos estas histórias, foi impossível não nos perguntarmos como a família de Altino lidou com a morte do pai. O filho mais velho tinha apenas 10 anos… Será que a família conseguiu superar a tragédia e tocar sua vida? E outro questionamento: como era Altino? Não havia uma foto que mostrasse a face do homem que foi protagonista daquele momento que chocou a cidade.

Mas estas dúvidas se encerraram com a ligação que recebemos nesta semana. Dona Elizabeth Middleton Slater, que foi casada com Heraldo, o filho de Altino, nos contou pacientemente como a família superou aquele momento e se encaminhou na vida. Heraldo também foi um apaixonado por aviões, trabalhou na embaixada americana e acabou indo para a América. Faleceu há algumas décadas e está enterrado no Rio de Janeiro. O restante da família segue em solo americano. As duas filhas de Altino (Vera e Adalgisa) gozam de boa saúde e também constituíram belas famílias. Dona Elizabeth, uma senhora de cerca de setenta anos, mas como uma jovialidade impressionante, também nos mandou fotos de Altino, Enedina e os filhos.

Agora temos um rosto para a rua Altino Ferreira de Lima (esse “de” no nome é um erro, pois não existe no nome original). Mas, o principal, sabemos que o homem que repousa no túmulo azul pode ter a tranquilidade de saber que suas crianças conseguiram encaminhar suas vidas, mesmo com toda a saudade que sempre sentiram do pai.

Foto do dia do Acidente que matou Altino e João Bettega.

Gerson Cesar Souza
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