(Imagem Ilustrativa)

Em 14 de maio de 1796, o médico Edward Jenner realizou o experimento que deu origem à primeira vacina. O objetivo era confirmar suas observações de que as mulheres que trabalhavam na ordenha de vacas e contraíam a varíola bovina, se tornavam resistentes à varíola humana. Embora o contágio pela varíola bovina fosse comum entre as pessoas que lidavam com animais doentes, no ser humano os efeitos eram moderados e não levavam à morte. O experimento planejado por Jenner consistiu em extrair fluído das feridas de uma mulher que tinha contraído a varíola bovina e inocular no braço de um menino, que serviu de cobaia para o médico.

Alguns dias depois, o líquido extraído da ferida de uma pessoa doente de varíola humana também foi introduzido no braço do menino. Como esperava o médico, o menino não desenvolveu a doença. Estava criada a primeira vacina!

O nome em latim para essa doença era Variolae Vaccinae, daí a origem do termo “vacina”. A doença matava até 30% das pessoas que a contraíam e de tão letal era temida como arma biológica. Infectar um exército inimigo com varíola era certeza de grande número de baixas. Apesar de ser realizado em condições absurdas com o uso de criança como cobaia e depois da inoculação de braço em braço pois não havia como armazenar a “vacina”, Edward abriu caminho para as imunizações antes mesmo da humanidade saber da existência dos vírus, o que só ocorreu 96 anos depois, quando russos descobriram que existiam esses agentes infecciosos tão pequenos.

Era perfeitamente aceitável a repulsa à vacinação naquela época. Estender o braço para que um médico introduzisse nele resíduo da ferida de varíola de outra pessoa era realmente nojento, não resta dúvida, mas hoje, com toda a tecnologia, protocolos sanitários e conhecimento refinado do processo de vacinação, o que justifica o movimento antivacina?

Na minha infância conheci algumas crianças que haviam contraído outra doença, tão temida quanto a varíola. A paralisia infantil, nome popular para a poliomielite, doença contagiosa causada por um vírus que vive nos intestinos e que se transmitia facilmente entre crianças naquela época. A doença causava terror entre os pais. Contrair a “pólio” era sinônimo de grandes dificuldades para o resto da vida daquela criança, que passava a depender de próteses para ter um mínimo de autossuficiência. Dependendo dos órgãos atingidos pela doença a criança estaria condenada a passar o resto da vida em uma cama ou até mesmo depender de máquinas para respirar.

A vacina Sabin, distribuída mundialmente numa campanha no final dos anos 1980 encerrou esse período terrível e a doença foi erradicada. Nosso país não registra caso de poliomielite há mais de 30 anos. No entanto, a baixa taxa de vacinação atingida nos últimos anos trouxe o risco do ressurgimento da “pólio” no Brasil. Em parte pelo relaxamento natural de uma geração que não conviveu com a doença, em parte devido ao efeito da estupidez de grupos antivacinas que propagam teorias conspiratórias dignas de roteiros de filmes baratos, atribuindo às vacinas coisas absurdas como controle da mente, inserção de “chip comunista” e outras bobagens. Atualmente, alunos do ensino fundamental precisam recorrer a figuras em livros ou sites para verem a imagem de um caso de poliomielite. Nos anos 1980 provavelmente teriam uma criança com a doença em sua escola.

Outra doença infecciosa perigosa que está ressurgindo com grande intensidade em alguns países, entre eles o Brasil, é o sarampo. Foram mais de 600 casos no primeiro semestre de 2021. É importante lembrar que na década de 1990, o sarampo matava 2 milhões de crianças por ano no mundo. Já a Rubéola, não aparece por aqui desde 2009, ou seja, mais de uma década sem a doença, o que não significa que podemos dispensar a vacina pois Argentina e Chile, aqui ao lado, registraram casos da doença recentemente, indicando que o vírus está em circulação na américa latina.

Nossos bons resultados no controle dessas doenças no passado se devem justamente às excelentes campanhas de vacinação. Então o que justifica um país que já foi referência em campanhas de vacinação estar passando hoje por essa situação esdrúxula de negação das vacinas, beirando ao obscurantismo? Como podem os pais privarem seus filhos de vacinas achando que com isso estão protegendo as crianças? A resposta é complexa, mas sem dúvida o fanatismo político e religioso é parte da explicação. Outro fator importante é a dificuldade de parte da população em entender conceitos estatísticos e também da falta de hábito de ouvir mais de uma opinião ou consultar mais de uma fonte antes de se posicionar sobre um tema. A estatística básica é útil para que a pessoa entenda que se existem 2 mil médicos de diferentes países afirmando algo, baseados em diferentes evidências, e apenas 10 ou 20 contrariando baseados em uma única evidência, as chances do grupo menor estar certo é quase nula.

Desconfiar é prudente e não há problema que, mesmo que existam centenas de evidências indicando uma direção, quando surge opinião contrária ela seja ouvida, mas sempre sem paixões. Um dos fatores de maior influência no crescimento dessa doença social chamada “movimento antivacinas” está ancorado justamente numa publicação de uma das mais conceituadas revistas científicas, a “The Lancet”. Essa revista, especializada em publicações de medicina, editada desde 1823, tem grande influência no meio científico.Um cientista que consegue publicar um artigo nela sempre ganha notoriedade. Assim, em 1998, quando Andrew Wakefield publicou na The Lancet um artigo que ligava a vacina MMR (sarampo-caxumba-rubéola), tal publicação se difundiu rapidamente causando temor nas pessoas. Afinal, era um médico britânico, publicando numa das maiores revistas de medicina, um artigo avaliado por pares (outros médicos especialistas no assunto) dizendo que crianças que tomassem a vacina poderiam desenvolver autismo. Sentir medo da vacina era bastante justificável!

