Histórias de Terra e Céu

Uma cidade que amava o Cinema

Quem vê São Mateus do Sul sem salas de cinema atualmente, e seu povo se deslocando para outras cidades a fim de assistir filmes, talvez não imagine a relação de amor que nossa cidade teve com esta fantástica forma de lazer. Embarque comigo nesta história!

A primeira experiência de cinema em São Mateus do Sul ocorreu já nos primeiros anos após a emancipação. O Clube Amantes da Prosperidade passou a sediar o “Cinema Paranaense” que, segundo relatos da época, fazia sucesso “exibindo excelentes filmes”. A paixão dos são-mateuenses era tanta que o clube ficou pequeno para tamanha plateia. Era preciso um espaço próprio. Foi assim que Bernardino Luiz Giublin, um dos chefões da navegação a vapor em São Mateus, uniu-se a João Casemiro Domanski (secretário da prefeitura e homem ativo no crescimento da cidade) e fundaram o “Brazil Cinema”.

A inauguração ocorreu no dia 27 de abril de 1913, às 13 horas. Autoridades municipais e estaduais compareceram à festa, que durou toda a tarde, terminando com uma grande sessão de filmes na parte da noite. O ambiente impressionou o representante do jornal A República, de Curitiba, que descreveu o “óptimo e vasto salão, na parte superior do prédio” e o “botequim bem montado sob a direção do illustre moço Agenor do Nascimento”.
Mas já no final do primeiro ano o cinema enfrentaria uma situação crítica. A seca no Iguaçu reduziu o movimento de vapores e, com isso, a receita da população caiu drasticamente. Somava-se a isso a dificuldade de trazer novos filmes. Era preciso se reinventar, e os sócios souberam fazer isso: o local passou a ser usado também para bailes e apresentações de operetas e de companhias de teatro. Em 1916 a companhia espanhola Zarzuelas y Variedades, do grande Pepe Otero, fez apresentações no Brazil Cinema, trazendo para São Mateus até mesmo público de Curitiba.

Alternando filmes de comédia e terror (numa época de cinema mudo) com espetáculos teatrais e apresentações musicais, o Cinema virou o grande ponto de encontro da cidade. Campanhas de arrecadação de recursos, como a que ocorreu para a construção da nova Igreja Matriz, também tinham o cinema como parceiro na solidariedade: ocorriam periodicamente sessões de filmes com toda a renda destinada a entidades da cidade! O cinema passou por vários administradores (Nadolny, Bisinelli, Toporowicz, Magnani etc…), e seu antigo prédio hoje abriga o restaurante Coliseum.

A foto que ilustra esta coluna é muito interessante. Nela são vistos vários cavalos “estacionados”. Onde estão seus donos? A plaqueta ao lado dos cavalos, anunciando a exibição de “Mãos de Orlac” (filme de terror de 1924) responde à pergunta: os cavaleiros estão dentro do cinema! O tal filme tratava de um pianista que perdia as mãos em um acidente e recebia por transplantes as mãos de um assassino, sendo atormentado por elas e sofrendo com saudades das mãos artistas. Talvez uma profecia sobre uma cidade que amava o cinema, mas que perderia o espaço deste importante lazer ao longo do tempo.

Até a próxima semana e céus limpos para todos nós!

Gerson Cesar Souza
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