Em 2010, 12 anos depois da publicação, já tendo influenciado milhões de pessoas a desconfiarem da vacina, o autor do artigo teve seu registro de médico cassado por ter conduzido a pesquisa que originou a publicação de forma desonesta, enganosa e irresponsável.

Wakefield reconhecia que seu artigo era baseado apenas na hipótese de que a presença de fragmentos de vírus do sarampo, oriundos das vacinas, pudessem indicar que a vacina MMR poderia causar problemas gastrointestinais e inflamação no cérebro e, talvez, o autismo. A perda do Registro no Conselho de Medicina e a retratação da revista vieram tarde e mesmo hoje, passados mais de 20 anos, ainda encontramos pessoas influenciadas por essas informações sem fundamento. Infelizmente a divulgação irresponsável de uma pesquisa conduzida sem critério científico fez despencar os índices de vacinação em todo o mundo e colocou em dúvida a seriedade dos trabalhos de desenvolvimento de vacinas, recursos indispensáveis para a saúde pública mundial.

O questionamento que surge naturalmente em qualquer um que reflita sobre este tema é: Por que a afirmação de que a vacina causava autismo foi difundida e aceita tão rapidamente e depois as mesmas pessoas não aceitaram a correção, a retratação pela revista e pelo próprio médico? Por que duas décadas depois ainda encontramos o grupo “antivacinas” explorando o artigo equivocado já desmentido? Ignorância, falta de cultura, falta de simples leitura provavelmente são as principais causas desse comportamento suicida.

Wakefield, ao dizer que se tratava de uma hipótese, admitia que a ligação entre vacinas e autismo poderia ser verdadeira ou falsa, porque uma afirmação hipotética pode ser verdadeira ou não. Uma hipótese serve apenas para iniciar um estudo, para indicar a necessidade de estudar determinado assunto. Seria diferente se ele tivesse apresentado a ideia como teoria, teorema ou tese. Por mais que seja duro, precisamos admitir que a maioria das pessoas toma como verdade o que lhes é apresentado como uma hipótese. Foi isso que aconteceu com o desastroso artigo da Te Lancet e mais recentemente com outras publicações que criaram o caos no combate da pandemia Covid-19. A “hipótese da cloroquina” ainda ecoa forte, no entanto, pensar que hipoteticamente é possível que crianças que receberem as vacinas da Pfeizer venham a desenvolver uma doença terrível é a nova aposta dos antivacinas.

Não adianta os dados robustos que mostram que 37 países adotaram a vacina e que desde junho de 2021, mais de 5 milhões de crianças foram vacinadas e não há registros de efeitos colaterais além de coceira, dor no braço e às vezes febre. Também não adianta mostrar que só em 2021 mais de 200 crianças não vacinadas morreram de Covid no Brasil. As pessoas preferem acreditar em teorias da conspiração propagadas via whatsapp.

Um dos argumentos mais comuns entre os “antivacina” é o de que as vacinas da Covid foram desenvolvidas muito rapidamente e que com isso, as crianças estariam sendo usadas como cobaias. Mas esse argumento é fraco e não se sustenta de nenhuma forma. Antes da Covid-19, a vacina que havia sido desenvolvida mais rapidamente era a da caxumba. Maurice Hilleman, microbiologista americano desenvolveu a vacina da caxumba entre 1963 e 1966 e a vacina foi licenciada em 1967. Mas vale lembrar que ele trabalhou sem pressa, somente com sua equipe e com os recursos tecnológicos que haviam na época. Ele decidiu estudar e criar a vacina depois que sua filha contraiu a doença. Hilleman foi o gênio das vacinas. 14 das vacinas disponibilizadas para crianças hoje foram desenvolvidas por ele e ao todo ele desenvolveu 40 vacinas, tanto para humanos como para animais.

Então, será que em 2020, com o mundo inteiro gastando bilhões de dólares e, pesquisas simultâneas com 160 vacinas, é um absurdo acreditarmos que tenham conseguido desenvolver 3 ou 4 com sucesso? Se um único microbiologista foi capaz de desenvolver 40 vacinas, uma delas em menos de 4 anos, reduzir esse tempo nos dias de hoje, principalmente durante uma pandemia, era uma obrigação da ciência moderna! Porém não foi isso que aconteceu. O desenvolvimento das vacinas da Coivd-19 não foi realizado em um ou dois anos como podemos ser levados a crer.

O termo coronavírus foi adotado em 1968, após observações da estrutura do vírus ao microscópio, no entanto, já em 1930 havia sido isolado o primeiro vírus dessa espécie capaz de infectar humanos. Cientes dos riscos do surgimento de uma epidemia de doenças causadas por esses agentes infecciosos, diversos grupos científicos continuaram trabalhando em pesquisas visando a compreensão dessas espécies, mas tudo acontecia num ritmo lento. Não havia urgência. Mas em 2003, um surto de SARS provocado por um coronavírus levou mais de 700 pessoas à morte. Estava clara a necessidade de buscar uma vacina e alguns grupos de pesquisa se dedicaram a isso. Foi o conhecimento desenvolvido por estes pesquisadores que serviu de base para o desenvolvimento das vacinas que até o momento, estão nos salvando da pandemia. Podemos afirmar sem medo de errar, que o conhecimento necessário para o desenvolvimento das vacinas começou a ser construído em 1930 com o isolamento e identificação do coronavírus.

Vacine-se Vacine seus filhos. É seguro, é necessário é um ato de amor ao próximo!

Luís Ferraz
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